Arquivo | junho, 2016

Para compreender o neoliberalismo além dos clichês

30 jun


Que é a ideologia hegemônica no Ocidente, há três décadas. Como surgiu, foi adotada pelas elites e tornou-se invisível e difusa. Quais seus paradoxos. Por que esquerda fracassou, até agora, em enfrentá-la

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Imagine se a população da União Soviética nunca tivesse ouvido falar de comunismo. A ideologia que domina nossas vidas não tem nome, para a maioria das pessoas. Mencione-o numa conversa e você verá que seu interlocutor dá de ombros. Mesmo que tenha ouvido o termo antes, encontrará dificuldade para defini-lo. Neoliberalismo: você sabe o que é isso?

O anonimato é tanto sintoma quanto causa de seu poder. Desempenhou um papel importante numa notável sequência de crises: o derretimento financeiro de 2007-8; o ocultamento de riqueza e poder de que osPanama Papers nos oferecem apenas um vislumbre; a lenta derrocada da saúde e da educação públicas; o ressurgimento da pobreza infantil; a epidemia de solidão; o colapso dos ecossistemas; a ascensão de Donald Trump. Mas respondemos a essas crises como se elas emergissem isoladas, aparentemente inconscientes de que foram todas ou catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem – ou tinha – um nome. Pode haver maior poder do que operar anonimamente?

O neoliberalismo tornou-se tão penetrante que raramente o reconhecemos sequer como ideologia. Parecemos aceitar a proposição de que essa fé utópica e milenar descreve uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. Mas essa filosofia surgiu como a tentativa consciente de remodelar a vida humana e mudar o locus do poder.

O neoliberalismo vê a competição como característica definidora das relações humanas. Ela redefine os cidadãos como consumidores, cujas escolhas democráticas são melhor exercidas ao comprar e vender – um processo que supostamente recompensa o mérito e pune a ineficiência. Sustenta que o “mercado” assegura benefícios que jamais poderiam ser conseguidos pelo planejamento.

Tentativas de limitar a competição são tratadas como hostis à liberdade. A ideologia afirma que impostos e regulação deveriam ser reduzidos; serviços públicos, privatizados. A organização do trabalho e a negociação coletiva pelos sindicatos são retratadas como distorções do mercado, que impedem a formação de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores. A desigualdade é requalificada como virtuosa: um prêmio para a utilidade, ela é geradora de uma riqueza que se espalha de cima para baixo, enriquecendo todo mundo. Os esforços para criar uma sociedade mais igualitária seriam ao mesmo tempo contraproducentes e moralmente corrosivos. O mercado asseguraria que todo mundo recebe o que merece.

Internalizamos e reproduzimos estas crenças. Os ricos se convencem de que adquiriram sua riqueza por mérito, ignorando as vantagens – tais como educação, herança e classe social – que podem ter ajudado a lhes garantir isso. Os pobres começam a se culpar por seus fracassos, mesmo quanto pouco podem fazer para mudar as circunstâncias de suas vidas.

Esqueça o desemprego estrutural: se você não tem trabalho é porque não é empreendedor. Esqueça os custos impossíveis da moradia: se seu cartão de crédito está no limite, você é imprudente e imprevidente. Esqueça que seus filhos não têm mais uma quadra de esportes na escola: se ficam gordos, é falha sua. Num mundo governado pela competição, aqueles que ficam para trás passam a ser definidos e a se auto-definir como fracassados.

Entre os resultados, como documenta Paul Verhaeghe no livro What About Me?, estão epidemia de automutilação, distúrbios alimentares, depressão, solidão, ansiedade por desempenho e fobia social. Não surpreende que o Reino Unido, onde a ideologia neoliberal vem sendo aplicada com maior rigor, seja a capital da solidão na Europa.

Agora somos todos neoliberais

O termo neoliberalismo foi cunhado numa reunião de 1938, em Paris. Entre os participantes, havia dois homens que definiriam a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Áustria, eles consideraram a social democracia, caracterizada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e o desenvolvimento gradual do Estado de bem-estar social da Grã Bretanha, como manifestações de um coletivismo que ocupava o mesmo espectro do nazismo e do comunismo.

Milton Friedman, um dos ideólogos mais importantes do neoliberalismo, reúne-se com o ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 1970. Hayek, outro integrante destacado do movimento, diria, sobre o fato: “minha preferência pessoal inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”

Milton Friedman, um dos ideólogos do neoliberalismo (ao centro), reúne-se com ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 70. Hayek, outro guru do movimento, diria: “minha preferência inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”

Em The Road to Serfdom (O Caminho da Servidão), publicado em 1944, Hayek argumentava que o planejamento governamental, ao esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro Bureaucracy, de Mises, The Road to Serfdomfoi amplamente lido. Chamou a atenção de algumas pessoas muito ricas, que viram na filosofia a oportunidade para libertar-se de impostos e regulação. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que iria espalhar a doutrina do neoliberalismo – aSociedade Monte Pelèrin –, ela foi sustentada financeiramente por milionários e suas fundações.

Com tal apoio, ele começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve, em Masters of the Universe, como “uma espécie de Internacional Neoliberal”: uma rede global de acadêmicos, homens de negócios, jornalistas e ativistas. Apoiadores ricos do movimento fundaram uma série de thinktanks que iriam refinar e promover a ideologia. Entre elas estão o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o Adam Smith Institute. Também financiaram departamentos acadêmicos, particularmente nas universidades de Chicago e Virginia.

Conforme evoluiu, o neoliberalismo tornou-se mais estridente. A visão de Hayek de que os governos deveriam regular a competição para prevenir a formação de monopólios deu lugar – entre apóstolos norte-americanos tais como Milton Friedman – à crença de que o poder monopolista poderia ser visto como uma recompensa à eficiência.

Uma outra coisa aconteceu durante essa transição: o movimento perdeu o seu nome. Em 1951, Friedman se satisfazia com a descrição de si mesmo como neoliberal. Mas, logo depois disso, o termo começou a desaparecer. Ainda desconhecido, mesmo à medida em que a ideologia tornava-se mais nítida e o movimento mais coerente, o nome perdido não foi substituído por nenhuma alternativa.

No início, apesar de seu generoso financiamento, o neoliberalismo manteve-se nas margens. O consenso pós-guerra era quase universal: as prescrições econômicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas. Pleno emprego e combate à fome eram metas comuns nos EUA e na maior parte da Europa Ocidental. As aliquotas máximas do imposto eram altas e os governos buscavam resultados sociais elevados sem constrangimento, desenvolvendo novos serviços públicos e redes de segurança.

Nos anos 1970, contudo, quando as políticas keynesianas começaram a desmoronar e as crises econômicas atingiram EUA e Europa, as ideias neoliberais começaram a entrar no mainstream. Como Friedman ressaltou, “quando chega a hora, é preciso mudar … havia ali uma alternativa pronta para ser agarrada”. Com a ajuda de jornalistas simpáticos à ideia e conselheiros políticos, alguns elementos do neoliberalismo, principalmente suas prescrições de política monetária, foram adotadas pelos governos de Jimmy Carter, nos EUA, e Jim Callaghan, na Grã Bretanha.

Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, o resto do pacote veio a galope: cortes maciços nos impostos dos ricos, esmagamento dos sindicatos, desregulação, privatização, terceirização e competição nos serviços públicos. Por meio do FMI, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial de Comércio, as políticas neoliberais foram impostas – frequentemente sem consenso democrático – em grande parte do mundo. O mais notável é que foram adotadas por partidos que no passado pertenceram à esquerda: Trabalhista, na Inglaterra, e Democrata, nos Estados Unidos, por exemplo. Como observa Stedman Jones, “é difícil pensar em outra utopia que tenha sido realizada tão completamente.”

Pode parecer estranho que uma doutrina que promete escolhas e liberdade possa ter sido promovida sob o slogan “não há alternativa”. Mas, como observou Hayek em uma visita ao Chile de Pinochet – uma das primeiras nações em que o programa foi exaustivamente aplicado – “minha preferência pessoal inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”. A liberdade que o neoliberalismo oferece, que soa tão fascinante quando expressa em termos gerais, acaba por significar a liberdade para a elite, não para os peixes pequenos.

Liberdade em relação aos sindicatos e à negociação coletiva significa liberdade para reprimir salários. Liberdade em relação da regulamentação significa liberdade de envenenar rios, colocar em risco os trabalhadores, cobrar taxas iníquas de juros e criar instrumentos financeiros exóticos. Ficar livre de impostos significa ficar livre da distribuição de riqueza que tira as pessoas da pobreza.

Como Naomi Klein documenta em The Shock Doctrine (A Doutrina do Choque), teóricos neoliberais advogam o uso de crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estavam distraídas: por exemplo, a consequência do golpe de Pinochet, da guerra do Iraque e do Furacão Katrina, que Frieman descreveu como “uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional” em New Orleans.

Onde as políticas neoliberais não podem ser impostas domesticamente, elas são impostas internacionalmente, através de tratados comerciais que incorporam os “painéis de disputa estado-investidor”: tribunais globais em que as corporações podem pressionar pela revogação de leis e normas que protegem direitos sociais e ambientais. Quando parlamentares votaram para restringir as vendas de cigarro, proteger reservatórios de água das companhias de mineração, congelar contas de energia ou prevenir empresas farmacêuticas de esfolar o Estado, as empresas entraram com processos, muitas vezes bem sucedidos. A democracia reduz-se a um teatro.

