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O golpe não foi dado contra Dilma, Lula ou o PT.

8 out

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Por Prof. Nilson Lage:

Não se deixem enganar.

O golpe não foi dado contra Dilma, Lula ou o PT.

Não começou em 2013.

Está ainda em curso e visa o Brasil,suas riquezas, seu futuro e, afinal, sua existência
como nação.

A articulação data do início dos governos trabalhistas e aproveita estrutura de penetração
ideológica montada nos anos 1980 e 1990, as décadas perdidas, para dar cobertura à
incorporação da economia do país à globalização neoliberal.

Implantaram-se institutos (think tanks), mobilizaram-se agitadores, desfecharam-se os
movimentos de massa paralelos à conspiração política e jurídica,com cobertura midiática –
tudo para construir o ambiente adequado à derrubada do governo constitucional.

Ao mesmo tempo, apertava-se o torniquete econômico e instalavam-se bases militares nas
fronteiras nacionais.

Qualquer governo que contrariasse os interesses mobilizados para o golpe seria derrubado:
o do PT foi visado, como antes o PTB de Getúlio, o PSD de Juscelino e até o governo
militar de viés nacionalista pós-Geisel.

Só que, dadas as circunstâncias internacionais e o avanço das técnicas de controle
psicossocial, o golpe arriscou-se a ser mais radical e abrangente que os processos
anteriores.

Assistimos à versão latino-americana, soft, da “primavera árabe”..

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A irracionalidade da destruição de Lula

16 set

 

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Por Leonardo Attuch

Rotulado pelo Ministério Público como “comandante máximo da propinocracia”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda ocupa um outro espaço no imaginário do povo brasileiro. Lula é, para milhões e milhões de brasileiros, o presidente que mais atenção dedicou aos mais humildes, com programas como o Fome Zero, o Bolsa-Família, o ProUni e tantos outros. Não por acaso, deixou o Palácio do Planalto com 80% de popularidade, um índice inédito de aprovação popular.

Se os pobres ficaram satisfeitos com o primeiro governo na história do Brasil conduzido por um autêntico representante do povo, e não das oligarquias, o mesmo se pode dizer dos mais ricos. Sob Lula, a economia brasileira viveu seu período de maior prosperidade, dentro de uma democracia. O Brasil se tornou a sétima economia global, acumulou mais de US$ 300 bilhões em reservas e atingiu o chamado “grau de investimento” – o que permitiu que os grandes empresários lançassem ações em bolsa e se tornassem bilionários.

Portanto, foi um momento único em que todas as classes sociais progrediram. A tal ponto que Jim O’Neill, criador da expressão BRICs (usada para designar o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China), definiu Lula como o mais importante líder político do mundo nos últimos 50 anos. O cantor Bono Vox afirmou que Lula era um patrimônio do mundo – e não apenas do povo brasileiro. E Barack Obama, com uma indisfarçável inveja, o definiu como “o cara”.

Paralelamente, o prestígio de Lula irradiava para as empresas brasileiras e para o País como um todo. Em menos de dois anos, sob seu governo, o Brasil conquistou o direito de sediar os dois maiores eventos do esportivos do planeta: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Revistas internacionais de grande prestígio, como a Foreign Affairs, apontavam a emergência de uma nova potência global, cujas empresas ocupavam espaços na África, na América Latina e mesmo nos mercados mais desenvolvidos.

Bons tempos, em que o Brasil, mais do que respeitado, era admirado por todos. No entanto, de repente, tudo começou a desmoronar desde que foi colocado em marcha o projeto de destruição do maior líder popular da história do País, sob os mais variados pretextos. Para uns, Lula era “populista”, quando, na verdade, era apenas popular. Para outros, era “bolivariano”, quando tão-somente enxergava valor, para as próprias empresas brasileiras, nos processos de integração sul-americana. Para outros, era antiamericano, quando era nacionalista.

Aos movimentos orquestrados pelas forças políticas derrotadas nas últimas quatro eleições presidenciais, se somou um ingrediente destrutivo: o preconceito de parte da elite brasileira, que, complexada, não se reconhece em seu próprio povo. Um dos primeiros sintomas desse mal-estar foi a clássica coluna de Danuza Leão, que afirmou que não tinha mais graça ir a Paris, porque era possível dar de cara com o porteiro do seu prédio. A igualdade começava a incomodar.

