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Retórica leviana anti-Rússia vem da antiga cartilha do macartismo

27 fev

Por Glenn Greenwald ( The Intercept )

PARA ASPIRANTES A JORNALISTAS, historiadores e cidadãos politicamente engajados, não há nada melhor que investir seu tempo na leitura aleatória dos boletins informativos de I.F. Stone, jornalista destemido e independente da época da Guerra Fria que se tornou, a meu ver, o primeiro “blogueiro” dos EUA, mesmo tendo morrido antes do advento da internet. Frustrado com o ambiente corporativo e opressivo da grande mídia e com seu modelo propagandístico em favor do governo e, por fim, banido dos meios de comunicação dominantes por conta de suas objeções à narrativa anti-Rússia, Stone criou sua própria newsletter bimestral, mantida exclusivamente por assinantes, e passou 18 anos desmascarando incansavelmente as propagandas do governo americano e de seus parceiros na mídia.

O que torna a produção de Stone tão valiosa não é sua elucidação da história, mas a elucidação do presente. O aspecto mais impressionante de seus boletins é observar como pouco mudou na propaganda e no militarismo do governo dos EUA e no papel desempenhado pela mídia americana em sua sustentação. De fato, ao ler suas reportagens, tem-se a impressão de que a política americana reproduz eternamente os mesmos debates, conflitos e táticas.

Grande parte dos escritos de Stone, particularmente durante os anos 50 e começo dos anos 60, se concentraram nas técnicas para manter os americanos em um estado de medo exagerado do Kremlin. Uma passagem específica de agosto de 54 chama atenção em particular. Nela, Stone explica por que é impossível deter o macartismo nos EUA quando líderes do Kremlin são caracterizados constantemente como ameaças sérias e onipotentes, com o intuito de defender as guerras e o militarismo americano. Fora a mudança na ideologia de Moscou — algo que muitos dos mais nocivos macartistas atuais negam solenemente —, as observações de Stone poderiam ser aplicadas aos dias de hoje com a mesma precisão.

Se comunistas são uma raça sobrenatural de seres humanos, liderados por um mentor no Kremlin, envolvidos em uma conspiração satânica para dominar o mundo e escravizar a humanidade — essa é a tese defendida incansavelmente tanto por progressistas quanto conservadores americanos, repetida noite e dia por todas as estações de rádio e jornais — a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito —, como então combater [o senador] McCarthy?

Se a opinião pública deve ser condicionada à guerra, se está sendo adestrada para considerar natural a destruição de milhões de seres humanos, alguns deles contaminados por esse terrível vírus ideológico, todos supostamente implorando por liberdade, como podemos alegar que seria grave se alguns homens, possivelmente inocentes, perdessem seu empregos ou tivessem suas reputações manchadas por causa de McCarthy?

Dois pontos fundamentais a serem destacados: 1) o segredo para manter a população com medo de adversários externos é representá-los como se fossem poderosos e onipresentes; e 2) uma vez enraizada a caracterização, poucos estarão dispostos a questionar a propaganda por medo de serem acusados de defender o Mal Externo: “a tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito”.

Essa tática – que caracteriza adversários como supervilões onipotentes – foi fundamental para a guerra ao terrorismo. Muçulmanos radicais não representavam apenas ameaças violentas, eram ameaças extraordinárias, como vilões em um filme de James Bond.

Quando emergiram as fotos mostrando como o governo americano transportou o suspeito de terrorismo José Padilha para seu julgamento, com os olhos vendados e ouvidos tapados, um comentarista político americano justificou a cena explicando que isso era necessário para evitar que o suspeito “piscasse códigos” para que seus camaradas iniciassem atentados. Ao ser questionado sobre por que suspeitos de terrorismo eram algemados e amordaçados durante os voos intercontinentais para Guantánamo, um oficial do exército americano disse se tratar de “pessoas que cortariam um cabo hidráulico com os dentes para derrubar um [Boeing] C-17”. Detinham poderes de magia negra e se espreitavam por toda parte, mesmo quando não podiam ser vistos. Por esse motivo, devem ser temidos a ponto de justificar qualquer pretexto ou política em nome de aniquilá-los.

POUCOS VILÕES ESTRANGEIROS foram investidos de tanta onipotência e onipresença quanto Vladimir Putin — pelo menos, desde que o Partido Democrata descobriu (o que equivocadamente acreditavam ser) sua utilidade política no papel de bicho-papão. Há pouquíssimos acontecimentos negativos no mundo que não acabam com o líder russo sendo responsabilizado e pouquíssimos críticos do Partido Democrata que não são, em algum momento, classificados como colaboradores de Putin ou espiões do Kremlin:

putin

Tradução: “Já existiu um vilão mais onipresente e onipotente na história?”

Tradução: “Howard Dean: Seria interessante descobrir se The Intercept recebe dinheiro da Rússia ou do Irã.”

“Corine Marasco: Anúncio de utilidade pública: Culpa por associação é a especialidade de Lee Fang [repórter do The Intercept] porque ele se considera um “jornalista investigativo.”

Tradução: Rachel Maddow: Por que Jill Stein não disse nada sobre o escândalo Trump-Rússia?
Em destaque: Maddow levanta suspeita sobre o silêncio de Stein quanto às tentativas russas de interferir nas eleições e beneficiar Donald Trump.
Em destaque: “Não sei, Jill – não sei pronunciar isso em russo”.

Putin, assim como os terroristas da al Qaeda e, antes deles, os comunistas soviéticos, está por toda parte. A Rússia está por trás de todos os males e, principalmente, é claro, por trás da derrota de Hillary Clinton. Quem se atreve a questionar essa premissa se mostra um traidor, possivelmente, parte da folha de pagamento de Putin.