Outro paradoxo do neoliberalismo é que a competição universal apoia-se em comparação e quantificação universal. O resultado é que trabalhadores, desempregados e serviços públicos em geral ficam sujeitos a um sistema de avaliação e monitoramento sufocante e enganador, desenhado para identificar vencedores e punir perdedores. Ao invés de nos libertar do pesadelo burocrático do planejamento central, como propôs Von Mises, ele criou um.

O neoliberalismo não foi concebido como um projeto egoísta, mas rapidamente transformou-se nisso. O crescimento econômico tornou-se visivelmente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã Bretanha e nos EUA) do que era nas décadas precedentes; mas não para os ultra ricos. A desigualdade na distribuição de renda e riqueza, depois de 60 anos de queda, aumentou rapidamente na nova era, devido à destruição dos sindicatos, à redução dos impostos, ao aumento dos aluguéis, à privatização e à desregulação.

A privatização ou mercantilização de serviços públicos tais como energia, água, ferrovias, saúde, educação, estradas e prisões habilitou as grandes empresas a colocar uma cabina de pedágio diante de bens essenciais e cobrar rendas, seja dos cidadãos ou do governo, para seu próprio benefício. Renda é um eufemismo para dinheiro ganho sem esforço. Quando você paga um preço inflacionado pelo bilhete de metrô, somente parte da tarifa compensa os operadores por seus custos de combustível, salários e outros gastos. O resto reflete o fato de que você está nas mãos deles.

As pessoas que possuem e administram os serviços privatizados ou semi privatizados do Reino Unido fazem fortunas tremendas investindo pouco e cobrando muito. Na Rússia e na Índia, os oligarcas adquiriram bens estatais através de leilões. No México, Carlos Slim teve garantido o controle de quase todos os serviços de telefonia fixa e móvel e logo tornou-se o homem mais rico do mundo.

Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Grã-Bretanha, a partir de um lema ("não há alternativas”) que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na “liberdade”

Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Grã-Bretanha, sob um lema (“não há alternativas”) que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na “liberdade”

A financeirização, como nota Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve impacto semelhante. “Como a renda”, diz ele, “os juros são receita acumulada sem qualquer esforço”. À medida em que os pobres tornam-se mais pobres e os ricos mais ricos, o rico adquire controle crescente sobre outro bem crucial: dinheiro. Pagamentos de juros são, de modo devastador, transferência de dinheiro do pobre para o rico. Os preços dos imóveis e a redução de investimentos estatais sobrecarregam as pessoas com dívidas; mas os bancos e os executivos nadam de braçadas.

Sayer argumenta que as últimas quatro décadas caracterizaram-se por uma transferência de riqueza não apenas do pobre para o rico, mas no interior das categorias de riqueza: daqueles que ganham dinheiro produzindo novos bens ou serviços para aqueles que ganham dinheiro assumindo o controle de ativos já existentes e recolhendo rendas, juros ou ganhos de capital. O ganho produtivo foi superado pelo ganho improdutivo.

As políticas neoliberais estão assoladas por falhas do mercado em todos os lugares. Não apenas os bancos, mas também as corporações encarregadas de entregar os serviços públicos são grandes demais para falir. Como Tony Judt apontou em Ill Fares the Land, Hayek esqueceu-se de que os serviços públicos vitais não podem entrar em colapso, o que significa que a competição não pode determinar seu curso. As empresas levam os lucros, o Estado fica com o risco.

Quanto maior seu fracasso, mais extremada se torna a ideologia. Os governos usam as crises neoliberais tanto como desculpa quanto como oportunidade para baixar impostos, privatizar os serviços públicos restantes, abrir brechas na rede de proteção social, desregular as corporações e re-regular os cidadãos. O Estado que se odeia afunda os dentes em cada órgão do setor público.

Talvez o impacto mais perigoso do neoliberalismo não seja a crise econômica, mas a crise política que causou. Conforme se reduz o domínio do Estado, reduz-se também a possibilidade de mudar o curso de nossas vidas por meio do voto. Ao contrário, assegura a teoria neoliberal, as pessoas podem exercer a escolha pelo consumo. Mas alguns têm mais do que outros para gastar: na grande democracia do consumidor ou do acionista, os votos não são igualmente distribuídos. O resultado é um desempoderamento dos pobres e das classes médiass. Conforme os partidos de direita e a ex-esquerda adotam políticas neoliberais semelhantes, o desempoderamento transforma-se em privação dos direitos civis. Um grande número de pessoas foi varrido da política.

Chris Hedges observa que “movimentos fascistas constroem suas bases não entre as pessoas politicamente ativas, mas entre as politicamente inativas, os ‘perdedores’ que sentem, frequentemente de modo correto, que não têm voz ou papel a desempenhar no establishment politico”. Quando o debate político não faz mais sentido para nós, as pessoas tornam-se suscetíveis a slogans, símbolos e sensações. Para os admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.

Tony Judt explicou que quando a espessa rede de interações entre as pessoas e o Estado é reduzida a nada, a não ser autoridade e obediência, a única força remanescente a nos unir é o poder estatal. O totalitarismo temido por Hayek tem mais probabilidade de emergir quando os governos, tendo perdido a autoridade moral que emana da garantia de serviços públicos, são reduzidos a “persuadir, ameaçar e em última análise coagir as pessoas a obedecê-los.”

Como o comunismo, o neoliberalismo é o Deus que falhou. Mas esta doutrina zumbi continua sua escalada, e uma das razões para isso é o anonimato. Ou antes, um conjunto de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível é promovida por investidores invisíveis. Devagar, muito devagar, começamos a descobrir o nome de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs , que argumentou fortemente na mídia contra a regulação da indústria do tabaco, foi secretamente fundado, em 1963, pela British American Tobacco. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que criou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao instalar um de seus thinktanks, observou que “para evitar críticas indesejáveis, o modo como a organização é controlada e dirigida não deveria ser amplamente divulgada”.

As palavras usadas pelo neoliberalismo com frequência mais ocultam do que elucidam. “O mercado” soa como um sistema natural que pode nos pressionar por igual, como fazem a pressão atmosférica ou da gravidade. Mas está carregado de relações de poder. O que “o mercado quer” tende a significar o que as corporações e seus patrões querem. “Investimento”, como nota Sayer, significa duas coisas bem diferentes. Uma é o financiamento de atividades produtivas e socialmente úteis; a outra é a compra de bens existentes para deles extrair rendas, juros, dividendos e ganhos de capital. Ao usar a mesma palavra para atividades diferentes, “camuflam-se as fontes de riqueza”, levando-nos a confundir extração de riqueza com criação de riqueza.

Há um século, os novos ricos eram desprezados por aqueles que tinham herdado seu dinheiro. Empreendedores buscavam aceitação social transformando-se em rentistas. Hoje, a relação foi invertida: os rentistas e herdeiros definem-se como empresários. Eles afirmam ter construído aq riqueza pela qual não trabalharam.

Esse anonimato e essas confusões se misturam com o fato de o capitalismo moderno não ter nem nome nem lugar. O modelo de terceirizações assegura que os trabalhadores não saibam para quem trabalham. As companhias são registradas através de um sistema secreto de rede de offshores, tão complexo que nem mesmo a polícia pode descobrir seus proprietários e beneficiados. Os arranjos fiscais logram os governos. Ninguém entende os “produtos financeiros”.

O anonimato do neoliberalismo é ferozmente salvaguardado. Aqueles que são influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, sustentando – com alguma justiça – que ele é hoje usado apenas pejorativamente. Mas não nos oferecem substitutos. Alguns descrevem-se como liberais ou ulta-liberais (libertarians) clássicos, mas essas descrições são ambas enganosas e curiosamente autodissipadoras, uma vez que sugerem não haver nada de novo em O Caminho da Servidão (The Road to Serfdom), Bureocracy ou o clássico trabalho de Friedman, Capitalismo e Liberdade (Capitalism and Freedom).

Por tudo isso, há algo admirável sobre o projeto neoliberal, ao menos em seus estágios iniciais. Era uma filosofia distinta e inovadora, promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um claro plano de ação. Era paciente e persistente. O Caminho da Servidão (The Road to Serfdom) tornou-se o caminho para o poder.

O triunfo do neoliberalismo reflete também o fracasso da esquerda. Quando a teoria do laissez-faire econômico levou à catástrofe em 1929, Keynes inventou uma extensa teoria econômica para substituí-la. Quando o gerenciamento da demanda keynesiana bateu no teto, nos anos 70, havia, pronta, uma alternativa conservadora. Mas quando o neoliberalismo desmoronou, em 2008, não havia nada. É por isso que o zumbi anda. Em 80 anos, a esquerda e o centro não produziram um novo sistema geral de pensamento econômico.

Toda invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas às crises do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar as pessoas em torno de velhas ideias; as falhas expostas nos anos 1970 não desapareceram; e, mais importante, o projeto não tem nada a dizer sobre nosso problema mais grave: a crise ambiental. O keynesianismo funciona pelo estímulo da demanda de consumo para promover crescimento econômico. Demanda de consumo e crescimento econômico são os motores da destruição ambiental.

