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Negro, pobre e sem-terra: quem são os brasileiros que estudam medicina na Venezuela

24 maio

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais. - Créditos: Luiz Felipe Albuquerque/Saúde Popular

 

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais. / Luiz Felipe Albuquerque/Saúde Popular

Aos 21 anos, Jéssica Rodrigues Trindade não pensava que um dia poderia cursar uma faculdade de Medicina. O Brasil mantém um perfil elitizado na formação médica, com apenas 2,6% de negros entre os formados na área, em um território onde a maioria da população se declara como negra ou parda (53%), segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep). Mas não foi em uma escola brasileira que a assentada da reforma agrária e filha de camponeses pobres do estado do Pará quebrou esse paradigma.

Jéssica faz parte de um grupo de cerca de 250 jovens de 32 países de diversas partes do mundo que estudam na Escola Latino-americana de Medicina (Elam), na Venezuela. “Eu que sou negra, pobre, filha de pobre, vejo agora toda minha família vibrando pelo fato de eu estar aqui. As gerações da minha família não tiveram acesso à educação e entrar em Medicina é ainda mais complicado”, conta Jéssica, assentada no Palmares II, na cidade de Parauapebas (PA).

Criada em 2007 pelo então presidente venezuelano, Hugo Chávez, em parceira com Cuba, a Elam busca formar médicos de diversos países que tem carência na área. “Esse é um objetivo primordial da escola: formar médicos – que não teriam a possibilidade de estudar em seus países – não só na ciência, mas também em consciência, porque são médicos que voltarão aos seus países para dar um retorno aos seus povos, cuidando das doenças e dos problemas que seus países enfrentam”, explica o cubano Arturo Pulga, médico e coordenador acadêmico da Elam na Venezuela.

É dessa maneira que o conceito metodológico e pedagógico pensado pela escola se diferencia do que é compreendido pela medicina convencional. “Se você vai atender o povo tem que ser uma medicina comunitária, por isso formamos médicos integrais comunitários, que vão à comunidade atender aos problemas dela. Um aspecto social fundamental é que essa medicina não é apenas para curar doenças, mas para preveni-las”, destaca Pulga.

Logo quando chegam à Elam, todos os estudantes participam de um curso introdutório de cerca de seis meses para nivelar o conhecimento sobre diversas áreas, como matemática, biologia, química e também sobre o pensamento latino-americano. Depois desse processo, eles ingressam na formação da carreira médica pelos dois anos seguintes, coordenado por um corpo docente de venezuelanos e cubanos.

Nesse período, os estudantes já começam a trabalhar nos Centros de Diagnósticos Integrais (CDIs) das comunidades, o equivalente às unidades básicas de saúde no Brasil, onde entram em contato com os moradores nos bairros carentes e praticam o conteúdo teórico que aprendem na sala de aula.

“Esse é um elemento importante dessa medicina, pois desde o primeiro ano os estudantes se vinculam com os pacientes nas comunidades. É uma diferença fundamental do modelo tradicional. Desde o primeiro dia que eles entram aqui, já têm vinculação com a prática, nos lugares onde estão as comunidades, os mais pobres, os mais necessitados”, relata Pulga.

Experiência

Uma das coisas que mais chamaram a atenção de Jéssica ao chegar na Venezuela foi o fato de a maior parte da população daquele país ter acesso à saúde básica por meio dos CDIs. “Em um simples bairro, você tem médicos para todas as áreas. A pessoa chega e já faz o atendimento”, conta.

Quanto às aulas práticas nos CDIs, a sem-terra destaca a importância desses momentos, pois eles permitem a troca de experiências. “Conversamos com os médicos cubanos sobre o trabalho deles. É muito boa essa troca, porque você vê uma medicina diferente, você vê que eles realmente estão preocupados com as pessoas”, avalia.

Esse, por sinal, é um dos fatores que mais instiga Jéssica a se dedicar à profissão. Segundo ela, são poucos os médicos no Brasil que se preocupam de fato com o paciente. “Às vezes o paciente não necessita de remédio, só precisa que se converse, sabe? Quando se tem a compreensão que o outro também passa necessidade, isso ajuda muito. Por isso essa medicina é diferente, é importante se preocupar com o outro e contribuir a partir do que você sabe. Isso é gratificante”, declarou.

Formação

Após os dois primeiros anos de faculdade, os estudantes se descentralizam entre os estados venezuelanos e se incorporam aos centros hospitalares e ambulatórios, onde ficam do terceiro ao sexto ano do curso até se tornarem efetivamente médicos profissionais.

Segundo Pulga, está cientificamente provado que 80% das doenças podem ser diagnosticadas a partir da atenção primária de saúde, de um questionário adequado que se leve em conta as pessoas e o meio social delas, considerando o local onde estudam, trabalham, etc.

“Por isso [esta formação] tem paradigmas diferentes da medicina tradicional. É uma medicina muito contemporânea em relação ao atual momento e as dificuldades dos nossos países, sobretudo, os latino-americanos, que tem dificuldades econômicas e uma população muito grande que necessita da atenção médica”, defende o coordenador.

Perspectivas

Quando os estudantes são questionados sobre o que pretendem fazer depois de passar por esse processo formativo, as respostas são praticamente as mesmas: o retorno para a terra de origem para cuidar “do povo”.

Vinda de Tabocas, uma cidade de 11 mil habitantes no oeste da Bahia, Soraya de Souza Santana, 21 anos, do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) pretende rearticular um conhecimento popular que foi se perdendo com o tempo na sua região.

“No tempo em que eu nasci, as mulheres que ajudavam uma as outras, faziam os partos, visitavam, buscavam alimentos para as crianças, davam multi-mistura para ajudá-las na nutrição. Eu tenho a perspectiva de resgatar algumas dessas coisas que foram se perdendo com o tempo”, aponta.

Apesar de recém-chegada à Venezuela, Jéssica não vê a hora de poder voltar e ajudar a população com o que aprenderá nos próximos seis anos. “Quero contribuir com quem fez que eu estivesse aqui: a luta do povo. Algumas pessoas que não compreendem isso, falam que eu estou aqui por mérito. Não, o mérito não é meu, o mérito é do meu povo. Foi ele que lutou para eu estar aqui. Tem toda uma América Latina em luta, isso aqui não é uma escola qualquer”, destacou.

 

Por Luiz Felipe Albuquerque 

Do Saúde Popular, enviado especial à Venezuela, 19 de Maio de 2016 às 15:34

Cooperação Internacional -Brasil De Fato

 

 

Venezuela: os filhotes da reação

25 abr

 

Os vínculos entre os jovens dirigentes estudantis venezuelanos e agências de cooperação de direita vão muito mais além da aliança Otpor/Canvas.

 

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Lorent Saleh é um jovem venezuelano de 25 anos, de língua flamejante, que estudou comércio exterior. É uma das cabeças visíveis da coalizão para derrubar o presidente Nicolas Maduro. Ele dirige a Organização Operação Liberdade, que aponta o castro-comunismo cubano como o principal inimigo da Venezuela.