Conforme a repórter do The Nation, Katrina vanden Heuvel escreveu na terça-feira (21) no Washington Post: “Nos ataques a Trump, muitos progressistas se juntaram ao furor neomacartista, criticando aqueles que buscam reduzir as tensões entre os EUA e a Rússia, e classificando como apologistas de Putin quem expressa dúvidas quanto às acusações de hackeamento e conluio. … Não precisamos de uma reprodução da histeria da Guerra Fria que paralise o debate, difame céticos e prejudique os esforços em explorar áreas de concordância com a Rússia em nome do nosso próprio interesse nacional”. Isso reflete exatamente o que Stone observou há 62 anos: a alegação de infiltração e onipresença russa é a “tese de que nenhum americano se atreverá novamente a contestar nada sem que se torne suspeito” (Stone não foi apenas considerado um colaborador do Kremlin durante sua vida, mas também foi chamado de agente stalinista depois de sua morte).

Escrevi exaustivamente sobre isso durante o ano passado à medida que a Febre Russa chegava ao seu ápice, ou para ser mais preciso, seu zênite. Não vou repetir tudo aqui.

 

MAS GOSTARIA DE CHAMAR a atenção para um excelente artigo no Guardian do jornalista americano, nascido na Rússia, Keith Gessen, em que examina — e refuta — de forma cirúrgica todas as alegações histéricas, ignorantes, alarmistas e manipulativas predominantes no discurso político americano sobre a Rússia, Putin e o Kremlin.

O artigo começa dizendo: “Vladimir Putin, você deve ter notado, está por toda a parte.” Por consequência, ele ressalta, a “Putinologia”, que define como “a produção de análises e comentários sobre Putin e suas motivações, baseados em informações necessariamente parciais, incompletas e, por vezes, completamente falsas”, tem tido muito destaque atualmente, mesmo que “tenha existido como um ramo intelectual distinto por mais de uma década”. Em síntese, ele escreve: “Em nenhum momento da história tantas pessoas com tão pouco conhecimento, e tamanha indignação, opinaram a respeito do presidente da Rússia.”

Não é exatamente raro que a mídia americana e seus comentaristas políticos opinem sobre adversários estrangeiros com uma mistura de ignorância e paranoia. Mas o papel desempenhado por Putin, acima de tudo, diz o autor, é o de estabelecer que os problemas americanos não são responsabilidade dos EUA, mas culpa de estrangeiros e, principalmente, eximir o Partido Democrata da necessidade de encarar seus próprios erros e fracassos.

Segundo uma pesquisa recente, Hillary Clinton e seu comitê de campanha ainda culpam os russos — e, por associação, Barack Obama, por não ter feito um drama sobre o hackeamento até novembro — por seu fracasso eleitoral. Nesse caso, pensar em Putin ajuda a não pensar em tudo que deu errado e no que precisa consertado.

Mas, enquanto o desencargo de consciência pode ser uma motivação importante, o grande perigo é o quanto essa obsessão distrai e deturpa a corrupção generalizada da classe dominante americana. Como diz Gessen:

Se Donald Trump sofrer um impeachment e for preso por conspirar com uma potência estrangeira visando prejudicar a democracia americana, vou comemorar tanto quanto qualquer americano. No entanto, no longo prazo, o argumento da [interferência da] Rússia não é apenas política de baixa qualidade, é falência moral e intelectual. É uma tentativa de culpar uma potência estrangeira por seus próprios, profundos e persistentes problemas. Conforme destacaram alguns comentaristas, é uma página da cartilha do próprio Putin.

Conforme explicou em detalhes Adam Johnson no Los Angeles Times na semana passada, o esforço constante em atribuir [a vitória de] Trump à dinâmica política externa visa ignorar a realidade de que foram a política e a cultura americanas que levaram à ascensão de Trump. Nada cumpre essa tarefa melhor do que continuar atribuindo Trump — e quaisquer outros resultados negativos — ao trabalho secreto de líderes do Kremlin.

O jogo dos democratas tradicionais e seus aliados não é apenas vulgar; é perigoso. As classes política, midiática, militar e os serviços de inteligência americanos ainda estão repletos de pessoas buscando um confronto com a Rússia; inclusive oficiais militares indicados por Trump para cargos importantes.

Conforme observou Stone nos anos 50, de um lado, a agressão e o alarmismo quanto ao Kremlin e, do outro, a acusação de deslealdade aos críticos domésticos dessa abordagem estão intrinsecamente vinculados. Quando um é enraizado, se torna muito difícil evitar o outro. Não é possível reproduzir a retórica de demonização de um adversário estrangeiro por muito tempo sem que sejam desencadeados, consciente ou inconscientemente, confrontos perigosos entre os dois.

Foto principal: Retrato do jornalista I. F. Stone em seu escritório. Washington, 1966.

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Documento secreto sobre 11/9 detalha possível ligação saudita com Al Qaeda

16 jul

Documento secreto sobre 11/9 detalha possível ligação saudita com Al Qaeda
MARK MAZZETTI
DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON(15/07/2016 )
O Congresso norte-americano levou a público nesta sexta-feira (15) um documento que passou anos em sigilo e que detalha possíveis ligações entre o governo saudita e o complô terrorista do 11 de setembro de 2001.

O documento de 28 páginas é um catálogo abrangente de alegados vínculos entre autoridades sauditas e agentes da Al Qaeda, desde contatos que agentes sauditas no sul da Califórnia tiveram com os sequestradores até um número telefônico encontrado com o primeiro prisioneiro da Al Qaeda em custódia da CIA, que o FBI rastreou e descobriu ser de uma firma que administrava uma residência no Colorado do príncipe Bandar bin Sultan, o então embaixador saudita em Washington.

O documento, que faz parte de um inquérito do Congresso de 2002 sobre os ataques de 11 de
setembro, foi mantido em segredo até agora devido ao receio de que pudesse desgastar as
relações diplomáticas entre os EUA e a Arábia Saudita.

FILE - In this Sept. 11, 2001 file photo the twin towers of the World Trade Center burn behind the Empire State Building in New York after terrorists crashed two planes into the towers causing both to collapse. The government is preparing to release a once-classified chapter of a congressional report about the attacks of Sept. 11, that questions whether Saudi nationals who helped the hijackers with things like finding apartments and opening bank accounts knew what they were planning. House Minority Leader Nancy Pelosi said Friday July 15, 2016, that the release of the 28-page chapter is "imminent.” (AP Photo/Marty Lederhandler) ORG XMIT: NYR107

As Torres Gêmeas do World Trade Center após terroristas colidirem dois aviões contra os
edifícios.
Sua divulgação assinala o fim de uma luta travada durante anos porlegisladores e as famílias
das vítimas do 11 de setembro para levar a público qualquer evidência de que a Arábia Saudita pudesse ter exercido um papel nos ataques.

