Arquivo | julho, 2016

“Fantástico” faz malabarismo para tentar justificar reforma da Previdência

18 jul

Rede Brasil Atual – Cidadania, Política, Trabalho — Rede Brasil Atual

Programa da TV Globo exibiu reportagem sobre o que eles chamaram de “rombo” da Previdência. Única coisa clara foi que a emissora vai continuar manipulando para justificar retirada de direitos

A Previdência garante a sobrevivência de cerca de 90 milhões de pessoas
O Fantástico exibiu neste domingo (17) uma longa reportagem sobre o que eles chamaram de “rombo” da Previdência Social. A única coisa que a matéria deixou claro foi que a TV Globo – como outros órgãos da mídia tradicional – vai continuar manipulando as informações para tentar justificar a retirada de direitos da classe trabalhadora.

O interino Temer está discutindo o aumento da idade mínima para aposentadoria e redução do valor dos benefícios. A mídia, que faz o jogo do mercado, e as instituições financeiras, interessadas em vender planos de previdência privada, aprovam a medida.

Eles insistem no velho e falso argumento de que há déficit da Previdência e que, para equilibrar as contas, é preciso mudar as regras da aposentaria. Isso é um mito. A Constituição brasileira definiu três fontes de financiamento previdenciário: as contribuições de empregados, dos empregadores e a parte bancada pelo Tesouro Nacional. Essa terceira fonte legal de financiamento é sempre ignorada pelos defensores da reforma. Como eles tiram do cálculo os recursos provenientes do Tesouro, em 2015 ficou um rombo de R$ 85 bilhões. Isso está errado!

Além disso, legalmente não existe conta da Previdência separada do Orçamento da Seguridade Social, como expliquei recentemente aqui.

Outra balela é dizer que o Brasil é um dos poucos países que não tem idade mínima para aposentadoria. Desde 1998, a idade mínima para os (as) trabalhadores (as) urbanos se aposentarem é de 65 anos para os homens e 60 anos no caso das mulheres. Isso, desde que tenham contribuído durante pelo menos 15 anos. Detalhe, cerca de 53% das aposentadorias concedidas no Brasil são por idade, dado que a matéria obviamente esconde.

A repórter ou a produção poderiam ter lido a cartilha do Sindicato dos Bancários de São Paulo, que explica de forma clara tudo sobre Previdência Social.

A matéria menosprezou a sonegação de impostos previdenciários e usou um dado errado – R$ 26 bilhões de sonegação. Estudo do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) mostra que a sonegação da Previdência em 2015 foi de R$ 103 bilhões, valor mais do que suficiente para cobrir o suposto déficit.

A Previdência Social, patrimônio do povo brasileiro, é o maior programa social do país – distribui renda, garantindo a sobrevivência de cerca de 90 milhões de pessoas, que consomem e geram receita para comércio, indústria e agricultura, fazendo a economia girar.

por Vagner Freitas* (18/07/2016) Presidente Nacional da CUT

 

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Documento secreto sobre 11/9 detalha possível ligação saudita com Al Qaeda

16 jul

Documento secreto sobre 11/9 detalha possível ligação saudita com Al Qaeda
MARK MAZZETTI
DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON(15/07/2016 )
O Congresso norte-americano levou a público nesta sexta-feira (15) um documento que passou anos em sigilo e que detalha possíveis ligações entre o governo saudita e o complô terrorista do 11 de setembro de 2001.

O documento de 28 páginas é um catálogo abrangente de alegados vínculos entre autoridades sauditas e agentes da Al Qaeda, desde contatos que agentes sauditas no sul da Califórnia tiveram com os sequestradores até um número telefônico encontrado com o primeiro prisioneiro da Al Qaeda em custódia da CIA, que o FBI rastreou e descobriu ser de uma firma que administrava uma residência no Colorado do príncipe Bandar bin Sultan, o então embaixador saudita em Washington.