Lorent começou seu trabalho contra a revolução bolivariana em 2007. Desde então, ele não desiste. Promoveu greves de fome e campanhas para denunciar as “mentiras de Chávez”. Embora tenha abandonado as salas de aulas há anos, ainda se apresenta como um líder estudantil. E, ainda que não tenha nenhum emprego conhecido, viaja pela América Latina para tentar isolar o governo de Maduro.

O jovem Saleh tem bons amigos em diversos países. Na Colômbia, por exemplo, é cobiçado e promovido pela Aliança Nacionalista pela Liberdade e Terceira Força, agrupações neonazistas (El Espectador, 21/7/2013).

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Vanessa Eisig é uma simpática jovem ruiva de 22 anos, que usa óculos e se descreve em sua conta no Twitter como uma “guerreira de luz e bígama, casada com minha carreira e com a Venezuela”. Estuda comunicação na Universidade Andrés Bello e confessa que, ao participar dos protestos, sente que está fazendo história. Vanessa é militante da Juventude Ativa Venezuela Unida (JAVU). Exige a deposição do “usurpador” Nicolás Maduro e de todo o seu gabinete. A organização tem como emblema um punho direito de cor brança que, segundo ela, “é símbolo de resistência e de crítica ao socialismo”.

JAVU, que promove a Operação Liberdade, desempenhou um papel relevante nos distúrbios de rua das últimas semanas na Venezuela. Fundada em 2007, a organização se define como uma plataforma juvenil de resistência, que busca derrubar os pilares que sustentam um governo que “menospreza a Constituição, atinge nossos direitos e entrega nossa soberania ao comando dos decrépitos irmãos Castro”.

Em seu comunicado de 22 de fevereiro deste ano, a JAVU denunciou que forças estrangeiras sitiaram militarmente a Venezuela. “Seus mercenários nos atacam de maneira vil e selvagem. Seu objetivo é nos escravizar”. Para conseguir sua liberdade, assinalam, é vital defender a soberania da nação expulsando os comunistas cubanos que estão usurpando o governo e as Forças Armadas.

A JAVU está inspirada e mantém estreita relação com Otpor (Resistência) e com o Centro para a Aplicação de Ações e Estratégias Não-Violentas (Canvas, na sigla em inglês). Otpor foi um movimento estudantil criado na Sérvia para remover do governo o presidente Slobodan Milósevic em 2000, que recebeu financiamento de agências governamentais dos Estados Unidos. Canvas é a face renovada de Otpor.

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O guru desses grupos é Gene Sharp, que reivindica a ação não violenta para derrubar governos. Sharp fundou o Instituto Albert Eisntein, promotor das chamadas revoluções coloridas em países que não estão alinhados aos interesses da OTAN e de Washington.

Documentos divulgados por Wikileaks tornaram público que Canvas – presente na Venezuela desde 2006 – elaborou para a oposução desse país um plabo de ação, no qual propõe que os grupos estudantis e os atores não formais são os mais capacitados a construir uma infraestrutura e explorar sua legitimidade na luta contra o governo de Hugo Chávez.

A relação entre JAVU, Otpor e Canvas é muito estreita. Como confessou Marialvic Olivares, militante de um grupo de extrema direita: as organizações internacionais que estão nos ajudando neste momento sempre estiveram conosco, não somente apoiando os protestos, mas também ajudando na formação. Sempre nos estenderam a mão. Não temos vergonha nem medo de dizê-lo.

Mas os vínculos entre os jovens dirigentes estudantis venezuelanos e os think tanks e agências de cooperação de direita vão muito mais além da aliança com Otpor/Canvas. Diversas fundações estadunidenses financiam abertamente o movimento dissidente. Também contam com o apoio do Partido Popular, da Espanha, e da organização de juventude de Silvio Berlusconi, da Itália.

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É o caso do jovem advogado Yon Goicoechea, estrela rutilante dos protestos de 2007, e que agora estuda na Universidade Columbia, depois de se filiar ao partido de Henrique Capriles e de abandoná-lo quando não lhe deram o cargo que queria. Em 2008, foi generosamente recompensado por seu compromisso de luta contra Chávez. O Instituto Cató deu a ele o prêmio Milton Friedman para a Liberdade, no valor de meio milhão de dólares.
Outra força que desempenha um papel relevante na tentativa de derrubar Maduro é o Movimento Social Universitário 13 de Março, organização estudantil que atua na Universidade dos Andes.

Seu dirigente mais conhecido é Nixon Moreno, ex-estudante de Ciências Políticas, acusado de violentar a policial Sofia Aguilar, e que hoje está foragido e exilado no Panamá.

Estes jovens sabem o que fazem: promover a desestabilização política. Recebem financiamento internacional. Militam nas fileiras da extrema-direita e do anticomunismo. São xenófobos. Estão vinculados com organizações neonazistas e conservadoras em vários países. E marcham lado a lado com políticos da direita radical como Leopoldo López, María Corina Marchado e Antonio Ledezma.

Apesar de contar com todos esses apoios, Lorent Saleh, da Operação Liberdade, se lamenta: “Estamos tremendamente sós”. Em parte tem razão. Entre os jovens latinoamericanos não despertam simpatia nem solidariedade. Pelo contrário, suscitam desconfiança e repúdio. É por que sua plumagem está à vista. Sua causa não tem nada a ver com o ideário do movimento estudantil popular mexicano de 1968, por exemplo. Não por acaso, receberam o repúdio público dos estudantes chilenos. Para eles, os filhotes da reação na Venezuela são inaceitáveis.

Tradução:Louise Antonia León

Una Agresión Permanente: El Golpe Suave en América Latina (Parte 1)

18 out

Por Eva Golinger

América Latina ha sufrido una constante agresión dirigida desde Washington durante más de doscientos años. Todas las tácticas y estrategias de guerra sucia han sido aplicadas en los distinos países de la región, desde golpes de Estado, asesinatos, magnicidios, desaparecidos, torturados, dictaduras brutales, atrocidades, persecución política, sabotajes económicos, guerra mediática, subversión, infiltración de paramilitares, terrorismo diplomático, intervención electoral, bloqueos y hasta invasiones militares. No ha importado quien gobierna en la Casa Blanca –demócratas o republicanos– las políticas imperiales se mantienen en marcha.
 
Durante el siglo XX, Washington logró imponer su agenda por toda Sudamérica, instalando dictaduras bajo su mando y luego gobiernos neoliberales que seguían las órdenes del Fondo Monetario Internacional y el Consenso de Washington. Aislaron a Cuba con un bloqueo económico, y después de las guerras sucias en Centroamérica en los años setenta y ochenta contra los Sandinistas en Nicaragua, la “amenaza comunista” en la región estaba contenida. 
El siglo XXI trajo nuevos desafíos para el dominio estadounidense. Con sus ojos puestos en el otro lado del mundo con sus guerras en Irak y Afganistán, no vieron con precisión el renacimiento de las revoluciones populares por toda América Latina. Subestimaron las capacidades de los pueblos latinoamericanos y la visión de sus líderes.