A maioria dos fatos em torno dos ataques não é objeto de contestação séria, mas a controvérsia duradoura em torno do possível papel desempenhado por autoridades sauditas serve para lembrar que alguns mistérios permanecem, mesmo agora, quando o 15º aniversário dos ataques se aproxima.

A administração Obama enviou à liderança do Congresso uma versão não sigilosa do documento, com alguns cortes, na sexta-feira. Horas mais tarde o documento foi postado no site na internet do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados.

Boa parte da pressão exercida ao longo de mais de dez anos para liberar a divulgação do
documento foi liderada pelo ex-senador democrata Bob Graham, da Flórida, que foi um dos
copresidentes do inquérito congressional. Graham disse por muito tempo que a divulgação do documento traria provas convincentes de que o governo saudita teve participação direta no complô terrorista.

Mas o documento também é, até certo ponto, uma curiosidade histórica. As 28 páginas foram mantidas em sigilo por tantos anos que seu significado parece ter sido amplificado pelo tempo.
Investigações subsequentes conduzidas pela comissão do 11 de setembro e o FBI estudaram muitas das pistas presentes nas 28 páginas e constataram que algumas delas não têm base factual.

Em entrevista dada no mês passado, Eleanor J. Hill, diretora de pessoal do inquérito
congressional, descreveu as 28 páginas como “um resumo das informações dadas às agências para serem investigadas mais extensamente”, e não uma lista de conclusões firmes. O complô do 11 de setembro ainda é uma investigação em aberto do FBI.

Em seu relatório final, divulgado em 2004, a comissão do 11 de setembro disse que não
encontrou evidências de que “o governo saudita, como instituição, ou autoridades sauditas
seniores, individualmente, tenham financiado” a Al Qaeda.

Mas alguns membros da comissão observaram que os termos do relatório não excluíram a
possibilidade de que funcionários sauditas de escalão inferior tivessem auxiliado os
terroristas. Disseram que a comissão trabalhou sob forte pressão de tempo e não conseguiu
investigar todas as pistas.

Saudi Arabia Foreign Minister Adel al-Jubeir leaves after a news conference at the Saudi Arabian Embassy in Washington, Friday, July 15, 2016, after the U.S. released once-top secret pages from a congressional report into 9/11 that questioned whether Saudis who were in contact with the hijackers after they arrived in the U.S. knew what they were planning. (AP Photo/Andrew Harnik) ORG XMIT: DCAH110

O ministro das Relações Exterioes da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, deixa entrevista em
Washington.
Alguns investigadores continuaram perplexos, em especial, pelo papel exato desempenhado por Fahad al-Thumairy, funcionário consular saudita que vivia na área de Los Angeles na época dos ataques. Eles acreditam que, se houve algum envolvimento do governo saudita no complô, é provável que tenha passado por ele.

Thumairy era o imã de uma mesquita visitada por dois dos sequestradores do 11 de setembro, e alguns funcionários do governo americano desconfiam há anos que Thumairy tenha dado assistência aos dois homens -Nawaq Alhamzi e Khalid al-Mihdhar- depois de chegarem a Los Angeles, no início de 2000.

Um documento do FBI de 2012 citado no ano passado por uma comissão independente de revisão concluiu que Thumairy “imediatamente designou uma pessoa para cuidar de al-Hazmi e al-Mihdhar durante o período que passaram na área de Los Angeles”, mas o FBI não conseguiu revelar outros detalhes sobre os movimentos dos dois homens em seus primeiros tempos nos Estados Unidos.

Dois investigadores da comissão do 11 de setembro entrevistaram Thumairy por várias horas na capital saudita, Riad, em fevereiro de 2004, mas ele negou ter tido qualquer ligação com os sequestradores, mesmo depois de lhe terem sido mostrado registros telefônicos que
aparentemente o vinculavam aos dois homens.

No documento de 28 páginas é discutido o possível papel exercido por Thumairy, além de várias ligações possíveis entre agentes da Al Qaeda e funcionários sauditas. Uma seção do documento detalha como um número telefônico em uma caderneta de telefones encontrada com Abu Zubayda, capturado pela CIA no Paquistão em março de 2002, revelou ser de uma corporação em Aspen, Colorado, “que administra a residência do príncipe Bandar no Colorado”.

Abdullah al-Saud, o embaixador saudita nos Estados Unidos, disse em comunicado na sexta-feira que a Arábia Saudita “saúda a divulgação” do documento.

“Desde 2002, a Comissão do 11 de setembro e várias agências governamentais, incluindo a CIA e o FBI, investigaram o conteúdo das ’28 páginas’ e confirmaram que nem o governo saudita, nem funcionários seniores sauditas, nem qualquer pessoa agindo em nome do governo saudita deram qualquer apoio ou incentivo a esses ataques”, disse o embaixador.

Tradução de CLARA ALLAIN

Uol

 

Pepe Escobar: “Como os EUA estão criando o Siriastão”

30 set

Terroristas da Frente al-Nusra /al-Qaeda armados e pagos pelos EUA e Arabia Saudita
Se ainda faltasse alguma prova extra para destroçar o mito de uma luta “revolucionária” para alguma futura Síria “democrática”, as manchetes da semana acabaram com qualquer dúvida remanescente.
11, 13 ou 14 brigadas “rebeldes” (o número varia conforme a fonte) já fizeram descarrilar o tal Conselho Nacional Sírio, dito “moderado” e mantido pelos EUA, e o nada livre Exército Sírio Livre. Os líderes do bando são os jihadistas dementes da Frente al-Nusra – mas o bando inclui outras imundícies, como as brigadas Tawhid e Tajammu Fastaqim Kama Ummirat em Aleppo, algumas imundícies das quais eram, até recentemente, parte do Exército Sírio Livre, já em pleno colapso.
Na prática, os jihadis ordenaram que a miríade de “moderados” se submetessem, que se “unificassem num quadro claramente islamista” e que jurassem fidelidade a uma Síria futura na qual a lei da Xaria seja “a fonte única da legislação”.
 