O documento, que faz parte de um inquérito do Congresso de 2002 sobre os ataques de 11 de
setembro, foi mantido em segredo até agora devido ao receio de que pudesse desgastar as
relações diplomáticas entre os EUA e a Arábia Saudita.

FILE - In this Sept. 11, 2001 file photo the twin towers of the World Trade Center burn behind the Empire State Building in New York after terrorists crashed two planes into the towers causing both to collapse. The government is preparing to release a once-classified chapter of a congressional report about the attacks of Sept. 11, that questions whether Saudi nationals who helped the hijackers with things like finding apartments and opening bank accounts knew what they were planning. House Minority Leader Nancy Pelosi said Friday July 15, 2016, that the release of the 28-page chapter is "imminent.” (AP Photo/Marty Lederhandler) ORG XMIT: NYR107

As Torres Gêmeas do World Trade Center após terroristas colidirem dois aviões contra os
edifícios.
Sua divulgação assinala o fim de uma luta travada durante anos porlegisladores e as famílias
das vítimas do 11 de setembro para levar a público qualquer evidência de que a Arábia Saudita pudesse ter exercido um papel nos ataques.

A maioria dos fatos em torno dos ataques não é objeto de contestação séria, mas a controvérsia duradoura em torno do possível papel desempenhado por autoridades sauditas serve para lembrar que alguns mistérios permanecem, mesmo agora, quando o 15º aniversário dos ataques se aproxima.

A administração Obama enviou à liderança do Congresso uma versão não sigilosa do documento, com alguns cortes, na sexta-feira. Horas mais tarde o documento foi postado no site na internet do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados.

Boa parte da pressão exercida ao longo de mais de dez anos para liberar a divulgação do
documento foi liderada pelo ex-senador democrata Bob Graham, da Flórida, que foi um dos
copresidentes do inquérito congressional. Graham disse por muito tempo que a divulgação do documento traria provas convincentes de que o governo saudita teve participação direta no complô terrorista.

Mas o documento também é, até certo ponto, uma curiosidade histórica. As 28 páginas foram mantidas em sigilo por tantos anos que seu significado parece ter sido amplificado pelo tempo.
Investigações subsequentes conduzidas pela comissão do 11 de setembro e o FBI estudaram muitas das pistas presentes nas 28 páginas e constataram que algumas delas não têm base factual.

Em entrevista dada no mês passado, Eleanor J. Hill, diretora de pessoal do inquérito
congressional, descreveu as 28 páginas como “um resumo das informações dadas às agências para serem investigadas mais extensamente”, e não uma lista de conclusões firmes. O complô do 11 de setembro ainda é uma investigação em aberto do FBI.

Em seu relatório final, divulgado em 2004, a comissão do 11 de setembro disse que não
encontrou evidências de que “o governo saudita, como instituição, ou autoridades sauditas
seniores, individualmente, tenham financiado” a Al Qaeda.

Mas alguns membros da comissão observaram que os termos do relatório não excluíram a
possibilidade de que funcionários sauditas de escalão inferior tivessem auxiliado os
terroristas. Disseram que a comissão trabalhou sob forte pressão de tempo e não conseguiu
investigar todas as pistas.

Saudi Arabia Foreign Minister Adel al-Jubeir leaves after a news conference at the Saudi Arabian Embassy in Washington, Friday, July 15, 2016, after the U.S. released once-top secret pages from a congressional report into 9/11 that questioned whether Saudis who were in contact with the hijackers after they arrived in the U.S. knew what they were planning. (AP Photo/Andrew Harnik) ORG XMIT: DCAH110

O ministro das Relações Exterioes da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, deixa entrevista em
Washington.
Alguns investigadores continuaram perplexos, em especial, pelo papel exato desempenhado por Fahad al-Thumairy, funcionário consular saudita que vivia na área de Los Angeles na época dos ataques. Eles acreditam que, se houve algum envolvimento do governo saudita no complô, é provável que tenha passado por ele.