George Monbiot é jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido. Escreve uma coluna semanal no jornal The Guardian.

Ou Dá ou Desce

20 jun

 

http://outraspalavras.net/alceucastilho/wp-content/uploads/2016/03/

Texto de Luciano Leon VIA Míriam M. Morais
“É muito cansativo conversar com quem só enxerga em preto e branco. Apesar de toda a veia igualitária/social do Lula e Dilma, tudo que eles fizeram acabou beneficiando demais o empresariado, que lucrou com uma população com mais recursos e mais dignidade.

Mas mesmo este caminho precisa “dar bom dia” pra Deus e pro Diabo. é preciso segurar o vômito e aceitar que vermes rastejantes sentem na mesma mesa ou eles viram a mesa e fazem bagunça (vide Cunha). Como vimos com o golpe, há poderosas forças em ação. Elas se juntam e decidem o que é certo/errado, o que vale e o que não vale.

Ou o povo da esquerda dá o voto de confiança que a Dilma merece e a deixa trabalhar ou a própria esquerda vira uma força para os coxinhas alimentarem péssimas e falsas imagens sobre a Dilma. Eu nunca condenei uma única vírgula decidida pela Dilma. Mesmo quando ela reorganizou coisas “imexíveis”, como o Seguro-Desemprego e ninguém teve boa vontade pra entender.

As pessoas precisam colocar na equação a evolução social trazida por Lula e Dilma e não ficar choramingando por causa de cada bom-bom que ela percebe ser melhor tirar de um pote e passar pra outro, pra melhorar o conjunto. Da mesma forma é preciso deixá-la compor seu grupo de trabalho “do jeito que dá”, já que está cercada de bestas selvagens de pura pornografia moral. Taí o Temer como exemplo.

Quem votou na Dilma precisa apoiá-la incondicionalmente. Ou você confia no seu voto ou então vai logo pro PSDB, veste uma camisa da Seleção e para de encher o saco da esquerda. A outra alternativa em apoiar a Dilma, é termos um governo fascista e um Estado Policial totalmente desumano como o Temer e seus corvos estão desenhando para nós.

Seguinte povo da Esquerda: OU DÁ OU DESCE!”

 

MACHADO: AÉCIO LEVOU PROPINA DE R$ 1 MILHÃO E COMPROU 50 DEPUTADOS

16 jun

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Em outro trecho da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, aparece o nome do senador Aécio Neves (PSDB-MG), um dos principais defensores do impeachment; tucano teria recebido R$ 1 milhão em dinheiro em 1998, de um fundo criado por ele junto com Machado e o então presidente do PSDB, senador Teotonio Vilela, a fim de financiar a bancada do PSDB na Câmara e no Senado; plano era “eleger a maior bancada federal possível na Câmara para que pudessem viabilizar a candidatura de Aécio Neves à presidência da Casa no ano 2000”; segundo Machado, “a maior parcela dos cerca de R$ 7 milhões de reais arrecadados à época foi destinada ao então deputado Aécio Neves, que recebeu R$ 1 milhão de reais em dinheiro”; parte do montante foi solicitado à campanha nacional de Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu presidente naquele ano

 

Em mais um trecho bombástico da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), um dos principais defensores do impeachment, é acusado de ter recebido R$ 1 milhão ilegal em dinheiro em 1998 e comprado o apoio de 50 deputados para se eleger presidente da Câmara.

Segundo Machado, que na época era líder do PSDB no Senado, o dinheiro saiu de um fundo criado por ele junto com Aécio e o então presidente do PSDB, senador Teotonio Vilela, a fim de financiar a bancada do PSDB na Câmara e no Senado. O plano era “eleger a maior bancada federal possível na Câmara para que pudessem viabilizar a candidatura de Aécio Neves à presidência da Câmara no ano 2000”.

Segundo Sérgio Machado, a divisão resultaria “entre 100 mil e 300 mil a cada candidato” (cerca de 50 deputados) e “a maior parcela dos cerca de R$ 7 milhões de reais arrecadados à época foi destinada ao então deputado Aécio Neves, que recebeu R$ 1 milhão de reais em dinheiro”. O tucano “recebia esses valores através de um amigo de Brasília que o ajudava nessa logística”, informou ainda o delator.

Dos R$ 7 milhões arrecadados, R$ 4 milhões vieram da campanha de Fernando Henrique Cardoso à presidência – que se reelegeu em 1998 – e o restante de empresas. Parte do dinheiro também veio do exterior, de acordo com Machado. O ex-presidente da Transpetro também disse na delação que parte do dinheiro da campanha que viabilizou a eleição de Aécio à presidência da Câmara veio de propina em Furnas.

Leia aqui o trecho da delação que cita Aécio Neves e a compra de 50 deputados, publicado no blog de Fausto Macedo.

Brasil247

Entre a manipulação da Bíblia e a posse da Vagina

6 jun

 

Os protestos contra a cultura do estupro apontam para onde se movem os Brasis e onde de fato está a oposição

Estupro coletivo

O levante das mulheres contra a cultura do estupro no paísgovernado pelo interino Michel Temer (PMDB) e pelo Congresso mais retrógrado desde a redemocratização forma o retrato mais preciso desse momento histórico tão particular do Brasil. A oposição atual não é entre um governo chamado de “golpista” e um governo que já foi apresentado como “popular”. Ou entre a presidente afastada pelo processo de impeachment e o vice que conspirou para afastá-la. O embate é entre o Brasil que emergiu das manifestações de junho de 2013 e o Brasil que se agarra aos privilégios de classe, de raça e de gênero. É esse o confronto político mais amplo que determina o curso dos dias.

Nem Temer, PMDB e partidos aliados representam todas as forças conservadoras de um lado, nem Dilma Rousseff, Lula e o PT são capazes de representar o outro campo. Como a Operação Lava Jato já mostrou, com todas as críticas que se pode – e se deve – fazer aos seus flagrantes abusos e aos personalismos inaceitáveis de alguns servidores públicos, PMDB e PT são, em alguns aspectos cruciais, mais semelhantes do que diferentes. Em alguns aspectos, obviamente não todos, mais sócios que se desentenderam do que opositores de fato políticos, no que a política tem de mais profunda, que é a sua potência transformadora. É fundamental compreender onde de fato está a oposição hoje, para além do Impeachment x Golpe.

Esta é a parte que Temer, o PMDB e as demais forças que apoiaram o impedimento de Dilma Rousseff parecem não ter compreendido. E também por isso as primeiras semanas do Governo provisório tiveram tantos recuos e pelo menos duas baixas de ministros. Apesar da sobra de esperteza dos protagonistas, eles parecem de fato ter acreditado que o país pudesse simplesmente retroceder e as velhas forças se rearranjarem mais uma vez – sem oposição. Assim como ter acreditado que a oposição, a partir de certo momento, era o PT. Acreditaram na falsa polarização, sem perceber que o país hoje é muito mais complexo.

Homens brancos e velhos”. A reação ao ministério de Temer mostrou de imediato de onde viria a oposição. Gênero, raça e protagonismo jovem. A política para além dos partidos, a política que em 2013 expulsou os partidos das ruas.

Duas fotografias, um abismo. Nas ruas do país, as mulheres escrevem na pele nua que seus corpos lhe pertencem ao protestar contra a cultura do estupro depois das violações coletivas de duas meninas, uma no Rio, outra no Piauí. O que Temer faz? Chama para ocupar a rebaixada secretaria de Políticas para Mulheres uma evangélica, Fátima Pelaes (PMDB), que já se declarou contra o aborto mesmo em casos de estupro. Ou o presidente interino tem uma deficiência cognitiva ou obedece a mandamentos menos declarados.

Ao extinguir justamente o ministério que contemplava as políticas de gênero, raça e direitos humanos, e ao extinguir o Ministério da Cultura, que fomenta a expressão dessas políticas, Temer já havia demonstrado que nem ele nem as forças que o apoiaram compreendem o país que tanto querem governar. Teve de correr atrás do prejuízo e de mulheres que concordassem em fazer parte do governo. Foi obrigado a recuar e a devolver o Ministério da Cultura à Esplanada.

Esses recuos são mais reveladores do que os ministros demitidos após o vazamento de gravações em que teriam conspirado contra a Lava Jato, porque apontam para as forças que demandam a ampliação da política. E que denunciam a crise de representação mais profunda. É por estas forças, estas políticas que não há como voltar ao Brasil do passado. O presente é outro, o presente é fluxo. É possível que os esquemas de corrupção se rearranjem de outra maneira, como ocorreu na Itália. Mas é bastante improvável que mulheres, negros e LGBTs parem de questionar os privilégios de gênero e de raça, assim como os crimes de gênero e de raça. Os povos da floresta são uma outra força, ainda obscurecida, que deverá ganhar mais e mais visibilidade com o avanço da crise climática.

Este Brasil que vai às ruas protestar contra a cultura do estupro, contra o genocídio da juventude negra, contra a corrosão das escolas públicas, onde estudam os mais pobres, representa a grande potência criativa deste momento. Muito se tem falado sobre a perda das conquistas da década passada, evidenciada por fatos como os mais de 11 milhões de desempregados atuais. É importante perceber, porém, que há ganhos que não retrocedem. A primeira geração de jovens negros que chegou à universidade não vai deixar de pressionar pela ampliação dos acessos. Assim como as mulheres que se empoderaram ao receber o Bolsa Família já se tornaram outras.