Cuando se voltearon, ya Venezuela había tomado un camino irreversible, y las raíces de la Revolución Bolivariana estaban extendiéndose por todo el continente. La semilla de esperanza, de dignidad y de liberación que Estados Unidos intentó contener en Cuba estaba germinando por toda la región. Los pueblos se estaban levantando, la llama de la libertad soberana estaba prendida de nuevo. 
De inmediato, Washington activó sus redes al sur de la frontera, donde ya desde décadas mantenía grupos paramilitares, organizaciones políticas, medios de comunicación, instituciones y agencias a su servicio. Reiniciaron la maquinaria de agresión, esta vez de una escala mayor. Las garras imperiales intentaban sumergirse en las tierras libres de Venezuela, Bolivia, Ecuador, Honduras, Nicaragua, y en cualquier rincón que olía a revolución. 
 
GOLPE TRAS GOLPE
 
El siglo XXI ha traído varios golpes de Estado de diferentes estilos a la región, comenzando en Venezuela (2002)1 . Luego hubo otras rupturas constitucionales en Haití (2004)2 , un intento de golpe en Bolivia (2008)3 , Honduras (2009)4 , otro intento de golpe en Ecuador en 20105  y Paraguay en 20126 . El golpe en Venezuela en abril 2002 fue la primera señal del retorno de la mano agresiva de Estados Unidos en América Latina. Durante los años noventa, había sido relativamente controlada y asegurada la “estabilidad” y la dominación de la agenda estadounidense en la región. No obstante, con la llegada de la Revolución Bolivariana, Venezuela salió del cuadro, y Washington respondió con furia. 
La elección de Hugo Chávez en 1998 fue un duro golpe para Washington que buscaba el control a largo plazo de las reservas petroleras de Venezuela –certificadas como las más grandes del planeta.

En abril de 2002, la administración de George W. Bush apoyó un golpe de Estado contra el Presidente Chávez, dirigido por la misma élite que había estado en el poder antes en Venezuela7 . El golpe de Estado utilizó marchas masivas en las calles de Caracas, integradas por la clase media y la clase alta, pidiendo el derrocamiento de Chávez. Utilizaron francotiradores para disparar a la gente en las marchas, creando violencia y caos, y luego responsabilizando a Chávez por la masacre8.  La televisión, radio y los periódicos en Venezuela se unieron a los esfuerzos de golpe de Estado, manipulando las imágenes y distorsionando los hechos para justificar al derrocamiento del Presidente.

Lo convirtieron en el villano, el malvado dictador, el ‘asesino brutal’, según los medios de comunicación internacionales, aunque, en realidad, los opositores apoyados desde Washington fueron los responsables de la muerte y la destrucción causada durante esos días9.  Después Chávez fue secuestrado el 11 de abril de 2002 e iba a ser asesinado, y los empresarios, dueños de medios y dirigentes opositores detrás del golpe tomaron el poder e impusieron una dictadura. Disolvieron todas las instituciones democráticas del país, incluyendo la Asamblea Nacional y el Tribunal Supremo de Justicia.
 
La mayoría que había votado por Chávez se había convertido en protagonista del proceso político, y estaba determinado a defender su democracia. Cientos de miles de personas salieron a las calles horas después de la desaparición de Chávez para exigir el retorno de su presidente. Cuarenta y ocho horas después, Chávez fue rescatado por sus seguidores y las Fuerzas Armadas leales. El golpe fue derrotado y la revolución sobrevivió, pero las amenazas continuaron.
 
Cuando el Presidente Hugo Chávez regresó al poder, las agencias de Estados Unidos tuvieron que reformular sus tácticas para seguir con sus planes de neutralizar la revolución en Venezuela. Meses después, hubo un fuerte paro petrolero y sabotaje económico que causó miles de millones de dólares en daños al país, junto al inicio de una brutal guerra psicológica y mediática10.  No obstante, toda la fuerza de Washington y sus aliados en ése momento era incapaz de derrotar al carismático Presidente venezolano y los millones que abogaban por grandes transformaciones en su país.
 
Al mismo tiempo, la región ya estaba comenzando a cambiar. Había insurrección en Bolivia y Ecuador. Los movimientos indígenas, los cocaleros y campesinos estaban ganando fuerzas tras el liderazgo de Evo Morales. Ecuador pasaba por grandes momentos de inestabilidad y descontento social que dieron lugar al nacimiento de la Revolución Ciudadana y el liderazgo del Presidente Rafael Correa. El momento de contener el gran despertar en América Latina había pasado; no había vuelta atrás. 
 
LA SUBVERSION DE LA USAID Y LA NED
 
Durante ese periodo, Washington buscaba la fórmula de neutralizar la expansión revolucionaria en la región. Estaba moviendo sus piezas, aumentando el financiamiento a los partidos políticos y las organizaciones no gubernamentales (ONG) que promovían su agenda. Las dos principales agencias financieras de Estados Unidos establecidas para realizar gran parte del trabajo de la Agencia Central de Inteligencia (CIA) pero con una fachada legítima, ampliaron su presencia por toda América Latina.11  La Agencia del Desarrollo Internacional de Estados Unidos (USAID), el brazo financiero del Departamento de Estado, y la National Endowment for Democracy (NED), cuadruplicaron los fondos entregados a sus aliados en Venezuela, Bolivia, Ecuador y Cuba durante la última década.

Sólo en Venezuela, invirtieron más de 100 millones de dólares en ése tiempo para alimentar a los grupos de la oposición, promoviendo adicionalmente la creación de más de 300 nuevas organizaciones no gubernamentales (ONG) y programas para filtrar y canalizar el dinero.12  A diferencia de Cuba, Washington tenía entrada directa dentro de Venezuela a través de su Oficina de Iniciativas hacia una Transición (OTI) de la USAID, tanto como en Bolivia y Ecuador, y comenzó a ampliar las redes de penetración e infiltración dentro de las comunidades populares, intentando debilitar y neutralizar a los procesos de cambio en esos países desde adentro.
 