Thumairy era o imã de uma mesquita visitada por dois dos sequestradores do 11 de setembro, e alguns funcionários do governo americano desconfiam há anos que Thumairy tenha dado assistência aos dois homens -Nawaq Alhamzi e Khalid al-Mihdhar- depois de chegarem a Los Angeles, no início de 2000.

Um documento do FBI de 2012 citado no ano passado por uma comissão independente de revisão concluiu que Thumairy “imediatamente designou uma pessoa para cuidar de al-Hazmi e al-Mihdhar durante o período que passaram na área de Los Angeles”, mas o FBI não conseguiu revelar outros detalhes sobre os movimentos dos dois homens em seus primeiros tempos nos Estados Unidos.

Dois investigadores da comissão do 11 de setembro entrevistaram Thumairy por várias horas na capital saudita, Riad, em fevereiro de 2004, mas ele negou ter tido qualquer ligação com os sequestradores, mesmo depois de lhe terem sido mostrado registros telefônicos que
aparentemente o vinculavam aos dois homens.

No documento de 28 páginas é discutido o possível papel exercido por Thumairy, além de várias ligações possíveis entre agentes da Al Qaeda e funcionários sauditas. Uma seção do documento detalha como um número telefônico em uma caderneta de telefones encontrada com Abu Zubayda, capturado pela CIA no Paquistão em março de 2002, revelou ser de uma corporação em Aspen, Colorado, “que administra a residência do príncipe Bandar no Colorado”.

Abdullah al-Saud, o embaixador saudita nos Estados Unidos, disse em comunicado na sexta-feira que a Arábia Saudita “saúda a divulgação” do documento.

“Desde 2002, a Comissão do 11 de setembro e várias agências governamentais, incluindo a CIA e o FBI, investigaram o conteúdo das ’28 páginas’ e confirmaram que nem o governo saudita, nem funcionários seniores sauditas, nem qualquer pessoa agindo em nome do governo saudita deram qualquer apoio ou incentivo a esses ataques”, disse o embaixador.

Tradução de CLARA ALLAIN

Uol

 

CURSO PARA O COXINHA ESCLARECIDO. Por Azenha Luis

15 jul

 

http://www.coxinharei.com.br/wp-content/uploads/2016/05/

Agora que você conseguiu derrubar uma presidente da República com premissas e argumentos falsos, é hora de sofisticar sua capacidade de debate.

Não seja confundido com um mero seguidor do intelectual pornô Alexandre Frota. Pega mal na turma. Você certamente é muito mais sofisticado que isso.

Provavelmente você é admirador dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, do Estado Mínimo, escrito assim em maiúsculas para denotar a centralidade deste item na pauta neoliberal.

Nunca confunda uma coisa com outra. Por mais que a Miriam Leitão sugira isso, os Estados Unidos NÃO SÃO um Estado Mínimo.

Palavra de quem morou lá duas décadas e tem duas filhas novaiorquinas (na verdade, de tripla nacionalidade, dentre as quais preferem a brasileira), com direito a tirar proveito do estado de bem estar social dos Estados Unidos.

Você costuma confundir estado de bem estar social com comunismo (como em Bolsa Família, médicos cubanos, etc.). Nos Estados Unidos, ele é resultado do ANTICOMUNISMO.

Prestenção: quem implantou o estado de bem estar social nos Estados Unidos foi o presidente Roosevelt. O país vinha do crash econômico de 1929. Depressão econômica. Os sindicatos eram fortes. Para cooptar os sindicatos e evitar a ascensão dos comunistas, Roosevelt resolveu implantar programas sociais e SALVAR O CAPITALISMO. Portanto, as coisas que ele bolou e implantou eram uma forma de combater o comunismo. Portanto, anticomunistas.

Chamar o Roosevelt de comunista é tão absurdo quanto chamar o Lula ou a Dilma ou o PT de comunista. Eles são SOCIAL DEMOCRATAS.

No Brasil, o partido que tem social e democratas no nome não é nem uma coisa, nem outra.