Ayman al-Zawahiri
Um certo Ayman al-Zawahiri deve estar em festa, dançando em seu esconderijo confortável, à prova dedrones, em algum ponto dos Waziristões. Não só porque sua conclamação para uma jihad multinacional – à moda do Afeganistão nos anos 1980s – está funcionando; também porque o Conselho Nacional Sírio comandado pelos EUA já está exposto como o roedor desdentado que de fato é.
E fatos em campo só fazem comprovar exatamente isso. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, promovido pela al-Qaeda, acaba de tomar uma cidade próxima do ponto de passagem de Bab al-Salam na fronteira com a Turquia, que estava sob controle do Exército Sírio Livre, porque o Exército Sírio Livre foi acusado de lutar por “democracia” e de manter laços com o Ocidente. Errado. O Exército Sírio Livre deseja esses laços com o ocidente, sim; mas sob regime controlado pela Fraternidade Muçulmana. E o Estado Islâmico do Iraque e do Levante – do qual a Frente al-Nusra é o principal membro sírio – deseja um Siriastão talibanizado.
As gangues de jihadis linha duríssima na Síria somam cerca de 10 mil jihadistas; mas correspondem a cerca de 90% dos combates pesados, porque são os únicos com real experiência de combate (incluindo iraquianos que combateram contra norte-americanos, e chechenos que combateram contra russos).
 
Bandar bin Sultan
Paralelamente, e não por acaso, desde que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, foi nomeado pelo rei saudita Abdullah para comandar a jihad síria, com instruções para não deixar nem levar prisioneiros vivos, o Conselho Nacional Sírio dito “moderado” e aliado da Fraternidade Muçulmana do Qatar passou a ser cada dia mais deixado de lado.
Cortem a cabeça desses “pacifistas”
 
E, em matéria de descarrilamento catastrófico, nada se compara à desculpa do governo Obama para uma “estratégia”, a qual, teoricamente, se resume a armar e treinar extensivamente o elo mais fraco – gangues selecionadas do Exército Sírio Livre infiltradas por agentes da CIA – e que “impediriam” que as armas caíssem em mãos de jihadistas. Como se a CIA tivesse inteligência local confiável sobre as fontes do Golfo que garantem dinheiro e apoio logístico aos milhares de jihadistas.
O Conselho Nacional Sírio, o Exército Sírio Livre e o chamado “Comando Militar Supremo” (de exilados) comandado pelo grandiloquente general Salim Idriss já não passam, hoje, de piada.
A coisa toda aconteceu enquanto o presidente da Coalizão de Oposição Síria [Ahmed Asi] Al-Jerba, estava na Assembleia Geral da ONU em New York – onde se encontrou com o secretário de Estado John (“Assad é como Hitler”) Kerry. Kerry não falou sobre armas, mas sobre mais “ajuda” e futuras negociações na perenemente adiada Conferência Genebra-2. Al-Jerba ficou furioso. E, para piorar, várias das gangues do seu Exército Sírio Livre declaradamente bandearam-se para a al-Qaeda.
 
A Frente al-Nusra/al-Qaeda executa civis na região de Aleppo (Síria)
Por quê? Sigam o dinheiro. É assim que funciona. Pelo menos metade das “brigadas” do Exército Sírio Livre são mercenários – financiados do exterior. Lutam onde os patrões – que lhes pagam e lhes fornecem armas – mandam lutar. O “Comando Supremo” controla, no máximo, 20% das brigadas. E essa gente sequer vive na Síria; têm bases do lado turco ou jordaniano da fronteira.
Mas esses jihadis mercenários combatem em tempo integral. Eles são a efetiva força combatente, recebem salários em dia e suas famílias são protegidas e mantidas.
Assim sendo, trata-se hoje de guerra entre o Exército Sírio Árabe e um bando de jihadistas. Claro: nada disso será JAMAIS bem explicado pela imprensa-empresa à opinião pública ocidental.
Imaginem, então, se esses degoladores, comedores de fígados, fãs da Xaria, teriam algum desejo de aparecer na conferência Genebra-2 para negociar um cessar-fogo com o governo sírio e um possível acordo de paz com o eixo OTAN-Casa de Saud. Evidentemente nunca acontecerá – como Bandar Bush deixou bem claro, pessoalmente, em Moscou, para o presidente Vladimir Putin.
O pior, do ponto de vista de Washington, é que não há como explicar por que não pode acontecer nenhuma negociação significativa. Até os mais descerebrados infiéis que habitam os círculos do poder em Washington já viram que há conexão direta entre todas as hordas de “rebeldes”, e também, é claro, com os “rebeldes” sírios que abraçaram a al-Qaeda imediatamente depois que o grupo al-Shabaab atacou o shopping center Westgate em Nairobi.
 
Os degoladores da Frente al-Nusra/al Qaeda (financiados e armados pelos EUA via Arabia Saudita, Jordânia e Turquia) distribuem fotos e vídeos de seus “feitos e conquistas”  na internet
Nem é preciso dizer que Bagdá entrou em surto, ante esses desenvolvimentos. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante já aumentou os atentados com carros-bomba e homens-bomba no próprio Iraque – porque o governo de al-Maliki, “apóstata” xiita, é tão alvo preferencial quando o governo do secular Bashar al-Assad.
Quase nem acredito que há apenas cinco meses, eu mesmo escrevi sobre o advento do Emirado Islâmico do Siriastão. Agora já está bem claro que e como o “invisível” al-Zawahiri e o esperto Bandar Bush se apropriaram da “estratégia” de Washington para chegar, realmente, onde querem chegar.