BOLIVIA
 
En el caso de Bolivia, del 2005 al 2006, la USAID reorientó más de 75% de sus inversiones en el país andino a los grupos separatistas que buscaban socavar al gobierno de Evo Morales. Para el año 2007, el presupuesto de la USAID en Bolivia llegó a casi 120 millones de dólares. El financiamiento a los partidos políticos de oposición y los movimientos separatistas era su trabajo principal. Tan cruda y evidente era la injerencia de la USAID en Bolivia que el gobierno de Evo Morales expulsó al embajador estadounidense, Philip Goldberg, del país en septiembre 2008. Las constantes conspiraciones e intentos de desestabilizar al gobierno de Evo Morales habían sido bien documentados y evidenciados.13  
 
Desde luego, movimientos sociales por toda Bolivia comenzaban a demandar la salida de la USAID del país debido a sus actividades injerencistas. Las amplias evidencias que confirmaban como la USAID utilizaba su fachada de trabajo ecologista, altruista y en pro a la democracia para desestabilizar al gobierno de Evo Morales y al movimiento que lo apoyaba, eran innegables. Finalmente en 2013, el Presidente Morales anunció la explusión indefinida de la USAID de Bolivia. Su salida fue la marca de una Bolivia soberana, ya no subordinada a la agenda estadounidense.14   
 
ECUADOR 
 
La estrategia de subversión a través de las agencias financistas de Washington también tuvo su fruto en el Ecuador. El gobierno estadounidense veía con descontento el acercamiento de Ecuador a Venezuela, Cuba y Bolivia y su entrada en la Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA) en 2009. La popularidad y éxito político del Presidente Rafael Correa y su reelección contundente después de la ratificación de una nueva constitución en 2009, provocaron la ira de Washington y el peso de su injerencia. En el 2010, el Departamento de Estado aumentó el presupuesto de la USAID en Ecuador a más de 38 millones de dólares15.  Un total de $5.640.000 en fondos fueron invertidos en el trabajo de “descentralización” en el país, con enfoque en la desintegración del gobierno central16.  

Uno de los principales ejecutores de los programas de la USAID en Ecuador era la misma empresa que canalizaba fondos y coordinaba el trabajo de las agencias estadounidenses con la oposición en Bolivia: Chemonics, Inc. Chemonics tuvo un papel principal en la alimentación del conflicto separatista en Bolivia del 2007-2008 con la intención de provocar la ruptura del estado y el debilitamiento del gobierno de Evo Morales.17    Al mismo tiempo, desde un presupuesto acerca de un un millón de dólares anualmente, la NED otorgó un convenio de $125.806 al Centro para la Empresa Privada (CIPE) para promover los tratados de libre comercio, la globalización y la autonomía regional a través de la radio, televisión y prensa ecuatoriana, junto con el Instituto Ecuatoriano de Economía Política.18  Organizaciones en Ecuador como Participación Ciudadana, Fundamedios y Pro-justicia han dispuesto del financiamiento multimillonario de la USAID y la NED, tanto como miembros y sectores de CODEMPE, Pachakutik, la CONAIE, la Corporación Empresarial Indígena del Ecuador y la Fundación Qellkaj.19 

Durante los acontecimientos del jueves 30 de septiembre en Ecuador, cuando varios sectores intentaron derrocar al Presidente Rafael Correa, uno de los grupos con financiamiento de la USAID y NED, Pachakutik, emitió un comunicado respaldando a los golpistas y exigiendo la renuncia del Presidente Rafael Correa, responsabilizándolo por los hechos.20 Casi todos los grupos involucrados en ese intento de golpe tenían vínculos con agencias estadounidense, desde el expresidente Lucio Gutiérrez, quien había pedido ayuda de Washington para “salir” del Presidente ecuatoriano, hasta los sectores policiales que violentaron los derechos de Correa, quienes recibían entrenamiento en intercambios con Estados Unidos.21   
 
Aunque el golpe contra el Presidente Correa no tuvo éxito, el trabajo para socavar a su gestión continuaba. 
En 2012, la USAID canalizaba un total de $22.869.000 a grupos y programas en Ecuador con la mayoría de los fondos entregados a temas de “gobernabilidad”, económia y desarrollo.22  Para el 2014, esa cifra bajó casi por la mitad a $11.810.000.23  La reducción del financiamiento de la USAID en Ecuador no se debía a una minimización de las acciones injerencistas de Estados Unidos en el país suramericano, sino más bien porque el Estado ecuatoriano ya había hecho claro que no quería más colaboraciones con la agencia intervencionista. De hecho, el gobierno de Rafael Correa anunció a finales del 2013 que el viejo convenio que tenía el país con la USAID ya estaba terminado y no iba a ser renovado.24   
 
Con menos presencia de la USAID, la NED se fortalece como canal de financiamiento a actors políticos, mediáticos y sociales que promueven la agenda de Washington.  Así ha sido el caso en Ecuador. Durante el año 2013, la NED canalizó $1.032.225 a diferentes grupos y proyectos en Ecuador para debilitar el poder de la gestión del Presidente Correa.25   
 
Dentro de esos fondos, $65.000 fueron dados a grupos opositores al gobierno ecuatoriano para contrarrestar la propaganda del Estado durante las elecciones locales en febrero 2014. Según el informe anual de la NED de 2013, el recipiente de esos fondos, provenientes de una agencia extranjera, estaba encargado de “controlar el uso de los recursos públicos en publicidad en medios de televisión, radio y prensa escrita y el uso de los datos generados para difundir información sobre el gasto público para los medios de comunicación y organizaciones de la sociedad civil.”26  En otras palabras, el gobierno de Estados Unidos estaba usando organizaciones ecuatorianas para intentar denunciar el uso de fondos públicos del Estado ecuatoriano durante una campaña electoral con el objetivo de desacreditar al gobierno del Presidente Correa.
 
Más de $200 mil dólares fueron canalizados desde la NED a esfuerzos para influir directamente sobre las leyes y debates en la Asamblea Nacional de Ecuador, donde existe una mayoría que apoya al gobierno actual. Otros $157.896 fueron entregaron a una ONG para “alentar el liderazgo juvenil, los valores democráticos y el espíritu empresarial”.27 Según la NED, este proyecto buscaba “promover la democracia, la participación ciudadana y el libre mercado y el liderazgo entre los jóvenes”.28

 En un país en donde el gobierno apoyado por la mayoría promueve un modelo fundamentado en conceptos socialistas, las agencias estadounidenses y sus contrapartes en Ecuador buscaban fomentar el modelo capitalista, neoliberal del mercado libre, que ya había causado graves daños económicos, políticos y sociales durante la década anterior.
El grupo Fundamedios, ONG crítica de las políticas del Presidente Correa y con amplio financiamiento y asesoría desde Washington, recibió $75.000 de la NED en 2013 para “defender y proteger a los periodistas y la libertad de expresión” en Ecuador.29 

Esta organización, parecida a la ONG que fue creada en Venezuela por la NED y USAID, Espacio Público, realiza un trabajo de denuncia parcializada en contra del Gobierno, intentando proyectar la percepción de un país sin libre expresión.30 Todo estos millones de dólares de la USAID y la NED, además de otras agencias externas que financian ONG y campañas opositoras en el Ecuador, fomentan y alimentan conflictos en el país. La táctica de subversión a través de las ONG y la llamada “sociedad civil” forma parte de una estrategia más amplia de debilitar al Estado o al líder del país poco a poco, con el objetivo de neutralizar su base de apoyo y finalmente, derrotarlo. 
 