Quando o porteiro viajava, no entanto, as companhias aéreas vendiam mais bilhetes. Se os porteiros financiavam carros, apartamentos e iam às compras, expandia-se o mercado da própria elite empresarial brasileira. O pobre, como dizia Lula, não era mais problema. Era a solução, desde que fosse incorporado ao mercado de consumo. E assim mais de 30 milhões de brasileiros saíram da miséria.

Nos últimos dois anos, desde que o Brasil foi paralisado por uma guerra político-judicial que não se esgotou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, e que tem agora como segundo objetivo o impedimento preventivo de Lula, só se viu destruição no Brasil. As empresas de engenharia, que disputavam mercados globais, foram arruinadas. Distribuidoras de energia estão sendo vendidas para grupos chineses, sob aplauso das autoridades. E os donos do maior grupo exportador brasileiro, a JBS, tiveram que depositar R$ 1,5 bilhão em juízo, simplesmente para terem o direito de entrar na própria empresa.

Tempos estranhos, em que se alardeia a “volta da confiança” empresarial, num país onde as vendas desabam, a arrecadação vai ao fundo do poço e nada menos que 14 entes da federação anunciam estar prestes a decretar estado de “calamidade pública”.

Talvez nunca se saiba se esse processo foi orquestrado de fora para dentro ou de dentro para fora. Mas o Brasil poderá entrar para a história como o primeiro país do mundo que aceitou passivamente a sua própria autodestruição, num processo autofágico e irracional.

Se todos perdem, sejam eles ricos, pobres ou remediados, a quem interessa essa situação? Aos grupos internacionais, que poderão comprar o Brasil e suas reservas de petróleo (entre as dez maiores do mundo) a preço de banana, certamente. Aos Estados Unidos, que se livram de uma potência emergente no continente, também.

Aos grupos de comunicação que apoiaram o golpe? Em parte. Basta notar que a Folha acaba de fechar sua sucursal do Rio de Janeiro, encerrar sua cobertura de esportes e vender por R$ 20 milhões metade do Valor Econômico para a Globo – um projeto onde foram investidos mais de R$ 300 milhões. E mesmo à Globo, por maior que seja seu domínio midiático no Brasil, já não convém ser associada a dois golpes de estado em pouco mais de 50 anos e reinar num país onde haverá cada vez menos anunciantes públicos e privados.

O fato é que, para destruir Lula, uma parte da elite empresarial, política e burocrática do País decidiu destruir o próprio Brasil, que talvez não resista como nação depois desse processo. Afinal, como se resolve um impasse onde milhões foram levados a desejar a prisão de Lula e outros tantos milhões querem reconduzi-lo à presidência da República?

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247, além de colunista das revistas Istoé e Nordeste

Venezuela: os filhotes da reação

25 abr

 

Os vínculos entre os jovens dirigentes estudantis venezuelanos e agências de cooperação de direita vão muito mais além da aliança Otpor/Canvas.

 

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Lorent Saleh é um jovem venezuelano de 25 anos, de língua flamejante, que estudou comércio exterior. É uma das cabeças visíveis da coalizão para derrubar o presidente Nicolas Maduro. Ele dirige a Organização Operação Liberdade, que aponta o castro-comunismo cubano como o principal inimigo da Venezuela.

Lorent começou seu trabalho contra a revolução bolivariana em 2007. Desde então, ele não desiste. Promoveu greves de fome e campanhas para denunciar as “mentiras de Chávez”. Embora tenha abandonado as salas de aulas há anos, ainda se apresenta como um líder estudantil. E, ainda que não tenha nenhum emprego conhecido, viaja pela América Latina para tentar isolar o governo de Maduro.

O jovem Saleh tem bons amigos em diversos países. Na Colômbia, por exemplo, é cobiçado e promovido pela Aliança Nacionalista pela Liberdade e Terceira Força, agrupações neonazistas (El Espectador, 21/7/2013).

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Vanessa Eisig é uma simpática jovem ruiva de 22 anos, que usa óculos e se descreve em sua conta no Twitter como uma “guerreira de luz e bígama, casada com minha carreira e com a Venezuela”. Estuda comunicação na Universidade Andrés Bello e confessa que, ao participar dos protestos, sente que está fazendo história. Vanessa é militante da Juventude Ativa Venezuela Unida (JAVU). Exige a deposição do “usurpador” Nicolás Maduro e de todo o seu gabinete. A organização tem como emblema um punho direito de cor brança que, segundo ela, “é símbolo de resistência e de crítica ao socialismo”.