É fundamental identificar onde está o movimento. E onde está a paralisia. Ou mesmo o retrocesso. Descolados do Brasil que se move, nem o governo nem o Congresso têm resposta. Em parte, porque sequer entendem o que dizem as manifestantes que ocuparam as ruas.

Dilma Rousseff e o PT, empenhados na disputa do impeachment, tampouco têm possibilidade de representar essas forças. Há enorme potencial simbólico no fato de uma mulher assumir a presidência da República pela primeira vez. Mas é importante lembrar da escolha feita por Lula e pelos marqueteiros para turbinar esse simbolismo. Dilma foi apresentada como “mãe” dos pobres, “mãe” do povo, “mãe” do PAC. Nada mais arcaico hoje do que reduzir uma mulher à maternidade. E reduzir a maternidade às mulheres. Neste sentido, a oportunidade – preciosa – de ampliar a potência dos significados de uma mulher na presidência foi perdida, ao se optar por reforçar os velhos estereótipos, sempre redutores.

Dilma Rousseff pode até colar nos protestos contra a cultura do estupro, mas não representa o movimento

É fato que Dilma nunca se adaptou bem a esse modelito marqueteiro, mas também é fato que usou desse discurso sempre que lhe foi conveniente. Também vale lembrar que, como presidente, Dilma Rousseff recuou várias vezes na esfera dos direitos das mulheres e dos LGBTs para não perder o apoio primeiro dos eleitores religiosos, depois da bancada evangélica no Congresso. Na campanha eleitoral que a tornou presidente pela primeira vez, em 2010, sofreu um ataque criminoso cuja origem ainda precisa ser melhor apurada, com a difusão de que era “abortista” e “assassina de fetos”. José Serra, então candidato a presidente pelo PSDB e hoje ministro das Relações Exteriores do governo Temer, empenhou-se em aproveitar o ataque vindo das catacumbas ou de um lugar que merece ser melhor apurado, apregoando que tinha “Deus no coração”. Em seu programa eleitoral, mulheres grávidas desfilavam pela tela porque o candidato prometia cuidar dos bebês mesmo antes de nascerem.

A campanha eleitoral de 2010 marca o momento em que o debate foi rebaixado, com enormes consequências. Dilma elegeu-se a primeira mulher presidente, mas para isso escreveu uma carta pública declarando-se “pessoalmente contra oaborto”. Nela, comprometia-se a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema. Quem saiu a defendê-la pelos templos evangélicos foi, entre outros, Eduardo Cunha (PMDB). O deputado que lideraria o processo de impeachment da presidente garantiu a pastores que a então candidata merecia o voto evangélico porque era contra o aborto.

Não volto a lembrar deste fato por apego à redundância, mas porque sem compreender o que aconteceu com o país naquele momento não me parece possível compreender o cenário atual. Nem a profundidade da “primavera feminista” nas ruas. A campanha eleitoral de 2010 é um marco da ocupação do poder pelos evangélicos fundamentalistas, aliados a outras forças conservadoras, assim como de seu crescente poder de pressão. Naquele momento se estabeleceu que o corpo das mulheres seria a moeda de chantagem política dali em diante. Dilma rendeu-se primeiro em nome da vitória eleitoral, depois, da tal “governabilidade”. Conhecemos bem o resultado da “governabilidade” e a fidelidade dos aliados de ocasião.

Assim, as manifestações contra a cultura do estupro têm ainda mais ressonância do que pode parecer à primeira vista. Se as mulheres se apropriarem de seus corpos, será preciso encontrar outra moeda de barganha no Brasil atual. É de estupro que se fala, mas é ainda mais que está em jogo.

Os corpos das mulheres são a moeda de chantagem do momento, por isso precisam ser mantidos como objetos

Se há este Brasil que se move ocupando as ruas, há um outro que também se move. É onde está, de certo modo, a “situação”. Também neste sentido, a reação aos estupros coletivos foi um sinalizador precioso. Como ninguém, ou pelo menos quase ninguém, pode defender um estupro, a disputa se deu em torno do ser ou não um estupro. Assim como das mulheres cujos corpos têm “valor”. Neste discurso, se os corpos têm “valor”, não poderiam ser violados. Mas, se os corpos não têm “valor”, não seria considerado um estupro mesmo quando violados. O valor é determinado principalmente pelo julgamento das escolhas morais e estéticas dessas mulheres, mas também pela sua raça e classe.

Ter valor diz respeito, em qualquer um dos casos, a um corpo convertido em objeto. Quando a palavra de uma mulher ao dizer que foi estuprada não é escutada, ou é colocada em dúvida, o que se reforça é que objetos não têm voz. É importante perceber também que os corpos das mulheres só podem virar moeda eleitoral ou moeda de chantagem política, como acontece mais explicitamente desde a campanha eleitoral de 2010, quando vistos e tratados como objetos.

A desobjetificação das mulheres é, portanto, ameaçadora à manutenção dos privilégios de quem ocupa o poder ou deseja ocupá-lo. Ou alguém acredita que deputados como Eduardo Cunha (PMDB) e o clero evangélico do Congresso estão de fato preocupados com a vida do feto quando tentam impedir as mulheres de fazer aborto legal? Ou quando determinam que família é homem com mulher?

É preciso ser mais do que ingênuo para acreditar na sinceridade dessa motivação moralista. Estão preocupados, sim, em manter o comando da Casa da Moeda. Assim, as mulheres que cantaram num show de Caetano Veloso – “eta, eta, eta, o Eduardo Cunha quer controlar a minha buceta” – têm toda razão. Cunha não só quer, como precisa.

A bancada evangélica do Congresso chegou rapidamente a conclusão que a melhor moeda, pelo menos no momento, é o corpo das mulheres. Que esse controle sobre o corpo das mulheres venha travestido de religião e justificado por uma interpretação fundamentalista da Bíblia é estratégia, não princípio. Quando nos referimos a essa estirpe de parlamentares como “conservadores”, confere-se a eles uma seriedade que não têm. Do mesmo modo, chamar de Bancada da Bíblia acaba sendo menos uma ironia – e mais um reconhecimento equivocado de que a Bíblia de fato teria importância. Na prática, a Bíblia é mais um instrumento de manipulação, o que deveria ofender os evangélicos que levam a sério os fundamentos de sua crença. Uma parte do clero evangélico no Congresso leva seus princípios religiosos tão a sério quanto levam o mandamento “não roubarás”.

A escolha de uma evangélica não demonstra uma distração política de Temer, apenas aponta onde ele acredita estar a força

O aborto é o grande tema em disputa por essa razão. Se uma mulher é tão dona do seu corpo que pode interromper uma gestação, seu corpo já não pode ser objeto de um outro. Já não pode ser moeda. É também por isso que a maternidade precisa ser tão valorizada como destino sagrado das mulheres – e nisso uma interpretação religiosa da Bíblia é feita sob medida. Assim, nem de longe a escolha de uma evangélica que já se posicionou contra o aborto em caso de estupro para comandar a secretaria das Mulheres pode ser considerada uma distração política de Temer. Que depois de ter calculado todas as variáveis ele tenha feito essa escolha, mesmo com as ruas ocupadas por ativistas, só aponta onde o presidente interino acredita estar a força.

Mas Temer, o homem que tão bem calculava, já não calcula como antes. A nomeação foi publicada no Diário Oficial de 3 de maio, mas o presidente ainda pode voltar atrás. A reação das feministas foi mais forte do que Temer e os seus acreditaram que seria. Para completar, a imprensa denunciou que Fátima Pelaes é investigada num esquema de corrupção. Se Temer voltar atrás mais uma vez, será mais um recuo de um governante que desde a nomeação do ministério demonstra não entender o país que governa, atarantado entre forças opostas.

A construção de redes de comunicação, como a Record, assim como a ocupação de redes já existentes, por certas igrejas evangélicas, é a outra ponta desta arquitetura que cada mais influencia a vida cotidiana do país. Quem grita “Globo golpista” precisa ampliar um pouco mais o seu olhar. Não dá para entender este Brasil que cada vez mais é “situação” sem compreender a brilhante estratégia de ocupação de poder por parte dos ditos evangélicos. É de poder que se trata, poder para muito além da religião. E, se observarmos a história recente, essa ocupação de poder é acelerada.

Acreditar que o atual Congresso não representa o Brasil é um equívoco. Antes fosse. Pode não representar as mulheres nas ruas, assim como outros movimentos e setores mais progressistas. Mas há um Brasil que sem dúvida representa. E esse Brasil também se move. E é forte. Quando a maioria dos parlamentares votou pela abertura do impeachment da presidente em nome de Deus e da Família, usavam a mesma linguagem que uma parte considerável da população brasileira.

Também neste sentido os protestos contra a cultura do estupro são bastante iluminadores. É significativo que as ruas de capitais brasileiras tenham sido tomadas por manifestantes reivindicando a posse do corpo. Mas é preciso prestar atenção também aos vídeos, com grande audiência na internet, e aos protestos na comunidade onde ocorreu o crime, em que homens levantaram cartazes: “Não houve estupro!” ou “Orgia não é estupro”.