EL GOLPE SUAVE
 
Una revolución de colores, un golpe suave, un coup d’etat o simplemente un cambio de régimen, no existe ninguna duda que detrás de la estrategia de la supuesta “no violencia” o la “promoción de la democracia” están los intereses de Washington. Fue en el año 1983 que éste concepto fue creado que luego ha instalado gobiernos subordinados al poder imperial desde Suramérica al Cáucaso y al Asia. A través de la creación de una serie de “fundaciones” cuasi-privadas, como el Instituto Albert Einstein (AEI), la National Endowment for Democracy (NED), el Instituto Republicano Internacional (IRI), el Instituto Demócrata Nacional (NDI) y Freedom House, entre otras, el gobierno de Estados Unidos comenzaba a filtrar financiamiento y asesoría estratégica a partidos políticos y organizaciones sociales que promovían su agenda en países con gobiernos no alineados con los intereses estratégicos de Washington.31   
 
Alrededor de todas estas “fundaciones”, siempre está la USAID que hoy en día funciona como parte del eje de seguridad y defensa de Washington. El Pentágono se encarga de las acciones tradicionales militares, el Departamento de Estado ejerce la diplomacia y la USAID penetra, infiltra y controla a las poblaciones civiles. La USAID funciona para promover a los intereses económicos y estratégicos de Estados Unidos en casi todo el planeta. Sus departamentos dedicados a transición, reconstrucción, gerencia de conflictos, desarrollo económico, gobernabilidad y democracia son los principales viaductos a través de los cuales filtran los miles de millones de dólares que desde Washington se envía a los partidos políticos, ONG, grupos juveniles y sociales que promueven sus intereses en el mundo.

En cualquier país donde ha habido un golpe de Estado, una revolución de colores o un cambio de régimen favorable a los intereses de Estados Unidos, se encuentra la USAID y su lluvia de dólares.
En los casos de Serbia (antes Yugoslavia), Ucrania, Georgia y Kirguistán, donde primero fueron enseñadas la estrategia de las “revoluciones de colores”, siempre había un factor en común: recursos estratégicos. Gas, petróleo, gaseoductos, oleoductos, bases militares, fronteras estratégicas – todos estos son factores presentes en estos países. Serbia tiene gas natural y petróleo; Georgia, comparte bases militares con Rusia y Estados Unidos y está en la vía de los gaseoductos más importantes del Medio Oriente hacia el mundo Occidental; Ucrania está ubicada estratégicamente entre los productores más grandes de energía en Rusia y la región del Mar Caspio, y los consumidores en Eurasia; y Kirguistán tiene una frontera estratégica con China, bases militares de Rusia y Estados Unidos y también está ubicada en la vía de estos importantes gaseoductos que Washington y sus empresas del Complejo Militar Industrial quisieran controlar. 
 
A parte de los intereses estratégicos, dentro de esta estrategia hay un enfoque ideológico. Los movimientos detrás del golpe suave son principalmente anti-comunistas, anti-socialistas, pro-capitalistas y pro-imperialistas. Donde hay un gobierno con tendencia socialista anti-imperialista en un país con recursos estratégicos y naturales, sin duda habrá un plan de golpe suave para derrocarlo.
 
En todos los países donde se ha ejecutado esta estrategia, los grupos que la han dirigido emplean las mismas recetas. Involucran a estudiantes y jóvenes para dar una cara fresca a su movimiento y también para hacer el trabajo de las fuerzas de seguridad más dificil (a la hora de arrestar un niño de 14 años por una acción ilegal de calle, el Estado parece el ente represor) y realizan un proceso de marketing para diseñar un logo del movimiento y/o un color (en Serbia fue el puño cerrado en blanco con negro del OTPOR32 , en Ucrania, el mismo logo pero con el color naranja, en Georgia, también el mismo puño pero con rosa, en Kirguistán, rosada, y en Venezuela, en lugar del puño de OTPOR utilizan la mano blanca con fondo negro).

Se planifican las acciones cerca de un proceso electoral en el país, donde preparan una red de observadores, una organización electoral paralelo (Súmate33 , en el caso de Venezuela) y operaciones psicológicas para crear un escenario de fraude y rechazo de los resultados en caso de perder. Utilizan el mismo material de formación del ideólogo anti-comunista estadounidense Gene Sharp y su Instituto Albert Einstein, y siempre reciben fondos y asesoría estratégica y política de las agencias de Washington, incluyendo la USAID, la NED, el IRI, el NDI y Freedom House.   La estrategia consiste en un intento de debilitar y desorganizar a los pilares del poder y neutralizar las fuerzas de seguridad, normalmente en el contexto de un proceso electoral. Según el Coronel Robert Helvey del Instituto Albert Einstein, uno de los diseñadores de esta estrategia, su objetivo no se trata de destruir las fuerzas armadas y cuerpos policiales, sino convertirlos – convencerlos de dejar al gobierno actual y hacerles entender que hay lugar para ellos en el gobierno de mañana.34 

 Utilizan a los jóvenes para intentar debilitar al ánimo de las fuerzas de seguridad y para cambiar su sumisión al régimen. Realizan contactos con los militares para intentar negociar, ejecutando operaciones psicológicas en su contra. Según Srdja Popovic, uno de los fundadores de OTPOR en Serbia, Helvey les enseñó “…cómo seleccionar personas dentro del sistema como policías y mandarles constantemente el mensaje que todos somos víctimas, tanto ellos como nosotros, porque no es el trabajo de la Policía arrestar un niño de 13 años, por ejemplo…”35   
Esta estrategia está dirigida hacia las Fuerzas Armadas, la Policía, los funcionarios públicos y el público en general, a través de una guerra psicológica, la subversión y una presencia en la calle que da la impresión de un inminente estallido social.  

 1  “El golpe de Estado de 11 de abril en Venezuela y sus causas”, por Margarita López Maya. http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=996179380012
2  “Golpe de Estado en Haiti” por Thierry Meyssan. http://www.voltairenet.org/article120678.html
3  “La cumbre de Unasur ‘abortó’ un golpe contra Evo Morales, afirma Hugo Chávez”, La Jornada. http://www.jornada.unam.mx/2008/09/17/index.php?section=mundo&article=037n1mun
4  http://www.bbc.co.uk/mundo/america_latina/2009/06/090628_1430_honduras_arresto_med.shtml
5  “Golpe de Estado en Honduras”, BBC Mundo. http://periodismoecuador.com/2014/06/11/comision-del-30-de-septiembre-entrega-informe-a-la-medida/
6  “Fernando Lugo denuncia ‘golpe de Estado parlamentario’ en Paraguay”, El Universal.  http://www.eluniversal.com/internacional/120624/fernando-lugo-denuncia-golpe-de-estado-parlamentario-en-paraguay
7  Ver “Abril Golpe Adentro”, por Ernesto Villegas, Editorial Galac 2009.
8  Ver “Puente Llaguno: Claves de una Masacre”, Panafilms 2004.
9  “Dictadura mediática en Venezuela”, Luis Britto Garcia http://www.minci.gob.ve/2012/06/dictadura-mediatica-en-venezuela-luis-britto-garcia/
10  Ver “El Código Chávez: Descifrando la injerencia de Estados Unidos en Venezuela”, por Eva Golinger, Monte Avila Editores 2006.
11  “Former CIA Agent Tells: How US Infiltrates ‘Civil Societ’ to Overthrow Governments, Philip Agee. http://www.informationclearinghouse.info/article4332.htm
12  “Documentos de Wikileaks evidencian que EEUU financia a la oposición en Venezuela”, La República. http://www.larepublica.es/2014/02/documentos-de-wikileaks-evidencian-que-eeuu-financia-a-la-oposicion-en-venezuela/