 
 
[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network Televison Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros
POSTADO POR CASTOR FILHO

Jacques Henno: ‘Estamos todos vigiados e fichados’

9 set

O pesquisador e especialista das novas tecnologias Jacques Henno analisa os abusos e tendências que se inscrevem em uma nova era marcada pelo nascimento de um lobby entre os militares, a informática, os dados e os arquivos que circulam pela internet. Henno publicou vários livros que anteciparam de maneira detalhada e rigorosa as informações divulgadas por Edward Snowden. O resumo da obra é: estamos todos vigiados e fichados. Por Eduardo Febbro, de Paris

Eduardo Febbro

Paris – Antes de se deitar é preciso olhar embaixo da cama, desligar o sinal Wifi e fechar todos os acessos à internet da casa. A última leva de informações sobre a espionagem norte-americana atravessa uma nova fronteira da violação da privacidade. O jornal The New York Times revelou que Washington corrompeu toda a tecnologia que protege a internet para acentuar a espionagem. Por meio da Agência Nacional de Segurança norte-americana (NSA), os Estados Unidos roubaram chaves de segurança, alteraram programas e computadores e forçaram certas empresas a colaborar com o objetivo de ter acesso a comunicações privadas, tanto dentro como fora do território norte-americano. A NSA não respeitou limite algum: correios eletrônicos, compras na internet, rede VPN, conexões de alta segurança (o famoso SSL), acesso aos serviços de telefonia da Microsoft, Facebook, Yahoo e Google, a lista dos novos territórios de caça é interminável.

Segundo o diário norte-americano, a NSA gasta mais de 250 milhões de dólares anuais em um programa chamado Sigint Enabling cuja meta consiste em modificar a composição de certos produtos comerciais – computadores, chips, telefones celulares – para torná-los vulneráveis, ou seja, acessíveis aos ouvidos da NSA. A isto se somam as informações publicadas por Wikileaks sobre 80 empresas privadas que se servem das novas tecnologias para captar (espionar) em tempo real os intercâmbios no Facebook, MSN, Google Talk, etc. Estamos na mais perfeita intempérie tecnológica de maneira permanente sem que a vítima tenha a menor consciência disso. Um crime perfeito.

Em entrevista à Carta Maior, o pesquisador e especialista das novas tecnologias, Jacques Henno, analisa todos estes abusos e tendências que se inscrevem em uma nova era marcada pelo nascimento de um lobby entre os militares, a informática, os dados e os arquivos. Henno publicou vários livros que anteciparam de maneira detalhada e rigorosa as informações divulgadas pelo ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden: estamos todos vigiados. “Silicon Valley: Prédateurs Vallée?” (Silicon Valley, o vale dos predadores) e “Tous Fichés: l’incroyable projet américain por d’éjouer les atentas terroristes” (Estamos todos arquivados: o incrível projeto americano para evitar os atentados terroristas) exploram com muita lucidez um mundo de espionagem e violação dos direitos que, até algumas semanas, parecia produto de uma imaginação paranoica. As investigações de Jacques Henno demonstraram que não. As revelações de Snowden provaram que o especialista francês tinha razão.

Estamos descobrindo com uma assombrosa passividade a profundidade da espionagem de que somos alvo por parte dos Estados Unidos.

É preciso lembrar que a informática ao serviço do totalitarismo existe desde os anos 40. Durante a Segunda Guerra Mundial, se os campos de extermínio nazistas foram tão eficazes foi porque os alemães usaram as máquinas IBM que funcionavam com os cartões perfurados para contabilizar todas as pessoas. De modo similar, o Plano Condor que funcionou entre as ditaduras da América Latina para perseguir os opositores foi montado com o suporte de computadores vendidos pelos norte-americanos para as ditaduras da América do Sul. Estes computadores serviam para fichar os opositores.

Quando e como nasceu a espionagem moderna tal como está se revelando hoje?

Tudo isso nasce com um programa chamado TIA, Total Information Awareness. Após os atentados de 11 de setembro de 2011, os norte-americanos trataram de encontrar tecnologias capazes de prevenir este tipo de atentados. Rapidamente se deram conta de que tinham nas mãos todas as informações necessárias. Por exemplo, os terroristas que cometeram os atentados do 11 de setembro tinham sido identificados antes, quando andaram de avião, ou quando dois deles se escreveram em escolas de pilotagem de aviões. Tinham até fotos deles sacando dinheiro de um caixa automático. No entanto, o que faltava era a metodologia para unir todos esses arquivos e informações. Neste processo, entraram em ação empresas que foram ao governo norte-americano dizer: “nós trabalhamos com arquivos e podemos ajudá-los a prevenir atentados. Assim nasceu o sistema de vigilância completa, Total Information Awareness, ITA, capaz de criar arquivos sobre qualquer pessoa no mundo, sobre todos os habitantes do planeta, a fim de ter um máximo de informações sobre cada pessoa e, assim, descobrir sinais de preparação de atentados terroristas.
A Acxiom, por exemplo, é uma destas empresas. Ela é totalmente desconhecida para o grande público, mas é uma das empresas que detém o maior de arquivos sobre os consumidores do mundo. A cada ano, realiza pesquisas sobre a comida que damos aos gatos, o tipo de papel higiênico que utilizamos ou os livros que lemos. Na França, a Comissão Nacional de Informática e Liberdades (CNIL) se opôs várias vezes às pesquisas da Acxiom.

Essa tecnologia deu lugar ao nascimento de uma espécie de mega-sistema de cálculo matemático que cria perfis segundo uma série aparentemente racional de informações.

Exatamente. Por exemplo, logo depois dos atentados em Londres se descobriu que os terroristas preparavam os atentados comprando antes refrigeradores de grande capacidade para armazenar os explosivos. Com base nisso, agora, quem compra congeladores de grande capacidade torna-se suspeito e, por conseguinte, é fichado e vigiado. O mesmo ocorre com os aviões. Se alguém embarca em um avião rumo aos Estados Unidos e viaja pela primeira vez em classe executiva ou primeira classe também passa a ser vigiado. Os assentos de primeira classe são muito controlados porque estão mais perto da cabine dos pilotos. Então, se alguém compra uma passagem nesta classe e, segundo o resumo dos gastos do cartão de crédito, essa pessoa não tem os meios para pagar um bilhete a esse preço, automaticamente estará sob vigilância.
Em resumo, os norte-americanos exploram todas as informações que obtém de uma pessoa. Eles são, ao mesmo tempo, paranoicos e amantes da tecnologia. Paranoicos porque há muito tempo vivem armados. E amantes da tecnologia porque, cada vez que há um problema tratam de encontrar uma solução técnica e não forçosamente social ou econômica.