Nos vídeos são apresentadas “provas” morais para defender a tese de que não foi estupro, como as roupas que a vítima vestia e sua liberdade sexual. Também apresentam como “prova” o fato de que um estupro não seria tolerado pelo tráfico, numa referência a quem ocupa o lugar de lei em parte das favelas. Há outro ponto comum importante em vários desses discursos disseminados na internet: a ideia de que defesa da menina estuprada é feita por “comunistas” – ou por “comunistas dos direitos humanos”. Aqui também há uma ligação entre corpo da mulher e política que não pode ser descartada apenas pela precariedade do discurso.

Uma organização criminosa teria decretado a morte não dos estupradores, mas da menina estuprada. Em entrevista à Ponte, site de jornalismo especializado em direitos humanos, justiça e segurança pública, a socióloga Camila Nunes Dias, que pesquisa o crime organizado no Brasil, contrapõe-se ao mito de que o estupro é condenado por criminosos: “(Estes grupos de crime organizado) são profundamente conservadores, machistas e homofóbicos, e isso muitas vezes se minimiza na análise da sua atuação nas prisões e comunidades”. E, em outro momento: “Por mais que se matem uns aos outros, policiais e bandidos têm visões de mundo muito parecidas”.

Para uma grande parcela dos homens brasileiros, o gênero é o único privilégio ao seu alcance

O estupro atravessa todas as classes sociais. Os casos de violência sexual contras mulheres na faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), assim como em diversas outras universidades cujos estudantes são majoritariamente de classe média e alta, são apenas um dos exemplos de que a cultura do estupro é disseminada no país. Mas sempre vale a pena compreender as particularidades pelas quais essa cultura se estabelece nas diferentes realidades. Em especial quando se situa a disputa política atual a partir do que me parece central: o questionamento dos privilégios.

Na trajetória de alguns movimentos do século 20, assim como de alguns partidos, todos os privilégios eram contestados, menos o de gênero. A história dos sindicatos no Brasil, marcada pelo machismo e pela homofobia, precisa ser enfrentada também a partir deste recorte, para que algumas relações possam ser esclarecidas. Há muitos depoimentos que ainda virão à tona. Esta, como tantas outras, é uma história muito mal contada.

É preciso lembrar ainda que, para uma grande parcela dos homens brasileiros, o único privilégio que detém é o de gênero. Como se sabe, não é fácil abrir mão dos privilégios, mais ainda se este for o único num país tão desigual. O discurso moralista sobre o corpo das mulheres encontra um terreno fértil nas camadas mais pobres da população. E este é um viés fundamental na compreensão da ascensão de algumas igrejas evangélicas. Se a manutenção do privilégio de gênero tiver uma justificativa edulcorada, referenciada pela Bíblia, nada mais atraente. Não só mantém o privilégio como ainda é um homem “de bem” por mantê-lo. Quem vai discutir com Deus, afinal?

São muitos pontos para ligar. Os Brasis se movem. As mulheres que foram às ruas nos últimos dias acertaram em muito mais do que parece.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Brazil’s Gold Medal for Corruption

6 jun

Brasil 24_7

Michel Temer, Brazil’s interim president, displayed poor judgment on his first day in office last month when he appointed an all-white, all-male cabinet. This understandably angered many in racially diverse Brazil.

Their outrage was compounded by the fact that seven of the new ministers had been tainted by a corruption scandal and investigation that have shaken Brazilian politics. The appointments added to the suspicion that the temporary ouster of President Dilma Rousseff last month over allegations that she resorted to unlawful budget-balancing tricks had an ulterior motive: to make the investigation go away. Earlier this year, Ms. Rousseff said that allowing the inquiry into kickbacks at Petrobras, the state oil company, to run its course would be healthy for Brazil in the long run.

Two weeks after the new interim government was seated, Romero Jucá, Mr. Temer’s planning minister, resigned after a newspaper reported on a recorded phone conversation in which Mr. Jucá appeared to endorse the dismissal of Ms. Rousseff as part of a deal among lawmakers to “protect everyone” embroiled in the scandal. That was the only way, he said, to assure that Brazil “would return to being calm.” Late last month, Fabiano Silveira, the minister of transparency, charged with fighting corruption, was forced to resign after a similarly embarrassing leak of a surreptitiously recorded conversation.
This forced Mr. Temer to promise last week that the executive branch would not interfere with the Petrobras investigation, which so far has ensnarled more than 40 politicians. Considering the men Mr. Temer has surrounded himself with, that rings hollow. If the interim president is to earn the trust of Brazilians, many of whom have been protesting Ms. Rousseff’s dismissal as a coup, he and his cabinet must take meaningful steps against corruption.

Under Brazilian law, senior government officials, including lawmakers, enjoy immunity from prosecution under most circumstances. That unreasonable protection has clearly enabled a culture of institutionalized corruption and impunity. Investigators found that Petrobras contracts routinely included a flat kickback rate and that money from bribes got steered to political parties. Petrobras acknowledged last year that at least $1.7 billion of its revenue had been diverted to bribes.

“Systemic corruption schemes are damaging because they impact confidence in the rule of law and in democracy,” Sérgio Moro, the federal judge who has overseen the Petrobras investigation, wrote in an essay in Americas Quarterly last month, adding, “Crimes that are uncovered and proven must, respecting due process, be punished.”

Brazil is not the only nation in the region bedeviled by corruption. A scandal in Bolivia has tarred the image of President Evo Morales. Colombia has begun an anticorruption campaign partly in response to revelations of kickbacks in state contracts. Under heavy international pressure, Guatemala and Honduras have agreed to let anticorruption task forces staffed by international experts help local prosecutors tackle high-profile investigations.

It is not clear how far Mr. Temer will go to root out corruption. If he is serious, and wants to end suspicion about the motives for removing Ms. Rousseff, he would be wise to call for a law ending immunity for lawmakers and ministers in corruption cases.

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New York Times Opinion

Delação Premiada

3 jun

Delação Premiada

Agora estão acusando Lula de Obstrução da Justiça
Juiz – Então o Sr. concorda que o triplex mencionado nas investigações pertence ao Sr. Luis Inácio Lula da Silva.

Réu – Não, Excelência. A documentação que o Lula lhe entregou é verdadeira. Aquele triplex é de uma empresa multinacional chamada Mossak, lavadora de dinheiro, e que é laranja dos irmãos Marinhos, da Globo. Inclusive a mansão deles, construída em área de preservação ambiental, está no nome da Mossak. A maior parte dos apartamentos daquele condomínio é da Mossak, destinados à lavagem de dinheiro, Excelência.

Juiz – Limite-se a responder ao que eu lhe perguntar. E o sítio, também constante nos autos do processo, que o Sr. Luis Inácio insiste dizer que é seu.

Réu – Sim, é meu, conforme os documentos que o meu advogado apensou nos autos.

Juiz – Mas há um documento de venda, de gaveta, do senhor para ele.

Réu – Não, Excelência, também há cópia nos autos. Como o Lula investiu no sítio, há um contrato de preferencialidade, o que é diferente. Se um dia eu for vender, o Lula é o comprador preferencial.

Juiz – Algum dos promotores deseja fazer alguma pergunta ao réu?

Promotor – Eu, Excelência. É a respeito do iate do Lula.

Réu – Excelência! Isso já foi esclarecido, é uma canoa, que o ex presidente usa para pescar no lago próximo ao sítio. Como é que o Sr. Lula iria fundear um iate no interior de São Paulo? Só depois que o Sr. Geraldo Alkimin fizer a transposição do Oceano Atlântico.

Juiz – Vamos então para a lista de Furnas, deixe-me ver aqui: Aécio Neves, José Serra, Eduardo Cunha, Geraldo Alkimin, Jair Bolsonaro… É, o nome Luis Inácio Lula da Silva não consta.
O acusado, Sr. Lula, alega desconhecer os desvios da Petrobras, que não eram do conhecimento dele. O que o Sr. tem a dizer?

Réu – Nada. Como vou saber? Mas é bem provável que não. Excelência, eu não sei quantos filhos o Sr. tem, mas certamente o Sr. é sempre surpreendido por uma queixa da escola, uma peraltagem no parquinho do condomínio, uma briga de crianças, essas coisas. Se nós não temos controle nem conhecimento de todos atos da nossa própria família, como esperar que um presidente tenha o controle total sobre dezenas de ministros, dezenas de assessores diretos e indiretos, dezenas de diretores de estatais, milhares de diretores de terceiro escalão e mais de um milhão de funcionários públicos? A teoria do domínio do fato é algo assim como a teoria da quadratura do círculo.

Juiz – Passemos então a lista da OAS, deixe-me conferir: Michel Temer, Ronaldo Caiado, Eduardo Cunha, Romero Jucá, Aloysio Nunes… É o Lula não está.
Assistente de acusação. Assistenteeeee! Aparece o nome do acusado na Operação Zelotes?

Assistente – Não, senhor.

Juiz – Alguma das 8 600 contas secretas no HSBC suíço está no nome dele?

Assistente – Não, senhor.

Juiz – Senhor depoente: há a questão das palestras. O que o Sr. sabe a respeito?