JAVU, que promove a Operação Liberdade, desempenhou um papel relevante nos distúrbios de rua das últimas semanas na Venezuela. Fundada em 2007, a organização se define como uma plataforma juvenil de resistência, que busca derrubar os pilares que sustentam um governo que “menospreza a Constituição, atinge nossos direitos e entrega nossa soberania ao comando dos decrépitos irmãos Castro”.

Em seu comunicado de 22 de fevereiro deste ano, a JAVU denunciou que forças estrangeiras sitiaram militarmente a Venezuela. “Seus mercenários nos atacam de maneira vil e selvagem. Seu objetivo é nos escravizar”. Para conseguir sua liberdade, assinalam, é vital defender a soberania da nação expulsando os comunistas cubanos que estão usurpando o governo e as Forças Armadas.

A JAVU está inspirada e mantém estreita relação com Otpor (Resistência) e com o Centro para a Aplicação de Ações e Estratégias Não-Violentas (Canvas, na sigla em inglês). Otpor foi um movimento estudantil criado na Sérvia para remover do governo o presidente Slobodan Milósevic em 2000, que recebeu financiamento de agências governamentais dos Estados Unidos. Canvas é a face renovada de Otpor.

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O guru desses grupos é Gene Sharp, que reivindica a ação não violenta para derrubar governos. Sharp fundou o Instituto Albert Eisntein, promotor das chamadas revoluções coloridas em países que não estão alinhados aos interesses da OTAN e de Washington.

Documentos divulgados por Wikileaks tornaram público que Canvas – presente na Venezuela desde 2006 – elaborou para a oposução desse país um plabo de ação, no qual propõe que os grupos estudantis e os atores não formais são os mais capacitados a construir uma infraestrutura e explorar sua legitimidade na luta contra o governo de Hugo Chávez.

A relação entre JAVU, Otpor e Canvas é muito estreita. Como confessou Marialvic Olivares, militante de um grupo de extrema direita: as organizações internacionais que estão nos ajudando neste momento sempre estiveram conosco, não somente apoiando os protestos, mas também ajudando na formação. Sempre nos estenderam a mão. Não temos vergonha nem medo de dizê-lo.

Mas os vínculos entre os jovens dirigentes estudantis venezuelanos e os think tanks e agências de cooperação de direita vão muito mais além da aliança com Otpor/Canvas. Diversas fundações estadunidenses financiam abertamente o movimento dissidente. Também contam com o apoio do Partido Popular, da Espanha, e da organização de juventude de Silvio Berlusconi, da Itália.

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É o caso do jovem advogado Yon Goicoechea, estrela rutilante dos protestos de 2007, e que agora estuda na Universidade Columbia, depois de se filiar ao partido de Henrique Capriles e de abandoná-lo quando não lhe deram o cargo que queria. Em 2008, foi generosamente recompensado por seu compromisso de luta contra Chávez. O Instituto Cató deu a ele o prêmio Milton Friedman para a Liberdade, no valor de meio milhão de dólares.
Outra força que desempenha um papel relevante na tentativa de derrubar Maduro é o Movimento Social Universitário 13 de Março, organização estudantil que atua na Universidade dos Andes.

Seu dirigente mais conhecido é Nixon Moreno, ex-estudante de Ciências Políticas, acusado de violentar a policial Sofia Aguilar, e que hoje está foragido e exilado no Panamá.

Estes jovens sabem o que fazem: promover a desestabilização política. Recebem financiamento internacional. Militam nas fileiras da extrema-direita e do anticomunismo. São xenófobos. Estão vinculados com organizações neonazistas e conservadoras em vários países. E marcham lado a lado com políticos da direita radical como Leopoldo López, María Corina Marchado e Antonio Ledezma.

Apesar de contar com todos esses apoios, Lorent Saleh, da Operação Liberdade, se lamenta: “Estamos tremendamente sós”. Em parte tem razão. Entre os jovens latinoamericanos não despertam simpatia nem solidariedade. Pelo contrário, suscitam desconfiança e repúdio. É por que sua plumagem está à vista. Sua causa não tem nada a ver com o ideário do movimento estudantil popular mexicano de 1968, por exemplo. Não por acaso, receberam o repúdio público dos estudantes chilenos. Para eles, os filhotes da reação na Venezuela são inaceitáveis.