Voltemos aos Estados Unidos. Por mais que a partir daquele seu grande herói, o Reagan, os EUA tenham dilapidado o estado de bem estar social, os pilares deles subsistem: Social Security, Medicare, Medicaid e Food Stamps.

Pode chamar de Previdência Social, Bolsa Terceira Idade, Bolsa Plano de Saúde e Bolsa Família.

Essa ideia, de que o Estado deve ajudar a cuidar dos mais fodidos, é uma coisa antiga, que surgiu em outro país que você admira muito, a Alemanha. Mas não quero dar overload de informação no seu cérebro.

Basta você registrar isso: por causa dos programas sociais acima — e de outros FATOS que apresentarei em seguida — os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Pelo contrário, os EUA se assentam sobre um MEGAESTADO, muito maior que o brasileiro.

Se você quer alguns exemplos de Estado Mínimo, eu os ofereço: México, Honduras e Paraguai, países que você certamente despreza e NUNCA utiliza como exemplo para reforçar seus argumentos.

Portanto, sempre que você falar em Estado Mínimo, esqueça os Estados Unidos e diga: “Devemos fazer como lá no Paraguai, que…” Acrescente, em seguida, os argumentos pelos quais o Brasil deve seguir o mesmo caminho. A gente quer coxinhas sofisticados E intelectualmente honestos!

Foto do perfil de Azenha Luiz

Luis Carlos Azenha

É um jornalista brasileiro, já tendo trabalhado em várias emissoras do país, como Globo, SBT e Manchete, e contratado em outubro de 2008 pela Rede Record.

É fundador do famoso site “Viomundo”

Empresas norte-americanas pagam cada vez menos impostos

14 jul

A evasão fiscal nos Estados Unidos começa a chamar a atenção. O meio usado para a sonegação é o sistema financeiro clandestino denunciado pelo jornalista investigativo Nicholas Shaxon, e composto pelos chamados “paraísos fiscais”. O jornal Nation of Change acaba de publicar um artigo sobre o assunto, em que afirma:

“As corporações simplesmente pararam de pagar impostos, talvez usando a recessão de 2008 como desculpa para alegar dificuldades, e ao ver os negócios melhorarem, não retomaram suas obrigações tributárias. Os números são definitivos: por 20 anos, de 1987 a 2008, as corporações pagaram uma média de 22,5% em impostos federais. Desde a recessão, esse percentual caiu para 10% – muito embora seus lucros tenham dobrado em menos de 10 anos.“

Com base em dados do Pay Up Now, que usou informações das próprias companhias, o artigo lista as 16 corporações que mais sonegam impostos. Entre elas estão a Google, que “cortou 3,1 bilhões de dólares de seus impostos, nos três últimos anos, usando o artifício de mover a maioria dos lucros realizados fora dos EUA através da Irlanda e Holanda para as Bermudas”, de acordo com o jornal Huffington Post. A Pfizer, uma das maiores multinacionais da indústria farmacêutica, também recorreu ao sistema financeiro das sombras para pagar menos impostos. Newscorp (NWS), o grupo de mídia de Rupert Murdoch, tinha 782 subsidiárias em paraísos fiscais de 14 países, em 2008. Com isso, pagou “impostos incrivelmente baixos”.
O site Pay Up Now traz informações sobre a sonegação fiscal e os produtos dessas empresas, várias das quais presentes no Brasil. Vale uma olhada.

http://ttfbrasil.org/noticias/index.php?id=63

Como é o sistema de inserção social na França.

11 jul

Por Mônica Cossalter, de Paris

A autora deste artigo, Mônica Cossalter, foi bolsista do PRO-UNI do Mackenzie, instituição assustada com as altas performances dos PROUNISTAS. Formou-se em Letras com a nota máxima e fez mestrado na mesma instituição. Hoje é professora-doutura em uma universidade francesa, tradutora e escritora.

O Brasil é um país de quase 200.000.000 de cidadãos, palavra que, segundo qualquer bom dicionário significa, “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado livre”. Entre os direitos civis, estão contidos os direitos sociais.