Réu – O que é de domínio Público: o Instituto Lula fez anexar os contratos das palestras nos autos e, desacreditando, o Sr. intimou as empresas que pagaram ao Sr. Lula a confirmarem documentalmente, o que aconteceu, inclusive a Fundação Roberto Marinho foi a primeira a apresentar, e com o recibo de desconto de imposto de renda na fonte, justamente a Globo que tanto questionou isso.

Juiz – E não tendo mais a perguntar ao depoente, dou por encerrada a sessão, com o consequente arquivamento do presente processo.

Réu – Excelência, data vênia, vai arquivar? E os outros citados?

Juiz – Isto não vem ao caso. Escrivão, redija e envie à Polícia Federal um Mandado de Condução Coercitiva do Sr. Luis Inácio Lula da Silva, para que ele seja trazido aqui.

Réu – Excelência, com o máximo respeito, o Senhor pretende acusá-lo de quê?

Juiz – Obstrução da Justiça. Ele não dá motivos para que eu possa prendê-lo.

Por Francisco Costa ( Central de Debates do Facebook )
Rio, 02/06/2016

A guerra de ‘4a. geração’ e a implantação do regime dominante de vigilantismo global. Entrevista com Pedro Rezende

2 jun

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“O modelo de Estado que nos legou a democracia representativa e os direitos civis vai sendo desmontado por dentro, para transição a uma nova ordem mundial, disparada pelo colapso financeiro que impulsiona a próxima destruição criativa do capitalismo”, adverte o pesquisador.

Por Patricia Fachin

A recente divulgação do maior vazamento de documentos sigilosos do mundo, que ficou conhecido como Panama Papers, e que expôs a relação de empresas e políticos com paraísos fiscais e offshores, mais do que euforicamente, deve ser analisada tendo em vista alguns detalhes, diz Pedro Rezende àIHU On-Line, ao comentá-la, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

De acordo com ele, em primeiro lugar, a extração dessas informações indica “tratar-se de hacking externo”, mas “para melhor alcançar seus objetivos, dos quais a credibilidade sobre autenticidade do material vazado é primordial, a mentoria da operação preferiu ofuscar-se e ocultar o agente da extração, por trás do jornal que recebeu o material, e da entidade que se incumbiu de examinar os documentos e de distribuir conteúdos selecionados”. Entre as questões que ainda precisam ser respondidas, Rezende menciona: “Como é que 400 pessoas em 80 países conseguem manter sigilo, durante um ano, sobre tantos documentos explosivos? Eram mesmo jornalistas? Quem pagou pelo trabalho? Por quais critérios de resumo? Por que o Süddeutsche Zeidung – SZ?”.

Entre as respostas possíveis, Rezende afirma que o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, que repassou as informações ao jornal alemão Süddeutsche Zeidung, “é sustentado pelas fundações Open Society – OSF e pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – USAID, conforme rodapé da sua página web”. Então, frisa, “para quem quiser espiar por trás da cortina nesse palco, a mentoria da operação Panama Papers se expõe: a OSF é dirigida e mantida por um globalista financeiro dos mais empenhados em surfar a transição para a ordem monetária que sucederá a atual, George Soros; e USAID é o front político da agência de três letras pioneira dentre as que executam a estratégia dos principais aspirantes ao comando do emergente Hegemon”.

Para Rezende, ações como essas podem ser entendidas como uma “psyop”, ou seja, “operações psicológicas” que fazem parte da “guerra híbrida que está sendo travada pela consolidação do emergente Hegemon”. Na avaliação dele, está em curso um “plano ofensivo de guerra híbrida posto em marcha para implantar um regime dominante de vigilantismo global, necessário para consolidar e sustentar uma nova ordem social e política de alcance mundial, a pretexto do inevitável jogo de espionagem das nações”.

Na entrevista a seguir, Rezende comenta as formas de vigilantismo na internet e o comportamento dos usuários, que contribui para a formulação e evolução cibernética da propaganda.

Pedro Rezende é Advanced to Candidacy for PhD em Matemática Aplicada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, bacharel e mestre em Matemática pela Universidade de Brasília. No Vale do Silício, trabalhou com controle de qualidade do sistema operacional Macintosh na Apple Computer, com sistemas de consulta a bases de dados por voz digitalizada na DataDial e com as primeiras aplicações de hipertexto, precursoras da web, desenvolvendo HyperCard stacks para Macintosh.

Foi membro do Grupo de Padronização de Segurança da Comissão de Informatização do Conselho Nacional de Justiça, do Grupo Interministerial sobre Sociedade da Informação no Itamaraty, do Conselho do Instituto Brasileiro de Política e Direito de Informática, do Conselho da Free Software Foundation Latin América e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira, como representante da Sociedade Civil por designação do Presidente da República. Atualmente leciona no Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília – UnB.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Vivemos hoje numa sociedade do controle e vigilância? O que a caracteriza?

Pedro Rezende – Desde 2013, as denúncias de [Edward] Snowden nos revelam a parte essencial de um plano ofensivo de guerra híbrida posto em marcha para implantar um regime dominante de vigilantismo global, necessário para consolidar e sustentar uma nova ordem social e política de alcance mundial, a pretexto do inevitável jogo de espionagem das nações. Plano que até então vinha sendo camuflado como combate ao terrorismo, cibercrime, pirataria digital etc.

O vigilantismo assim implantado visa à coleta massiva de dados de todo tipo, não só para monitoramento, mas principalmente, em última instância, para instrumentar com eles o controle de valores, motivações e vontades abrigados ou desenvolvidos por indivíduos, através da manipulação ativa de nossa percepção da realidade. As chances de sucesso dessa instância repousam no fato de que nossa percepção é cada vez mais intermediada por tecnologias digitais, as chamadas TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação, e também no aporte daquilo que podemos chamar de evolução cibernética da propaganda como ciência.

Esse regime se caracteriza pela concentração de poder semiológico em grandes fornecedoras de plataformas de TIC e de serviços mediados por estas, cooptadas para instrumentar essa dominância em troca de proteção normativa, concorrencial e política. O atual estado servil da mídia corporativa exemplifica tal cooptação. É a mesma lógica que Mussolini usou para definir o fascismo, ideologia que ganha preponderância e eficácia em períodos de crise, agora sob os esteroides da revolução digital.

IHU On-Line – Qual é o papel da internet neste controle e nesta vigilância?

Pedro Rezende – Duas características atuais da computação digital se combinam para delinear esse papel. A primeira é o patamar a que chegamos com a chamada lei de Moore, e a segunda, o nível de disseminação de dispositivos móveis. A lei de Moore é uma projeção empírica, baseada na evolução histórica das TIC, para estimar o custo futuro de armazenamento e de processamento eletrônico de dados.

Pelo nível atual de miniaturização, e dos respectivos custos fabris e operacionais, para a escala de um tal regime, parece de eficácia crescente a seguinte tática: interceptar globalmente e por atacado as comunicações digitais, armazenando em gigantescos data centers dados potencialmente importantes por algum tempo, para poder minerá-los em busca de informação valiosa quando necessário, do que buscar diretamente essas informações com monitoramento em tempo real. O modelo operacional do Google dá o exemplo.

Doutro lado, com a disseminação de dispositivos móveis conectáveis alcançando personalização inédita, com a popularização do uso de smartphones e da “internet das coisas”, as possibilidades para um tal regime intervir remotamente com programações individualmente calibradas, dissimuladas ou imperceptíveis como manipuladoras ou não, alcança patamares antes só imaginados em ficções como as de [Aldous ] Huxley, [George] Orwell ou [Franz] Kafka.

Resumindo com uma metáfora, o papel da Internet para um tal regime corresponde ao do aparelho circulatório para um organismo vertebrado.

“O domínio de desenvolvimento colaborativo e licenciamento permissivo que produz e distribui softwares livres é estratégico para a defesa da autonomia tecnológica”

IHU On-Line – Numa entrevista que nos concedeu em 2014, o senhor afirmou que iniciativas desenvolvidas colaborativamente, tais como software livre, podem dificultar a implantação de um regime de vigilantismo na rede. Qual tem sido a adesão a esse tipo de software livre?

Pedro Rezende – O domínio de desenvolvimento colaborativo e licenciamento permissivo que produz e distribui softwares livres é estratégico para a defesa da autonomia tecnológica, entre grupos aptos e comunidades com interesses convergentes no uso e evolução das TIC. No cenário atual de guerra híbrida, em que a captura desta autonomia é estratégica para dominação hegemônica, a decisão de escolher, por isso, alternativas livres, pode funcionar como tática de guerrilha nessa defesa, com o potencial efeito de pulverizar as ações cooptadoras necessárias à instrumentação desta dominância.

Os estrategistas da atual guerra híbrida certamente sabem disto, pois no planejamento para consolidação do emergente Hegemon estão incluídas ações que visam a neutralizar essa tática, como bem mostra um dos mais importantes documentos vazados por Snowden: No planejamento estratégico da NSA para signals intelligence no quadriênio 2012-2016, o item 2.1.4 prescreve “enfrentar softwares de criptografia domésticos ou alheios atingindo suas bases industriais com nossas capacidades em inteligência de sinais e humanas”; e o 2.1.5, “Influenciar o mercado global de criptografia por meio de relações comerciais e pessoais de inteligência, e por meio de parceiros diretos e indiretos”.