Tradução:Louise Antonia León

Revoluções coloridas: Os golpes do século 21

25 abr

Pora!, o grupo de jovens que turbinou a revolução colorida na Ucrânia

REVOLUÇÃO À AMERICANA

publicado originalmente em 18.06.12

Por Natalia Viana, na Pública

Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram como age uma organização que treina oposicionistas pelo mundo afora – do Egito à Venezuela

No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto lê-se: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”.

O texto não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana; escrito em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados em outro lado do mundo – na Sérvia.

O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, produzido pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo WikiLeaks.

O último vazamento do WikiLeaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas (Centre for Applied Nonviolent Action and Strategies)(sigla em inglês para “Centro para Conflito e Estratégias Não Violentas”)

violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da bem-sucedida revolta que derrubou o ditador Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos criativos, marchas e atos que acabaram desestabilizando o regime.

Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005. Em seu programa de TV, Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse.

Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado.

O começo, na Sérvia

“Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os Estados Unidos deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos. Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública.

“Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos, outros países como a Espanha não têm e nos apoiavam através do ministério do exterior”.  Entre as ONGs citadas por Marovic estão o National Endowment for Democracy (NED), uma organização financiada pelo congresso americano, a Freedom  House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento americana que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes.

Foi o IRI( International Republican Institute), por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana durante os anos de 2002 e 2003.

O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso dos Estados Unidos, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide.

Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o New York Times.

Na Bolívia, segundo documentos do governo americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um  “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, diz que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil.

Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo WikiLeaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.

Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House “não estão promovendo a democracia”.

“Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os Estados Unidos não gostam”.

Fase dois: da Bolívia ao Egito 

Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos americanos – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui muitos deles: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbabue, Bielorrussia, Coreia do Norte, Siria e Irã.

Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000.

O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi.

Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic.

Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a irmadade muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”.

Documentos da Stratfor

Os documentos vazados pelo WikiLeaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo americano.

A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país.

No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele.

“A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescente sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política.

“Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010.

A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla.

“Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem usa lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”.

Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os Estados Unidos não gostam)”. O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”.

Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Stratfor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão idológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos.

“Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.

Venezuela

Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana.

“Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010.

Para as eleições de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação.

O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).

A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão Mesa de Unidade Democrática, além do prefeito do distrito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza.

Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados.

O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”. Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”.

Em outro email Popovic explica:“Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico. Nós apenas fornecemos as ferramentas”.

Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”.

Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são:

— Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudança”

— Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?”

— Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”.

— Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito! Programas de bem-estar social”.

— Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”.

— Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro. Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”.

— Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”.

— “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?”

No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela.

“Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles! Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou.

“E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”.

Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países. O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbabue, Bielorrusia, Irã…”

O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic – concorda com ele: “É impossível  exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”.

Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos Estados Unidos, depois da revolução na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu.

“Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o New York Times publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos Estados Unidos pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrusia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”.

O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país. Para ele, não é o dinheiro do governo americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença.

“A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.

Para ele, muitas vezes o patrocínio americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos. “Sempre tem pessoas grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”.

PS do Viomundo: Desde 2007, quando estávamos em Washington, este site denuncia que a “promoção da democracia” é picaretagem financiada por dinheiro público ou privado dos Estados Unidos. Quem inventou o National Endowment for Democracy, o NED, foi o governo de Ronald Reagan, depois do escândalo do Irã-contras, em que os Estados Unidos venderam armas clandestinamente ao Irã e usaram o dinheiro para organizar a contrarrevolução na Nicarágua. A turma do Reagan foi esperta: descobriu que se todos estivessem envolvidos no esforço de promover os interesses do país no exterior, com dinheiro público, seria fácil aprovar financiamento no Congresso. Por isso o NED inclui institutos ligados ao Partido Democrata, ao Partido Republicano, a centrais sindicais e a associações empresariais.

PS do OlhoNoTexto: O guru desses grupos é Gene Sharp, que reivindica a ação não violenta para derrubar governos. Sharp fundou o Instituto Albert Eisntein, promotor das chamadas revoluções coloridas em países que não estão alinhados aos interesses da OTAN e de Washington.

 

Porque o Sen. Aloysio Nunes foi a Washington um dia depois da votação do impeachment?