O curioso é que boa parte desses dados utilizados pela NSA foram entregues voluntariamente pelos usuários.

Claro. Quando nos inscrevemos no portal de uma empresa norte-americana, Yahoo, Microsoft, Google ou outras, não lemos até o final as condições de utilização. No entanto, se prestarmos atenção veremos que ali é dito textualmente: “autorizo o armazenamento destas informações no território norte-americano”. Agora, se os dados que confiamos a Yahoo, Microsoft, Amazon, Facebook ou Google estão armazenados no território norte-americano, eles estão regidos pelo direito norte-americano. A lei votada depois dos atentados de 11 de setembro, o Patriot Act, permite a qualquer governo norte-americano requisitar os arquivos e dados que julgar necessários. Os dados que entregamos a essas empresas vão parar na NSA.

Há uma mudança fundamental na regra da constituição dos lobbies que atuam nos Estados Unidos. O lobby da defesa mudou de perfil com as tecnologias da informação.

Sim. Antes se falava de um lobby militar-industrial. Havia, de fato, uma conjunção entre a indústria e os militares. Agora não. O lobby atual é entre os especialistas nestes arquivos, os técnicos em informática e os militares. Não somos conscientes da quantidade de informações privadas que fornecemos a cada dia aos operadores privados da internet. Por exemplo, no Facebook se publicam a cada dia 350 milhões de fotos. Ao cabo de dez dias, há 3,5 bilhões de fotos, e em cem dias 35 bilhões. O Facebook é hoje a maior base de imagens do mundo. É uma incrível quantidade de informações que fornecemos. O Google, por exemplo, é capaz de prevenir a epidemia de gripes no mundo só calculando a quantidade de pessoas que, em um determinado lugar, busca informação sobre os sintomas da gripe e como curá-la. Além disso, os custos desta tecnologia, de armazenamento, memória ou microprocessadores, são cada vez mais baixos. A NSA é perfeitamente capaz de armazenar todas essas informações e analisá-las com programas especializados, incluindo os e-mails que enviamos e recebemos.

Como você demonstra em seu livro “Sillicon Valle, vale dos predadores?”, tanto a espionagem como o dinheiro que Google ou Facebook ganham na internet provém de nossa…digamos, inocência.

O Vale do Silício é o vale do Big Data. Empresas como Google ou Facebook vivem dos dados que nós fornecemos. Com eles, tratam de saber quais são nossos centros de interesse e, a partir daí, nos enviam publicidades que correspondem a nosso perfil. Um portal como o Facebook vive da publicidade e fará todo o possível para saber mais coisas sobre nós e nossos amigos, para incitar-nos a publicar mais e mais coisas sobre nós. Uma vez obtidos esses dados, o que fazem é materializar essas informações sob a forma de publicidades. A essas empresas só interessam nossos dados, nossas informações, querem ampliar o campo da vida privada. Na verdade, não querem que o que dizemos pertença ao campo da vida privada, mas sim ao da vida pública.
O Facebook é capaz de identificar e classificar as pessoas em função de suas preferências por determinadas práticas sexuais ou por certas drogas. Isso é muito perigoso porque, em alguns países, há práticas sexuais que estão proibidas. Por conseguinte, a esses regimes políticos basta ir ao Facebook, fazer uma busca por idade, diplomas, zonas geográficas e práticas sexuais para encontrar as pessoas que queiram. Qualquer regime político tem acesso a todas essas informações. Em resumo, assistimos a um fichamento sexual, ideológico, político e religioso.

A Europa, neste terreno, é um mero aliado sem influência, um cliente menor. O que ocorreu com os europeus que ficaram dormindo, sem capacidade tecnológica alguma?

O império norte-americano utiliza as rotas da informação para captar as informações a fim de garantir sua segurança e, também, para a espionagem econômica ou industrial. E nós, como europeus, estamos na periferia do império norte-americano e, além disso, enviamos informações para ele. Fomos incapazes de criar o equivalente do Google, Facebook ou Apple para conservar essas informações na Europa. Todas as informações que os europeus produzem transitam pelos Estados Unidos. O império norte-americano controla 80% de tudo o que passa através da internet no mundo. Imagine! O Google conta com mais de um bilhão de usuários no mundo. E toda a informação produzida por esse bilhão de usuários passa pelos Estados Unidos. No plano militar ocorre o mesmo. Quando a França lançou a ofensiva contra os militantes islâmicos radicais em Mali teve que pedir respaldo norte-americano. Os Estados Unidos forneceram a França informação, radares e drones. Os exércitos da Europa dependem hoje das informações fornecidas pelos Estados Unidos. Os únicos que conseguiram desenvolver algumas tecnologias próprias são os chineses.

A Industria do Terror

3 maio

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A mídia e os políticos foram mais terroristas, no sentido próprio da palavra, do que os autores do atentado em Boston

Terrorismo pressupõe militância em uma organização, ou pelo menos a tentativa de intimidar uma população ou governo com um objetivo político definido. Não parece o caso dos autores do atentado de Boston: não há sinais de laços com grupos organizados, inspiração de um líder político ou religioso ou reivindicação do atentado em nome de uma causa. Ao contrário, por exemplo, de Andreas Breivik, que fez questão de se explicar em um longo manifesto.

Em outros aspectos, Tamerlan Tsarnaev se parece ao norueguês: foi por conta própria que radicalizou e buscou vídeos e foros sobre extremismo. Breivik intitula-se um cruzado do Ocidente contra o Islã, o feminismo e o marxismo e, apesar de não pôr os pés numa igreja há anos, professa ser um “cristão cultural”. O checheno era um muçulmano cultural, que se imaginava numa Jihad, mas raramente ia à mesquita. Sua ideologia, tanto quanto suas bombas, foi uma bricolagem caseira a partir de dados da internet e parece nascida mais de fantasias pessoais que de engajamento real. Os separatistas chechenos têm uma rede de apoio em Boston e Tamerlan pode tê-los contatado ali ou no Daguestão, que visitou em 2012, mas não é crível que apoiassem o atentado: sua luta é contra a Rússia, não contra os Estados Unidos.