Isso que dizer que o pobrezinho desdentado que não possui sapatos e que se venderia por um pão com mortadela é, sim, um cidadão brasileiro, mesmo que ele não esteja no gozo de seus direitos civis, sociais e humanos e que a enxurrada de agressões verbais estampadas nas redes sociais queira “coisificá-lo” aos olhos de todo um país e se possível do mundo. “Estes desdentados que se vendem por bolsa-família” (os seres humanos são compráveis, sabemos; mas enquanto alguns até podem se vender para ter o que comer, outros se vendem muito mais caro por motivos muito menos nobres). Deixo de digredir agora para entrar diretamente no assunto que me levou a fazer esta reportagem.

Eu vivo na França, onde imperam coisas chiques que nossa elite tanto estima. O brasileiro sente frissons ao ouvir o nome desse país que nos inspira. É como se aqui não houvesse pobre e todo mundo fosse absolutamente honesto e rico (o que é quase um oxímoro) e morasse ao lado da Torre Eiffel. Sim, a França é um país sofisticado! E o Brasil não sabe fazer nada direito, pois elegemos pessoas feias como Lula e Dilma! Não merecemos isso, afinal, somos um Brasil de Kardashians, não é verdade?

A direita brasileira tem se batido contra nossas importantes mas ainda modestas ajudas sociais, mostrando mais uma vez sua enorme ignorância. Por que será que não vemos nas ruas das cidades francesas uma enxurrada de cidadãos pedindo o que comer, o que vestir, ou uma moeda? Porque simplesmente, na falta da Providência Divina, o Governo provê. A França possui uma estrutura de proteção, acolhimento e inserção social que faz com que não vejamos ou vejamos poucas pessoas dormindo pelas ruas ou esmolando – como acontece no Brasil, para incômodo da consciência dos que a possuem e mero incômodo da minoria restante.

Qualquer cidadão francês (ou estrangeiro em situação regular) pode contar com uma ajuda financeira mensal, que se chama “RSA” (Revenu de Solidarité Active, ou Renda de Solidariedade Ativa), que é direcionada às pessoas em situação de necessidade temporária ou durável. Em março de 2016 as estatísticas mostraram que mais de 2,53 milhões de lares franceses contavam com esta ajuda em dinheiro. Ou, em pessoas, 4.000.000 de “vagabundos” que vivem de uma ajuda mínima de 514 € para uma pessoa sozinha, 925 € se esta pessoa tiver até dois filhos e 1.079 € para um casal com até dois filhos. Mas não é apenas isso. Cada cidade francesa possui estruturas de moradia de urgência direcionadas aos seguintes grupos sociais: famílias, idosos, jovens mães, homens sozinhos, mulheres agredidas, portadores de distúrbios psiquiátricos, adictos ou alcoolicos, pequenos delitos etc. Cada grande cidade gere um departamento e todos os serviços são integrados: a começar pela polícia civil, que presta orientação imediata ao receber uma pessoa por agressão domiciliar, por exemplo. O agredido é orientado a sair do local, e não tendo para onde ir, é imediatamente encaminhado ao Serviço de Alojamento de Urgência. Mas não é preciso passar pela polícia – qualquer pessoa pode se dirigir diretamente ao centro de sua região e pedir ajuda.

Na cidade de Nancy, por exemplo, existe o ARS (Acolhimento e Reinserção Social) com cujos responsáveis eu conversei e em cujas estruturas estive imersa.

Neste centro de acolhimento, o Camille Mathis, cada pessoa é recebida por um assistente social que acompanha seu percurso de reinserção. Lá, receberá toda a alimentação de que precisa, desde o café da manhã até o jantar. Comida de qualidade comum, em refeitório coletivo. Roupa e sapato “de ocasião”, ou seja, de segunda mão. Cada morador é também inserido na agenda dos serviços participativos: limpeza, coleta de lixo ou a guarda de crianças para mães que precisem sair.