13  “Injerencia de los Estados Unidos en Bolivia: Documentos desclasificados por el Departamento de Estado de los Estados Unidos”, Vicepresidencia del Estado Plurinacional de Bolivia. http://www.vicepresidencia.gob.bo/IMG/pdf/desclasificados.pdf
14  “Evo expulsa a USAID de Bolivia”, Los Tiempos. http://www.lostiempos.com/diario/actualidad/nacional/20130501/evo-expulsa-a-usaid-de-bolivia_211346_453925.html
15  Foreign Operations Budget 2010, United States Department of State. http://www.state.gov/documents/organization/123415.pdf
16  Ibid.
17  “Campesinos detectaron ‘objetivos’ de ONG financiada por USAID”, El Telégrafo. http://www.telegrafo.com.ec/noticias/informacion-general/item/campesinos-detectaron-objetivos-de-ong-financiada-por-usaid.html
18  National Endowment for Democracy Annual Report 2010. http://www.ned.org
19  Estos datos se encuentran en documentos desclasificados de la NED y USAID sobre sus operaciones en el Ecuador obtenidos por la autora bajo la Ley de Acceso a la Información en Estados Unidos.
20  “Pachakutik pide la renuncia al Presidente Correa y llama a conformar un solo frente nacional”, 30 septiembre 2010. http://www.sodepaz.org/images/documentos/pachakutikcomunicado141.pdf
21  “Wikileaks revela más vínculos de EEUU con la oposición del gobierno ecuatoriano”, RT. http://actualidad.rt.com/actualidad/view/42579-WikiLeaks-revela-mas-v%C3%ADnculos-de-EE.-UU.-con-oposición-del-gobierno-ecuatoriano

22  FY 2012 Congressional Budget Justification for Foreign Operations, US Department of State. http://www.state.gov/f/releases/iab/fy2012cbj/pdf/
23  FY 2014 Congressional Budget Justification for Foreign Operations, US Department of State. http://www.state.gov/f/releases/iab/fy2014cbj/
24  “Usaid cerró cooperación económica”, El Universo. http://www.eluniverso.com/noticias/2013/12/17/nota/1928241/usaid-cerro-cooperacion-economica
25  National Endowment for Democracy Annual Report 2013 – Ecuador. http://www.ned.org/where-we-work/latin-america-and-caribbean/ecuador
26  Ibid.
27  Ibid.

28 Ibid.
29 Ibid.
30 “Sigue la mano sucia de la NED en Venezuela”, Eva Golinger. http://actualidad.rt.com/expertos/eva_golinger/view/125973-mano-sucia-ned-venezuela
31 “La Albert Einstein Institution: no violencia según la CIA”, por Thierry Meyssan. http://www.voltairenet.org/article123805.html
32 “Otpor y sus revoluciones de colores”. Le Temps. http://www.yugopedia.org/Wiki/(S(vfgavzabj0vda331ivzqfs3o))/Print.aspx?Page=Otpor%20y%20sus%20revoluciones%20de%20colores&AspxAutoDetectCookieSupport=1
33  “Una ONG financiada por Estados Unidos organizará unas primarias en Venezuela para elegir candidato presidencial contra Chávez”, por Pascual Serrano. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=34498
34  Ver: On Strategic Non-Violent Conflict: Thinking About the Fundamentals”, por Robert L. Helvey, Albert Einstein Institution. http://www.aeinstein.org/wp-content/uploads/2013/09/OSNC.pdf
35  Ver:  A Force More Powerful, documental, 2000. http://www.aforcemorepowerful.org/films/bdd/story/otpor/srdja-popovic.php


Texto completo en: http://actualidad.rt.com/expertos/eva_golinger/view/143043-agresion-permanente-golpe-suave-america-latina

Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

22 jul
Análise da Canvas sobre a Venezuela, onde a oposição começou a ser treinada em 2005: “Há uma forte tendência presidencialista. Como podemos mudar isso?”

No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto se lê: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”.

Agência Efe

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Análise da Canvas sobre a Venezuela: “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso?”

 

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O texto citado não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana. O material, em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados na Sérvia. O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, feito pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo Wikileaks.

O último vazamento do Wikileaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas ( “The Center for Applied Nonviolent Action and Strategies” sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da queda de Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005. Em seu programa de TV, o presidente Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse.

Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado.

O começo, na Sérvia

“Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os EUA deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos. Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública.

“Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os norte-americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos. Ooutros países, como a Espanha, não têm e nos apoiavam através do Ministério do Exterior”.  Entre as ONGs citadas por Marovic estão o NED (National Endowment for Democracy), uma organização financiada pelo Congresso norte-americano, a Freedom  House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Natalia Viana/Agência Pública

Para o Blog

Marovij: “É impossível  exportar uma revolução. O mais importante para uma mudança bem-sucedida é ter a maioria do povo ao seu lado”

 

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Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana em 2002 e 2003. O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide.

Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o The New York Times. Na Bolívia, de acordo com documentos do governo norte-americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, disse que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil. Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo Wikileaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.

Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House não estão promovendo a democracia. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas norte-americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os EUA não gostam”.

Fase dois: da Bolívia ao Egito

Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos dos EUA – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui outros: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbábue, Bielorrússia, Coreia do Norte, Siria e Irã.

Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000. O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução das Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi. Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic.

Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

 

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a Irmadade Muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”.
Documentos da Stratfor

Os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo norte-americano.

A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país.

No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele. “A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescent sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política. “Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010.

A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla. “Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem uma lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”.

Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os EUA não gostam)”. O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”.

Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Strtafor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão idológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos. “Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.

Venezuela

Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana.

“Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010. Para as eleições legislativas de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação. O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).

A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão MUD (Mesa de Unidade Democrática), além do prefeito do Distrito Metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza. Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados.

O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”. Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”.

Em outro email Popovic explica:“Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico. Nós apenas fornecemos as ferramentas”.

Natalia Viana/Agência Pública

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Popovic: “A cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda”

Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”.

Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são:

– Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudança”

– Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?”

– Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”.

-Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito!  Programas de bem-estar social”.

– Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”.

– Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro.  Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”.

– Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”.

– “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?”

No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela.

“Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles! Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou. “E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”.

Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países. O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbábue, Bielorrúsia, Irã…”

O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic – concorda com ele: “É impossível  exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”.

Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos EUA, depois do que aconteceu na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu. “Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o NYT publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira norte-americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos EUA pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrúsia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”.