Já o comportamento de autoridades e da mídia dos EUA indica não só equívocos policiais e jornalísticos, como a vontade de usar o atentado para intimidar com fins políticos precisos. Mais de 10 mil foram mortos nos EUA (sem contar suicídios) por armas de fogo em 2012, 86 em carnificinas em massa, mas isso é tratado quase como rotina, sequer um motivo sério para restringir a venda de fuzis automáticos. Já a explosão de um par de bombas caseiras deixou uma grande cidade praticamente sob estado de sítio, levou os EUA a emitir um alerta global aos 190 países da Interpol e políticos conservadores a exigir a espionagem rotineira de mesquitas, a cobertura de cidades inteiras por câmeras de segurança e leis mais duras contra imigrantes. Uma palestina e um bengali foram agredidos em Boston e Nova York. Não é receio objetivo da violência, mas exploração do medo subjetivo do “outro”.

Usuários de redes sociais, ao competir por atenção na rede se arrogaram investigadores por trás de seus teclados, selecionando “suspeitos” de fotos da multidão em Boston e os procurando nas redes sociais com mais preconceitos que critérios. Um post no Banoosh, por exemplo, marcava um deles com base nos seguintes “indícios”: “sozinho”, “pardo”, “mochila preta” e “não olhando”, mesmo se dezenas de pessoas enquadradas na foto também não olhavam a corrida, não pareciam acompanhadas e pelo menos duas destas eram homens com grandes mochilas pretas – mas, claro, eram brancos.

O diretor de uma dessas redes, a Reddit, desculpou-se depois pelas especulações perigosas desse inusitado crowdsourcing, que causaram graves problemas a inocentes. Mas os erros mais infames foram do tabloide New York Post, do grupo Murdoch, que repercutiu tais conjeturas e lhes deu o peso da mídia profissional. Antes afirmara que um saudita ferido na explosão fora preso pelo atentado (foi interrogado e a única vítima a sofrer uma busca em seu apartamento, mas jamais detido). A CNN e a AP o seguiram, na ânsia insana de reter a audiência e competir com o Twitter em agilidade, mas ao menos se retrataram.

Não foi o caso do Post, que, para corrigir a primeira afirmação, publicou na primeira página: “Os homens da bolsa: federais buscam esses dois”. Eram jovens marroquinos “pardos”, um dos quais de mochila, em uma das muitas fotos enviadas ao FBI de uma página do Reddit chamada “Encontre os bombardeiros de Boston”. Ao ouvir comentários sobre a denúncia na rádio policial, Anonymous (pseudônimo de um conhecido grupo de hackers) divulgou no Twitter que a polícia “identificara os nomes dos suspeitos”, como uma confirmação. Um dos rapazes, apavorado, buscou a polícia, que o dispensou com a recomendação de fechar sua conta no Facebook, mas continuou com medo de ir à escola.

Quando o FBI revelou as imagens ainda sem o nome dos suspeitos, brancos caucasianos no sentido mais estrito da palavra, outros amadores julgaram identificar no mais jovem um estudante de origem indiana desaparecido há semanas e divulgaram seu nome e perfil. A família, aterrorizada, retirou do Facebook a página onde pedia informações sobre o rapaz, encontrado morto dias depois. Quando os verdadeiros nomes foram revelados, um desocupado criou no Twitter um perfil falso do jovem suspeito no qual divulgou falsas ameaças. O editor do site de notícias Daily Caller jactou-se na rede de ter descoberto o “verdadeiro perfil” de Dzhokhar e outra vez uma falsa notícia foi citada na rádio policial, ouvida por hackers que realimentaram o boato como “confirmado pela polícia”.

Houve vários relatos de outras bombas e detonações “controladas” na cidade, depois desmentidos. O assalto a uma loja de conveniência foi associado aos suspeitos e a polícia depois negou relação com o caso. Em meio à perseguição, um homem preso e despido pela polícia foi mostrado pela tevê como um dos suspeitos, mas aparentemente foi libertado em seguida sem explicações. A polícia alegou que Dzhokhar matou o irmão ao atropelá-lo em fuga, mas os médicos que tentaram salvá-lo não viram sinais de atropelamento, apenas um moribundo crivado de balas e ferido por uma granada.

Mídias respeitadas somaram erros e contradições jamais explicados aos relatos já confusos da polícia, o que decerto alimentará inúmeras teorias conspiratórias. Uma delas não soa totalmente absurda: terão sido os irmãos induzidos pelo próprio FBI? O FSB russo (ex-KGB) suspeitou de Tamerlan em 2011 e pediu ao FBI para investigá-lo. O Bureau de início negou-se, mas depois admitiu que o interrogou e parentes antes de arquivar o caso. Houve muitos casos oficiais de amadores instigados a planejar atentados por agentes provocadores federais, que posaram como radicais islâmicos para prendê-los em flagrante. Se um caso como esse escapasse ao controle, o que não fariam os responsáveis para encobrir o erro?

Antonio Luiz M. C. Costa —Carta Capital

Terrorismo com consciência social

15 dez

Mord, Sprengstoffverbrechen, Banküberfälle u.a. Straftaten, [1972]
Produção alemã conta a história do grupo terrorista Baader Meinhof. Autoproclamados militantes de esquerda, eles confrontaram a política conservadora da Alemanha Ocidental, na década de 1970
Bruno Garcia

Atentados com carros bomba, sequestros de aviões, autoridades assassinadas. O cenário: a Alemanha Ocidental da década de 70. Em O grupo Baader Meinhof (2008), o diretor alemão Uli Edel conta a história da formação e da atuação da Facção do Exército Vermelho (RAF, em alemão) a partir da polarização entre esquerda e direta no país e do crescimento da hostilidade entre os diferentes partidos e organizações políticas. Bastante detalhista, o filme passa pelos principais eventos do período, apresentando a atmosfera de tensão que o país passava ao longo do processo de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial.