Neste centro, cada pessoa acolhida – sozinha, em casal ou em família – possui reuniões com seu assistente social para ser encaminhada a cada um dos seguintes serviços: médico, dentista, hospital, clínicas, psicólogo, polícia, advogado, centros de emprego e formação profissional. O tempo médio que cada pessoa permanece no centro pode variar segundo suas necessidades, normalmente entre 6 meses e um ano. Mas, se for preciso, ela ficará mais.

Certas pessoas podem passar por uma moradia de transição, sempre acompanhada por um assistente social. Se tudo correr bem, ela será encaminhada ao organismo de moradias populares, os chamados “HLM”. E lá, ela terá uma casa ou apartamento simples mas correto, pelo qual pagará um aluguel baixo. Há ainda outras ajudas sociais para moradia, que podem variar segundo as necessidades: o FSL, ligado ao “Conseil Général”, mantém ajudas para acesso à moradia, como adiantamento do valor da caução, cobertura de uma porcentagem do valor mensal de aluguel e eletricidade, bilhete mensal de transporte público, entre outros benefícios. Também cuida de superendividamentos. Em alguns casos, a dívida chega a ser eliminada por questões humanas. Existe ainda a CMU, que é um sistema de saúde gratuito que atende aos cidadãos desmunidos.

Emmanuelle Garry, educadora especializada, desde 1999 ligada ao CHRS (Centro de Moradia e Reinserção Social) Camille Mathis muito gentilmente me respondeu algumas questões, que transcrevo abaixo.

“1 – Desde quando a França começou a colocar em pratica as ajudas sociais de ARS?

Não tenho a data exata, mas tudo começou com o período pós-guerra. As pessoas tinham necessidades de serem acolhidas e não tinham onde morar nem o que comer ou vestir.

2 – Quais os objetivos da associação ARS?

A associação, que é financiada pelo Estado, tem por objetivo desenvolver e gerenciar toda ação inscrita nos campos das políticas sociais ou médico-sociais, permitindo contribuir para melhorar as condições de existência das pessoas confrontadas com dificuldades temporárias ou duráveis, no respeito da sua dignidade e com a vontade de valorizar as potencialidades de cada uma delas, para assim lhes permitir o acesso às condições de vida promocionais e de serem atores de seu futuro.
3 – Por que a França mantém esta estrutura de acolhimento e inserção social?

Está no texto da Lei. A base está lá e, mesmo que algumas mudanças possam ocorrer, não podemos voltar à idade da pedra. É por isso que a França a mantém.

4 – Quais são as etapas pelas quais uma pessoa passa até sua inserção completa? Quando termina o trabalho do ARS?

Tudo depende da situação da pessoa. Por exemplo, se ela estiver endividada ou tiver problemas de saúde, será preciso antes resolver este problema para que ela possa vislumbrar seu futuro. Consideramos que nosso trabalho termina quando conseguimos que a pessoa esteja em seu próprio alojamento. Mas ela poderá sempre contar com nossa estrutura.

5 – Quais são os maiores benefícios dos resultados positivos desta estrutura para a sociedade francesa?

Nenhuma pessoa jamais está acabada. Se contar com uma ajuda adequada, ela poderá voltar a viver uma vida normal. Sem esta ajuda, no entanto, ela poderá estar acabada, sim. Depois, há toda uma fragilidade psicológica que faz com que ela, sozinha, entre em desespero. Sem ajuda, cairá na depressão, no alcoolismo e até no crime. É imperativo que ela beneficie destas ajudas o mais cedo e rapidamente possível. Quanto mais tempo se perder, maior será o prejuízo social e individual.

6 – Há uma lei que obriga ao cumprimento, ou o direito a estas ajudas sociais está garantido na Constituição Francesa, por exemplo?

Sim, tudo está previsto na Constituição. É Lei. Além disso, nós mantemos nossos valores. Se não tivermos mais os valores que nos orientam, vamos acabar na sombra do individualismo onde cada um só pensa em si. Isto não é viver em sociedade.