O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.

Para Weisbrot, muitas vezes o patrocínio norte-americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos. “Sempre há grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, como reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”.

*Originalmente publicado no site da Agência Pública

Livro(manual) de Gene Sharp_

“Da ditadura a democracia”

http://bibliot3ca.files.wordpress.com/2011/03/da-ditadura-a-democracia-gene-sharp2.pdf

Video “Doc. Como iniciar uma revolução” (completo e legendado)

Revolução à americana

27 jul

BlogLine_Registro_johncoltrane3_rochinhanews gmail186 Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram como age uma organização que treina oposicionistas pelo mundo afora – do Egito à Venezuela No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto lê-se: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”. O texto não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana; escrito em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados em outro lado do mundo – na Sérvia. O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, produzido pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo WikiLeaks.

O último vazamento do WikiLeaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da bem-sucedida revolta que derrubou o ditador Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos criativos, marchas e atos que acabaram desestabilizando o regime. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005.

Em seu programa de TV, Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse. Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado. O começo, na Sérvia “Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic, mas que não tem ligação com o grupo Canvas. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os Estados Unidos deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos.

Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública. “Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos, outros países como a Espanha não têm e nos apoiavam através do ministério do exterior”. Entre as ONGs citadas por Marovic estão o National Endowment for Democracy (NED), uma organização financiada pelo congresso americano, a Freedom House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento americana que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana durante os anos de 2002 e 2003. O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso dos Estados Unidos, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide. Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o New York Times. Na Bolívia, segundo documentos do governo americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, diz que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil. Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo WikiLeaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID. Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House “não estão promovendo a democracia”. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto.

Geralmente promovem as políticas americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os Estados Unidos não gostam”. Fase dois: da Bolívia ao Egito Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos americanos – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui muitos deles: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbabue, Bielorrussia, Coreia do Norte, Siria e Irã. Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000.

O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi. Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito.

Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic. Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a irmadade muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”. Documentos da Stratfor Os documentos vazados pelo WikiLeaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo americano. A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país. No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele.

“A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescent sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política. “Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010. A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla.

“Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem usa lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”. Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” – “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os Estados Unidos não gostam)”.

O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”. Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Strtafor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão idológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações.

Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos. “Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque. Venezuela Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana. “Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010.

Para as eleições de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação. O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica). A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada.

Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão Mesa de Unidade Democrática, além do prefeito do distrito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza. Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados. O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”.

Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”. Em outro email Popovic explica:“Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico.

Nós apenas fornecemos as ferramentas”. Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”. Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são: – Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006.

Motivo para mudança” – Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito.

Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?” – Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”. -Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito! Programas de bem-estar social”. – Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”. – Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro. Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”. – Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”. – “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela.

Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?” No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”. Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela. “Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles!

Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou. “E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”. Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países.

O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbabue, Bielorrusia, Irã…” O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic, mas não faz parte da organização Canvas – concorda com ele: “É impossível exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”. Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos Estados Unidos, depois da revolução na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu.

“Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o New York Times publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos Estados Unidos pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrusia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”. O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país. Para ele, não é o dinheiro do governo americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro.

O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”. Para ele, muitas vezes o patrocínio americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos.

“Sempre tem pessoas grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”. Link abaixo dos documentos no site do WikiLeaks.

http://wikileaks.org/gifiles/releasedate/2012-06-18-08-canvas-how-a-us-funded-group-trains-opposition.html

APública.org-Natalia Viana

Nada de novo no Front ? by Maisa Paranhos

15 maio

OS EUA têm uma estratégia clara para criar uma opinião pública mundial: ao provocar , com cinismo, ingerência e arrogância, tenta publicizar uma Venezuela que só existe no desejo daquele Estado belicoso.
Alegando uma mentira já desgastada e sem nenhuma criatividade, esse Estado vem caluniando a respeito da “falta de respeito aos Direitos Humanos” na Venezuela.
Ora , eles sabem que ninguém mais acredita na estorinha pra boi dormir…
O que eu sei, é que eles começam assim, entrando pouco a pouco, de fininho; suas embaixadas e consulados são verdadeiros quarteis-generais do mais descarado golpismo; financiam setores nacionais , imprensa, “oposição indignada”; provocam a especulação de produtos de primeiras necessidades; criam o “caos” na imprensa nacional e a tão cantada e decantada estorietazinha caluniosa sobre os “direitos humanos”.
Qual é a aposta desses caras? Acreditam mesmo que vão convencer o mundo com o mesmo disco? Qual seria, esta aposta?
Creio que a opinião pública mundial sabe perfeitamente como agem os EUA.
Mas credito também, que quando ele tenta criar uma imagem de desorganização interna, de uma oposição “aviltada”, de uma população “desprotegida” e “presa” de um “Regime ditatorial”…tenta passar ( para o mundo afora) que uma parte da população está desprotegida; embaralha as informações, uma Venezuela “instável”, em que nem vale a pena investir, surge, e isso pode bastar para um mundo teleguiado pelo PIG internacional…
Assim tem sido…
Patrícia Verdugo , jornalista chilena, escreveu um pequeno livro “Como os EUA derrubaram Allende” em que deixa claríssima a ação daquele Estado no Chile e de tabela, na Latino -América. Nixon dizia quero ver o “economia gemer de dor”…E assim foi.
Hoje o Continente vem conquistando uma Integração que vai ganhando corpo e fragilizando a presença dos EUA em nosso Continente, com um mundo multipolar e um mercado diversificado, que não é mais escravo de suas imposições.
Porém as “noções”, as “ondas “, as emoções de um frenesi tão bem descrito no Rinoceronte de Ionesco, são a matriz da fertilidade fascista e irresponsável.
Determinados momentos da História, são tão graves, que preferimos, por vezes, uma reserva de energia emocional, preferimos não ter posições que nos demandem um comprometimento com o que sabemos.
E fingimos…
Bem , o que eu estou a dizer?
Que é preocupante a situação da Venezuela e, contra uma investida do Norte, A UNIDADE LATINO-AMERICANA É FUNDAMENTAL E NADA DISPENSÁVEL, AO CONTRÁRIO, MUITO BEM-VINDA A PRESENÇA DA CHINA EM CARACAS.
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Maisa Paranhos,diretamente do Facebook

ICIA (Inflação,Corrupção,Insegurança e Autoritarismo) a sigla da direita na América Latina

10 maio

Por Luciano Wexell Severo

ICIA é uma sigla que poderia sintetizar a atual ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade sul-americana. Condensaria as bandeiras de “luta” da classe alta, historicamente privilegiada, contra os avanços progressistas e democratizantes promovidos principalmente pelos governos de Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chávez (agora Nicolás Maduro).
As bandeirinhas da ICIA (“inflação”, “corrupção”, “insegurança” e “autoritarismo”) formam o quadrado reacionário, oligárquico e até mesmo fascista que orienta os discursos e as ações de uma parcela das oposições da região. Chama a atenção que o grau de “sensibilidade” destas quatro variáveis tem uma forte relação com dois agentes principais: 1) os grandes conglomerados industriais, financeiros e comerciais, controlados exatamente pela classe alta e pelo capital estrangeiro, e 2) os meios de comunicação hegemônicos, que também estão sob o controle das elites locais e das transnacionais do setor.