Geralmente, associamos a figura do terrorista ao fundamentalista islâmico com pouca educação e facilmente seduzido por ideologias apocalípticas. Mas frequentemente esquecemos que o terrorismo tem uma história muito mais perturbadora e próxima do que gostamos de lembrar. Na Alemanha da década de 70, estudantes, jornalistas e outros jovens idealistas, se rebelaram com o que julgavam ser um estado fascista, comprometido com o imperialismo norte americano, que teimava em destruir países miseráveis e distantes como o Vietnã.

O grupo alemão RAF era movido por um messianismo revolucionário e pelo uso do terror como combate ao capitalismo. Liderados por Andreas Baader, sua namorada, Gudrun Ensslim e, mais tarde, a jornalista Ulrich Meinhof, o grupo chegou a receber treinamento na Jordânia, junto com grupos que lutavam pela independência da palestina, e, adotando táticas de guerrilha urbana, produziu uma onda de violência sem precedentes na recém-criada Alemanha Ocidental.

Os protestos de 1968

O filme de Edel começa com os lendários protestos de 1968. O movimento que, por todo mundo, ficou conhecido por produzir lemas como Paz e Amor¸ pela liberdade sexual e o combate à Guerra do Vietnã, teve dimensões muito mais dramáticas em solo alemão. Inconformados com a presença de autoridades com passado nazista no novo governo, e com o ostensivo alinhamento com o Imperialismo Americano, jovens alemães se acotovelavam nos comícios da Social Democracia.

Àquela altura, os sonhos da nova esquerda alemã dependiam de um jovem estudante de sociologia que ficara conhecido por arrastar multidões de entusiastas aos seus pronunciamentos. Em 1968, Rudi Dutschke era a grande figura política em ascensão. Marxista e líder da Juventude da Social Democracia, Dutschke passou a aparecer com frequência em debates públicos.

No dia 11 de abril, atendendo às manchetes de jornais conservadores, como o Bild-Zeitung que frequentemente dava notícias como como “Parem Dutschke já”, um jovem reacionário atira contra o rebelde, deixando-o em estado grave. O atentado chocou a esquerda alemã e produziu uma rápida radicalização. Andreas Baader e Ensslin Gudrun, que puseram posto fogo em uma loja de departamento em Frankfurt poucos dias antes do atendado, julgaram necessária a luta armada contra o Estado. Gudrun diria mais tarde: “Não se discute com a geração que criou Auschwitz!”.

Criado em 1970, o grupo ficou popularmente conhecido como Baader Meinhof depois que a jornalista Ulrich Meinhof colaborou com a fuga de Andreas. Dali em diante, entre exílios e operações clandestinas, aqueles jovens ganharam a notoriedade internacional, recebendo o apoio de estudantes de todo mundo por desafiarem as autoridades com recursos escassos e enorme entusiasmo.

Oficialmente, o grupo só foi extinto em 1998, quando a Agencia Reuters recebeu um documento de oito páginas anunciando sua dissolução. O filme, no entanto, se concentra na primeira geração, que foi quase toda presa entre 1973 e 1974, e a segunda, que em nome dessas lideranças, produzem o que ficou conhecido como Outono Alemão, em 1977. Entre os principais atentado estavam o sequestro do voo 181 da Lufthansa, que ia de Palma de Mallorca para Frankfurt e assassinato do banqueiro Jürgen Porto.

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Terrorismo à moda alemã

O terrorista, representado hoje em dia como uma criatura irracional, desnecessariamente agressivo e facilmente corrompido por ideologias autodestrutivas, pouco tem com a forma como são tratados aqui. O filme tem o cuidado de não heroicizar o grupo, nem de banalizar suas reivindicações. O intermédio é feito pelo personagem de Horst Herold, vivido no filme pelo legendário Bruno Ganz. Reconhecido hoje como provavelmente o melhor policial que a Alemanha já teve, Herold ficou conhecido pela caça bem sucedida aos terroristas da RAF e, especialmente, por sua sensibilidade em interpretar a lógica por trás dos atentados enquanto as autoridades teimavam em simplesmente demonizá-los.

Aos mais atentos, o longa-metragem apresenta uma análise lúcida sobre o estado dos estados da Europa Ocidental durante a Guerra Fria. Uma análise muito pouco animadora, distante do discurso tradicional de mundo livre comprometido com a democracia e a liberdade. Autoproclamados bastiões da democracia contra o totalitarismo, os regimes ocidentais estavam cobertos por governos conservadores que subordinavam liberdade à segurança.

Enquanto na Espanha e em Portugal, os regimes autoritários anteriores à guerra se mantinham firmes até a metade da década de 70, a Inglaterra dava boas vindas à era de Margaret Thatcher. A ditadura grega, conhecida com Junta Militar, tinha o apoio dos Estados Unidos, enquanto o conservadorismo francês chegava no limite com as revoltas estudantis de 1968. Em outras palavras, a Alemanha Ocidental, que deveria fazer frente ao regime comunista que partira o país, era somente o exemplo mais dramático de como a ideia de liberdade e democracia estavam subordinados à segurança e à lógica do conflito da Guerra Fria.

Esse contexto, somado à ainda presente memória do nazismo, criara a estranha sensação de que o mundo não estava exatamente no caminho certo. O clima de tensões e ambiguidade é magistralmente apresentado no filme. Destaque para os pais de Gudrun: Ao saírem do julgamento da filha, pelo incêndio da loja de departamentos em 1970, eles declaram à televisão que ao se sacrificar em nome de uma causa maior, o gesto libertou a família de um passado sombrio que eles próprios não sabiam como lidar.

Baseado no livro de Stefan Aust, a obra faz parte de uma série de produções alemãs, que desde a década de 90 tem se comprometido em discutir momentos delicados de sua história no século XX. Nenhum outro país vem abrindo suas próprias cicatrizes de forma tão incisiva como os alemães. Tudo isso sem cair no óbvio ou caricato. No filme de 2008, a História está a serviço de uma reflexão maior, e cada vez mais necessária nos nossos dias. Demonstrando que pessoas comuns são capazes de ações extremas, o filme escapa dos maniqueísmos baratos, tão comuns após o 11 de Setembro, e visita um período difícil e repleto de possibilidades de forma responsável e lúcida.