Doutro lado, quem tem visão geopolítica para entender a importância da autonomia tecnológica, como meio de resistência a esta consolidação, tem tido pouca influência decisória sobre as potenciais vítimas de um consolidado Hegemon, talvez devido à penetração já alcançada pela manipulação ativa de percepções. “Quem não tem nada a esconder, não teme”, e “se é de graça, não presta”, são exemplos de seus memes. Assim, em meio à cacofonia de valores numa luta que se acirra pela sobrevivência pessoal, vemos o ritmo de adoção de software livre inalterado após Snowden, enquanto se acirra a investida para cooptação de importantes desenvolvedores nesse domínio, como por exemplo na plataforma de anonimização Tor.

IHU On-Line – As cinco grandes empresas que “dominam” a rede, Google, Apple, Microsoft, Facebook e Amazon, desempenham algum papel nesta “vigilância”? Qual? O que essas empresas representam hoje?

Pedro Rezende – Observemos que o segmento em que essas empresas dominam seus nichos é o de serviços intermediados pela infraestrutura global de comunicação digital, com as três primeiras também no de fornecimento de software comoditizado para plataformas altas (smartphones, desktops etc.). Esse domínio representa controle nas camadas “mais de cima” da “rede”, onde as mercadorias são simbólicas e onde a cooptação — inicialmente clandestina — de empresas dominantes é essencial para o regime de vigilantismo global poder atuar no varejo.

Particularmente em instâncias de manipulação ativa, em que se encenam importantes operações psicológicas, conhecidas como psyops, na guerra híbrida sendo travada pela consolidação do emergente Hegemon, vejo uma dessas psyops na encenação de batalhas judiciais entre agências de três letras e essas empresas, em que as empresas posam de defensoras da privacidade de seus clientes, enquanto essa “defesa” já está derrotada por programas de cooptação entre elas mesmas e essas agências, como por exemplo no projeto Prism [1].

À guisa de investigar recente ataque “terrorista” em San Bernardino, por exemplo, o FBI tenta intimar a Apple a incluir “portas de fundo” (backdoors) no sistema operacional ou no firmware do iPhone, capazes de neutralizar a criptografia oferecida a clientes, enquanto os da área sabem que as agências de três letras já detêm vários meios para isso. Outro exemplo que podemos citar, este no combate que seria às drogas, mas que na verdade é contra a concorrência, é o da parceira pioneira no projeto Prism, resistindo a ordens para entregar emails.

Na fase inicial da guerra híbrida, tais encenações servem para dessensibilizar as pessoas e a sociedade quanto aos desdobramentos dessa consolidação hegemônica, rumo à transição para a fase seguinte. Na fase seguinte da guerra híbrida, cujo início talvez tenha sido sinalizado pelo episódio Snowden, a cooptação deixa de ser clandestina ou velada e se torna explícita, alcançando também entidades financeiras e estados periféricos.

Contudo, para atuar no atacado, por exemplo, contra uso eficaz de criptografia ou na interceptação e coleta, tal regime precisa cooptar nos segmentos “de baixo” da rede, onde predominam empresas como Intel, AMD, Cisco, Lenovo, Seagate e as de telecom globalizadas. E é aí, pela posição crítica dos alvos e instâncias, que as batalhas são mais obscuras e acirradas. Como ilustram, por exemplo, as investidas do equation group, comprometendo até o firmware nas linhas de montagem de HDs e pendrives, tornando esses dispositivos de armazenamento verdadeiros cavalos de Troia, indefensáveis por antivírus, EDS e firewalls, pois fora do alcance destes.

“A ciberguerra se caracteriza também por ações próprias, para captura ou controle de ativos importantes ao regime de vigilantismo global”

IHU On-Line – Existe uma ciberguerra hoje? Como a caracteriza e quais são os atores envolvidos nela?

Pedro Rezende – Entendo que ela existe entre as dimensões eletromagnética e informacional do teatro de guerra atual, conforme a doutrina militar para dominação de amplo espectro. O emergente Hegemon se consolida com os sucessos numa série de conflitos que vão sendo planejados e deflagrados seguindo uma estratégia de guerra “de 4ª geração”, em cujo front psicológico o alvo principal para captura é a indústria da mídia corporativa, e o final é o desmonte dos Estados-nação. Combinada à estratégia sistêmica (dos cinco anéis), que orienta revoluções coloridas com ações centrípetas, executadas em redes sociais de progressiva densidade, e/ou combates não convencionais com operações centrífugas, de atores sem nítida identidade, objetivos e logística, chega-se à forma de guerra batizada de híbrida, que já citei. Vejo então a ciberguerra como interface entre a guerra híbrida e a convencional.

A ciberguerra se caracteriza não só por ações de espionagem e sabotagem convencionais, executadas por meio ou contra alvos eletrônicos, mas também por ações próprias, para captura ou controle de ativos importantes ao regime de vigilantismo global. Regime que, na guerra híbrida, corresponde à ocupação de “território virtual”. Considero as batalhas mais importantes nesse front aquelas pela radicalização de normas que regulam a virtualização de práticas sociais, sejam na área jurídica, técnica ou operacional, degradando direitos civis em prol da eficácia desse regime. Na minha área, que é a técnica, entramos numa fase de cerco explícito em processos de padronização digital, ou para a Internet, com os unlockable bootloarders no UEFI, o EME no W3C, o ETP no HTTP 2.0 etc., justamente como previsto para a ação 2.1.5 no citado planejamento estratégico da NSA.

Na área jurídica, o cerco global instalado com o Patriot Act aperta, com a CISPA, a Ordem Executiva 1.4.2015 e outras do gênero, mas é na esfera financeira que as ações de ciberguerra têm efeitos mais dramáticos. Nela, o planejamento bélico usa bancos centrais: os “mais centrais” emitem moeda fiat sem lastro cuja demanda como meio de pagamento é forçada em outras jurisdições, via pressão ou ação militar, em mercados globais com demanda inelástica. Países que emitem a moeda em que se origina sua própria dívida colhem então, em atividade econômica depreciada, por dívidas dos que não emitem a moeda em que se originou a sua. Donde há disparidade entre juros no mundo. Funciona enquanto a quantia emitida pelos primeiros para cobrir dívidas superar os gastos militares e políticos para sustentar essa coerção. Tempo que, historicamente, tem durado entre 70 e 200 anos.

Destruição criativa

Quando esse tempo se esgota, entra-se na fase crítica do ciclo capitalista que Schumpeter chama de “destruição criativa”. Nessa fase é que eclodem as grandes guerras convencionais, com os lados sempre financiados pelos mesmos operadores financeiros, alojados naqueles bancos mais centrais. Todavia, no ciclo em que hoje estamos, a passagem para esta fase vem sendo modulada por ações próprias da ciberguerra. Para dar sobrevida à moeda fiat que ainda atua como reserva global de valor, aspirantes ao comando do Hegemon ordenam manobras criminosas para manipular mercados: fraudando sua função e desvirtuando-a para oferta e demanda, acobertados pelo controle seja de informações privilegiadas, com o vigilantismo dirigido, seja da infraestrutura dos pregões eletrônicos, com seus operadores cooptados, usando por exemplo HFTs e derivativos desregulamentados.

Quanto aos envolvidos, os atores involuntários são os que detêm algum controle sobre recursos, sejam materiais, humanos ou simbólicos, de importância geopolítica ou estratégica para consolidação do emergente Hegemon. E os atores principais, os globalistas que estão ou tentam chegar ao topo da cadeia de comando pela consolidação de uma nova ordem mundial, entendo que gravitam em torno ou no poder dos mesmos operadores financeiros que se alojam nos bancos mais centrais. Estes, em dinastias formadas para isso nas treze casas bancárias que há mais de dois séculos controlam as finanças do planeta, e que planejam suas estratégias e decisões sob a clausura ou camuflagem de organizações como a ordem dos Illuminati, o grupo Bildeberg, o Council of Foreign Relations, o Clube de Roma, entre outros.

“Os afoitos, indiferentes e submissos desprezam o fato de que essa intermediação tecnológica empodera os fornecedores de plataformas e serviços com a capacidade de agregarem e cruzarem em massa os dados dessas interações, para recontextualizá-las e re-identificar interlocutores, perfilando-os”

IHU On-Line – Como o senhor compreende dois fenômenos que parecem ocorrer juntos: de um lado, um exibicionismo e fornecimento de informações pessoais nas redes e, de outro, uma crítica à vigilância e uma submissão que se dá pela rede? Não lhe parece contraditório as pessoas reclamarem da vigilância à qual estão submetidas na rede, mas, ao mesmo tempo, disponibilizarem uma série de informações pessoais por sua própria vontade?

Pedro Rezende – Também entendo que esse tipo de comportamento é comum e contraditório, mas ao mesmo tempo compreendo sua lógica interna. A natureza humana nos equipa com a faculdade da razão, mas pela mesma natureza só usamos essa faculdade quando nos convém. Nas pessoas em que predominam impulsos narcisistas, egoístas ou hedonistas, as de mais fácil submissão à propaganda subliminar e à manipulação pela ideologia dominante, esses comportamentos de risco à própria privacidade são racionalizados, quando muito acompanhados de perplexas, mas inócuas exclamações sobre um vago desconforto com vigilantismos, de varejo ou global. Como se uma tal contradição fosse típica, ou mesmo natural nos “tempos atuais”, apesar de inexplicável pela complexidade.