Note-se que cada um destes dois agentes influi de maneira decisiva para a maior ou menor “gravidade” dos quatro problemas. Os primeiros, os grupos econômicos, na medida em que controlam grandes faixas de mercado, desempenham um papel crucial na determinação do preço final dos produtos. Além disso, por meio do açambarcamento e da especulação, podem gerar o desaparecimento, a escassez e o consequente aumento de preços. Essa foi a “receita para o caos”, que ajudou a derrubar o governo de Salvador Allende, no Chile, em 1973. A falta de produtos nas prateleiras dos supermercados e o encarecimento de bens básicos, tais como leite, açúcar, arroz e farinha, promoveram a insatisfação social e reduziram a popularidade do governo. É o que está se tramando, em diferentes graus, em países como Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina.

Por outro lado, e de forma complementar, esses mesmos elementos desestabilizadores resistem aos controles públicos que tentam atuar contra suas posturas criminosas. Os grandes conglomerados acusam governos intervencionistas de “autoritários”, de seguidores de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Arremetem contra a ação do Estado sobre as altas taxas de lucro, as taxas de juros, as taxas de câmbio, o acesso a dólares e a melhora das condições de vida dos trabalhadores. Seu argumento central é o suposto “livre mercado”, que na verdade é uma tela de proteção para a livre atuação de grupos econômicos poderosos.

O planejamento do governo é considerado uma “intervenção exagerada”, um retorno ao “populismo irresponsável” ou mesmo uma “ditadura castro-chavista-comunista”. São deprimentes a ignorância, o desconhecimento e a cultura do ódio presente nessas passeatas e panelaços de setores da oposição. Tudo faz lembrar às múmias chilenas que celebraram a chegada de Augusto Pinochet ao poder. Usam conceitos de forma primária, fazendo incompreensíveis saladas com termos desenterrados da Guerra Fria contra a “ameaça vermelha” e os “guerrilheiros marxistas”. O refrão é a ICIA.

Aqueles que trabalham um pouco melhor com os conceitos sugerem que a volta ao nacional-desenvolvimentismo dos anos trinta, quarenta e cinquenta do século passado é um erro grave. Ao invés disso, propõem ir ainda mais longe. Buscam o velho liberalismo que tão bem apresentou, há 250 anos, o mestre Adam Smith. Sabe-se que a abordagem de um mundo liberal, que um dia pode ter sido parte dos sonhos de homens honestos, desde David Ricardo tornou-se uma proposta malandra, uma teoria hipócrita para beneficiar apenas os maiores e mais fortes. O alemão Friedrich List percebeu e denunciou isso há 170 anos.

Ao mesmo tempo, os poderosos monopólios de desinformação e alienação em massa, controlados por duas ou três famílias em nossos países, também se tornaram caixas de ressonância da “corrupção” e da “insegurança”, supostamente surgidas com os novos governos. A campanha reacionária inclui a proposta de redução da maioridade penal como se fosse a grande solução para os problemas da criminalidade. Assim, “inflação-corrupção-insegurança-autoritarismo”, as quatro rodas da carroça opositora se convertem em “denúncias”, “provas” e “verdades”. Em ação orquestrada, se impõem a ICIA. Por isso, são os próprios meios de comunicação os autoritários e os que conspiram contra a liberdade de expressão. Autodenominam-se os defensores das liberdades individuais, os guardiões da justiça e dos direitos civis. Esses mesmos meios de comunicação são aqueles que nasceram, foram criados e se calaram durante as ditaduras militares. Os mesmos que festejaram a orgia neoliberal, promotora da corrupção, da privatização, da miséria e da insegurança.

Respondendo aos seus inconfessáveis interesses econômicos, denunciam a existência de uma “inflação galopante”, a “maior corrupção da história”, o “autoritarismo crescente” e a “insuportável insegurança”. É uma fórmula para o caos do século XXI, neta do casamento entre os monopólios bancários e industriais e os monopólios de mídia. É o que se vê, com diferentes nuances, principalmente na Argentina, na Venezuela, na Bolívia e no Equador. No Paraguai, há menos de um ano, houve um golpe de Estado respaldado pela grande mídia. No Brasil, vislumbrou-se de forma muito clara a campanha da imprensa golpista contra o ex-presidente Lula e lideranças do seu partido. As hesitações e crescentes concessões do governo de Dilma Rousseff para os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais mantêm uma paz aparente, quebrada apenas pelos panfletos porta-vozes de Washington que circulam em nossas bancas.

Finalmente, é importante perguntar o quanto um governo pode controlar a inflação, a insegurança e a corrupção em economias tão concentradas e com níveis tão elevados de controle estrangeiro. Com especulação se gera inflação e, seguindo as receitas ortodoxas, se jogam as taxas de juros para cima, como forma de enriquecer o sistema financeiro. Com ações terroristas e conspirações, com playboys queimando pneus e motoqueiros armados, se aumenta a violência a níveis “intoleráveis”. Com shows de “denúncias” e bombardeios de TV, rádios, revistas e jornais se apresenta um clima de “corrupção generalizada” como “nunca antes”. E toda a ação interventora do Estado para enfrentar as reais causas da inflação (os monopólios privados), a corrupção e a insegurança (heranças do neoliberalismo) é taxada de autoritarismo.

Portanto, devemos nos perguntar até que ponto os níveis de medição das quatro variáveis respondem à influência dos meios de comunicação. E em que medida a percepção das pessoas sobre esses problemas pode estar sendo dirigida pelos monopólios de mídia. A resposta, a nosso ver, leva a uma conclusão: não há nenhuma maneira de avançar com os processos progressistas, populares e democratizantes, sem a implosão e o extermínio destes dois tipos de monopólios privados. Pois, embora a combinação desses quatro fatores, que chamamos ICIA, seja etérea, gasosa e teatral, sua insistente utilização tem imposto constrangimentos e gerado freios consideráveis aos processos de mudança propostos pelos novos governos.

A destruição destes monopólios privados -econômicos e dos meios de comunicação- é essencial e gera pavor nas elites e no capital estrangeiro. Por essa razão os seus defensores são tão críticos a qualquer tentativa de ampliar o controle do poder público, do Estado, sobre essas duas estruturas. Quanto mais cedo os governos progressistas tenham a consciência da gravidade dessa situação, e quanto antes adotem medidas democratizantes, maior a sua chance de êxito. Por outro lado, continuar financiando esses monopólios com enormes e crescentes quantidades de dinheiro público, além de crime, pode ser considerado um estúpido tiro no pé.

* Luciano Severo é professor do curso de Economia, Integração e Desenvolvimento da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Foz do Iguaçu, Brasil.

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