7 – No Brasil, sempre que um partido de orientação oposta ao seu antecessor assume um mandato, a tendência é acabar ou interromper os projetos implantados até então. A França também passou por mudanças de governantes de esquerda e de direita. Como se explica o fato de que a estrutura sobreviveu e não foi simplesmente fechada ou interrompida, como acontece no Brasil? Esta estrutura poderia vir a ser abolida por causa de opiniões políticas contrárias às despesas estatais?

Impossível. Nossas estruturas são de utilidade pública, então elas não podem ser fechadas. Eu acredito que nosso papel é fundamental e que ele permite o acesso às pessoas aos seus direitos também fundamentais, porque muitas vezes as pessoas não estão a par deles, ou não sabem como aceder a eles.

8 – A senhora teria uma mensagem de cunho social que gostaria de transmitir ao Brasil e aos brasileiros em geral?

Eu creio que todo ser humano possui o direito de ser respeitado como ser humano. Não é porque uma pessoa está em situação difícil que ela poderá ser criticada, rebaixada nem humilhada. Cada um de nós poderá se encontrar um dia nesta situação, devido à perda de alguém, ao desemprego etc. Daí a importância de não se fechar os olhos para o que se passa e de estender a mão àqueles que estão na necessidade. Em nossa formação, aprendemos a ética: ‘Toda pessoa sempre tem alguma coisa de bom’. Trabalhamos muito com o potencial de cada um, mesmo que a própria pessoa o desconheça. Assim se reconstroem os seres humanos”.

No Brasil, as ajudas sociais que foram implantadas a partir do primeiro governo de esquerda legitimamente eleito suscitaram e suscitam a cada dia mais a ira da “direita injustiçada” que tem que “sustentar vagabundo”. O Bolsa Família foi um dos responsáveis pela redução do índice de miséria no Brasil, que caiu 27,7% entre 2002 e 2006.

O valor de 77 reais que é versado mensalmente aos “vagabundos que vivem às custas do bolsa família” provoca uma ira irracional. Irracional é exatamente o termo, pois designa aquele que é incapaz de raciocinar: qual vagabundo conseguiria viver com 77 reais ao mês? (gostaria de aproveitar e transmitir aos 4.000.000 de franceses que contam com as ajudas socias do governo que a direita/elite brasileira os considera “vagabundos”. Afinal, não se trata de uma questão de nacionalidade, vagabundo é vagabundo em qualquer língua! E os vagabundos daqui, como os do Brasil, podem ser encontrados onde a elite brasileira vai e nem imagina que está sendo atendida por um).

A crueldade da direita elitista não tem limites! Cabe a nós, portanto, limitá-la. Proponho a criação de um dispositivo legal que (amplie e) obrigue a manutenção de uma estrutura social de acolhimento, proteção e inserção no Brasil, e que impeça sua suspensão, seja qual for a orientação política do governo, visto que até o momento, o Brasil é, sim, uma democracia (mesmo contra a vontade de uma minoria muito pouco chique) e como tal, democraticamente, não somos 2 ou 3 milhões que possuem direitos, mas duzentos milhões – na sua grande maioria feios, sem dentes ou sem dedos, sem botox, muito magros ou muito gordos, sem dinheiro pra comprar Louis Vuitton nem Moët & Chandon. Gente de verdade que tem fome, sede, frio, necessidades vitais e não vitais também. Junto com a ignorância, a ganância é a coisa menos elegante da elite brasileira.

A conclusão a que se pode chegar, após toda esta reflexão é que, apesar da rica direita brasileira julgar conhecer o que há de mais chique na França, a verdade é que ela permanece na mais obscura ignorância.

A coisa mais chique que a França possui é composta de uma estrutura de ferro, mas não é a Torre Eiffel. É sua estrutura de promoção da justiça social. Isso sim é chique. E a direita, que idolatra e adora imitar a França, mais uma vez mostra que vai na direção errada.

A prova de que boas políticas sociais prescindem da Sorbonne e de curso de sociologia para fazer valer direitos em sua sociedade.

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DCM

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