Tais pessoas, todavia, racionalizam ou com uma escolha deliberada, de permanecerem na ignorância sobre o lado sinistro do papel das TIC para a evolução social, ou com um atalho arrogante, de desqualificarem frivolamente esse lado, o lado das coisas que são perguntadas e respondidas aqui. O melhor antídoto que conheço para esse tipo de armadilha mental é bíblico e está no Salmo 1, mas as psyops de dessensibilização coletiva para a guerra de 4ª geração atuam também no caricaturismo da fé cristã e na sua desmoralização, em paralelo à naturalização da conduta criminosa de inspiração fascista na esfera financeira, e à legitimação do risco moral decorrentes delas.

Estamos navegando por inexploradas fronteiras técnicas e psicossociais, onde quem quiser detectar essas armadilhas precisa se esforçar para entender a função da privacidade e dos valores morais em nossas vidas. Privacidade, pela melhor definição que conheço, é a separabilidade de papéis sociais. Isto é, a capacidade de se exercer esses papéis de forma autônoma ou livre, independentes entre si. Alguém tem privacidade na medida em que decide, e controla, quais elos e traços componentes de seus papéis sociais — os de profissional, de pai, de cônjuge, de amigo, de ativista, de membro de uma entidade, por exemplo — transitam ou não de um desses papéis a outro. Podemos, assim, vê-la também como a manifestação semiológica do instinto de autopreservação.

Com a virtualização das práticas sociais em níveis compatíveis com a atual penetração da Internet, tem-se a ilusão de que a intermediação digital das interações entre papéis sociais nos dá mais autonomia para exercê-los, até anonimamente. Aí os afoitos, indiferentes e submissos desprezam o fato de que essa intermediação tecnológica empodera os fornecedores de plataformas e serviços com a capacidade de agregarem e cruzarem em massa os dados dessas interações, para recontextualizá-las e re-identificar interlocutores, perfilando-os. Esse “iceberg virtual” mostra então sua ponta visível na forma de propaganda comercial dirigida on-line, com o efeito-rede favorecendo modelos negociais concentradores. Enquanto abaixo, atores dominantes, cooptados pela estratégia fascista de consolidação hegemônica, monetizam esse perfilamento e atendem ao regime de vigilantismo global.

Assim, abaixo dessa “linha d’água” virtual, uma infraestrutura para tal regime “flutuar” como controle social vai se formando, fora de nossas vistas. Para o controle necessário à consolidação hegemônica em tempos de crise, ou de escassez, enquanto o cerco virtual desse regime se completa, na esfera institucional, com o cerco político-jurídico para formação de uma constituição global, com megacorporações acima dos Estados-nação. O modelo de Estado que nos legou a democracia representativa e os direitos civis vai sendo assim desmontado por dentro, para transição a uma nova ordem mundial, disparada pelo colapso financeiro que impulsiona a próxima destruição criativa do capitalismo. Compreendo então os fenômenos citados como uma forma de escravidão semiológica. E um sinal de sucesso dessa estratégia de consolidação hegemônica, executada com a atual guerra de 4ª geração.

IHU On-Line – Então os usuários contribuem de algum modo para que essa vigilância seja efetiva? Como?

Pedro Rezende – Contribuem com falta de senso crítico. Comportando-se como se as tecnologias digitais e seus magos fossem um bem em si mesmo, necessário para os tempos atuais. Ou panaceias progressivamente melhores para os problemas humanos. Ou sempre benévolas. Se esta minha opinião parecer exagerada, permita-me uma analogia: dados pessoais são como matéria radioativa. Enquanto espalhados na natureza, são inócuos; mas quando concentrados em escala industrial, podem provocar reações em cadeia, capazes de produzir muita sinergia ou destruição em volta. É por isso que, quando o serviço com TIC é gratuito, a mercadoria é você.

Volto a citar uma frase que usei na entrevista anterior que fizemos, escolhida na ocasião para subtítulo: A Internet é, ao mesmo tempo, um instrumento insuperável de liberdade e de controle. Eis que tal ambivalência sugere cautela. Quem acha que a dependência crescente no uso de TICs e Internet sinaliza, por si, o caminho para nossa sociedade se libertar dos crescentes problemas da humanidade, está deste modo contribuindo para que as mesmas se transformem em instrumento de controle social inédito, formidável e subreptício, nas mãos de quem vencer a corrida pela construção do futuro próximo, na disputa pelo comando do emergente Hegemon. Quem acha assim, estará contribuindo indiretamente, pelo menos enquanto a natureza humana não mudar.

“Quando o serviço com TIC é gratuito, a mercadoria é você”

IHU On-Line – Como compreende a divulgação do Panama Papers neste contexto de vigilância e controle que se dá pela internet?

Pedro Rezende – Entendo essa divulgação como psyop no teatro da ciberguerra, com inusitadas características e reveladoras leituras. Permita-me citar algumas. Detalhes inferíveis da extração, de 2.6 Terabytes, e da reação da empresa burlada indicam tratar-se de hacking externo.

Outro detalhe a chamar atenção, neste que foi o maior vazamento de documentos sigilosos sobre lavagem de dinheiro na história, é sobre autoria. Para melhor alcançar seus objetivos, dos quais a credibilidade sobre autenticidade do material vazado é primordial, a mentoria da operação preferiu — ao contrário de Snowden — ofuscar-se e ocultar o agente da extração, por trás do jornal que recebeu o material, e da entidade que se incumbiu de examinar os documentos e de distribuir conteúdos selecionados.

O jornal que havia recebido esse material, Süddeutsche Zeidung (SZ), relata ter solicitado ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos – ICIJ que coordenasse a análise e divulgação de conteúdos, a resumir, dos 11,5 milhões de documentos vazados. Alega o ICIJ ter acionado para isso cerca de 400 jornalistas em 80 países, que então trabalharam secretamente na tarefa, por cerca de um ano, após o qual o SZ recebeu a primeira resenha, para seu furo jornalístico, seguido de outros. Esses detalhes levantam algumas questões interessantes: Como é que 400 pessoas em 80 países conseguem manter sigilo, durante um ano, sobre tantos documentos explosivos? Eram mesmo jornalistas? Quem pagou pelo trabalho? Por quais critérios de resumo? Por que o SZ?

O SZ foi o primeiro jornal a receber, depois da 2ª Guerra Mundial, licença do exército de ocupação para circular na Alemanha Ocidental. Por sua vez o ICIJ, fundado oito anos após a queda do muro de Berlim, é sustentado pelas fundações Open Society – OSF e pela agência USAID, conforme rodapé da sua página web. Então, para quem quiser espiar por trás da cortina nesse palco, a mentoria da operação Panama Papers se expõe: a OSF é dirigida e mantida por um globalista financeiro dos mais empenhados em surfar a transição para a ordem monetária que sucederá a atual, George Soros; e USAID é o front político da agência de três letras pioneira dentre as que executam a estratégia dos principais aspirantes ao comando do emergente Hegemon. Fica faltando, para se entender a cena como psyop, uma leitura das motivações, que pode ser inferida dos critérios de resumo.

No dia seguinte ao furo, toda a mídia corporativa anglo-saxã ou sob sua tutela estampava fotos de Vladimir Putin, com manchetes garrafais denunciando gigantescos esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro. Dentre os nomeados nos milhões de documentos vazados, ele foi escolhido para as manchetes porque, como revelam letras miúdas, o nome de um colega de infância, que se fez violoncelista famoso, tinha dois milhões de dólares num paraíso fiscal. E porque também o tinha o dono do clube onde havia se casado uma filha. Esse incômodo de proporções nucleares, pedra no sapato da consolidação hegemônica, tinha que continuar sendo demonizado. E no rescaldo, exposto o único chefe de Estado que na crise de 2008 prendeu banqueiros por crimes financeiros: o primeiro ministro da Islândia. Forçado a renunciar, com os banqueiros presos lá, soltos dois dias depois.

E finalmente, o porquê do SZ: a Alemanha unificada é o principal parceiro comercial europeu das duas nações em condições de obstar, a favor de uma ordem alternativa multipolar, o projeto de consolidação do Hegemon. Então, com a aproximação do colapso que dispara a transição para a próxima fase de destruição criativa do capitalismo, na qual a guerra de 4ª geração tende a escalar para uma convencional terceira mundial, a concorrência em determinado turfe do crime organizado, aquele onde se manipula mercados e práticas fiscais, precisa de poda e disciplina. Leitura que vem sendo confirmada por desdobramentos posteriores a esse “escândalo”. Tudo indica, portanto, que esta psyop sinaliza um acirramento na disputa entre dinastias financeiras, polarizadas em torno dos Rothschild, Rockefeller e a do Dragão Branco, pelo comando da ordem mundial que disso tudo emergirá.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Pedro Rezende – Apenas que isso tudo constitui, a meu ver, sinais da segunda vinda de Jesus Cristo. São sinais de que o Seu retorno se aproxima.

NOTAS

[1] PRISM (programa de vigilância) é um dos programas do sistema de vigilância global da NSA que foi mantido secreto desde 2007 e até sua revelação na imprensa em 7 de junho de 2013. Sua existência veio a público por meio de publicações feitas pelo jornal britânico The Guardian, com base em documentos fornecidos por Edward Snowden. (Nota da IHU On-Line)

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