19 abr

Porque o Sen. Aloysio Nunes foi a Washington um dia depois da votação do impeachment_

A CÂMARA DOS DEPUTADOS do Brasil votou a favor da admissibilidade do impeachment da presidente do país, Dilma Rousseff, encaminhando o processo de afastamento para o Senado. Em um ato simbólico, o membro da casa que deu o voto favorável nº 342, mínimo para admitir o processo, foi o deputado Bruno Araújo, mencionado em um documento que demonstra que ele teria recebido fundos ilegais de uma das principais empreiteiras envolvidas no atual escândalo de corrupção do país. Além disso, Araújo pertence ao partido de centro-direita PSDB, cujos candidatos perderam quatro eleições seguidas contra o PT, de esquerda moderada, partido de Rousseff, sendo a última delas há apenas 18 meses atrás, quando 54 milhões de brasileiros votaram pela reeleição de Dilma como presidente.

Esses dois fatos sobre Araújo sublinham a natureza surreal e sem precedentes do processo que ocorreu ontem em Brasília, capital do quinto maior país do mundo. Políticos e partidos que passaram duas décadas tentando — e fracassando — derrotar o PT em eleições democráticas encaminharam triunfalmente a derrubada efetiva da votação de 2014, removendo Dilma de formas que são, como o relatório do The New York Times de hoje deixa claro, na melhor das hipóteses, extremamente duvidosas. Até mesmo a revista The Economist, que há tempos tem desprezado o PT e seus programas de combate à pobreza e recomendou a renúncia de Dilma, argumentou que “na falta da prova de um crime, o impeachment é injustificado” e “parece apenas um pretexto para expulsar um presidente impopular. ”

Os processos de domingo, conduzidos em nome do combate à corrupção, foram presididos por um dos políticos mais descaradamente corruptos do mundo democrático, o presidente da Câmara Eduardo Cunha (em cima, ao centro) que teve milhões de dólares sem origem legal recentemente descobertos em contas secretas na Suíça, e que mentiu sob juramento ao negar, para os investigadores no Congresso, que tinha contas no estrangeiro. O The Globe and Mail noticiou ontem dos 594 membros da Câmara, “318 estão sob investigação ou acusados” enquanto o alvo deles, a presidente Dilma, “não tem nenhuma alegação de improbidade financeira”.

Um por um, legisladores manchados pela corrupção foram ao microfone para responder a Cunha, votando “sim” pelo impeachment enquanto afirmavam estarem horrorizados com a corrupção. Em suas declarações de voto, citaram uma variedade de motivos bizarros, desde “os fundamentos do cristianismo” e “não sermos vermelhos como a Venezuela e Coreia do Norte” até “a nação evangélica” e “a paz de Jerusalém”. Jonathan Watts, correspondente do The Guardian, apanhou alguns pontos da farsa:

Sim, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. “Pelo amor de Deus, sim!” declarou Silas Câmara, que está sob investigação por forjar documentos e por desvio de dinheiro público.

É muito provável que o Senado vá concordar com as acusações, o que resultará na suspensão de 180 dias de Dilma como presidente e a instalação do governo pró-negócios do vice-presidente, Michel Temer, do PMDB. O vice-presidente está, como o The New York Times informa, “sob alegações de estar envolvido em um esquema de compra ilegal de etanol”. Temer recentemente revelou que um dos principais candidatos para liderar seu time econômico seria o presidente do Goldman Sachs no Brasil, Paulo Leme.

Se, depois do julgamento, dois terços do Senado votarem pela condenação, Dilma será removida do governo permanentemente. Muitos suspeitam que o principal motivo para o impeachment de Dilma é promover entre o público uma sensação de que a corrupção teria sido combatida, tudo projetado para aproveitar o controle recém adquirido de Temer e impedir maiores investigações sobre as dezenas de políticos realmente corruptos que integram os principais partidos.

 

OS ESTADOS UNIDOS têm permanecido notavelmente silenciosos sobre esse tumulto no segundo maior país do hemisfério, e sua postura mal foi debatida na grande imprensa. Não é difícil ver o porquê. Os EUA passaram anos negando veementemente qualquer papel no golpe militar de 1964 que removeu o governo de esquerda então eleito, um golpe que resultou em 20 anos de uma ditadura brutal de direita pró-EUA. Porém, documentos secretos e registros surgiram, comprovando que os EUA auxiliaram ativamente no planejamento do golpe, e o relatório da Comissão da Verdade de 2014 no país trouxe informações de que os EUA e o Reino Unido apoiaram agressivamente a ditadura e até mesmo “treinaram interrogadores em técnicas de tortura.”

epa04149938 Legislator Jair Bolsonaro, who supports the dictatorship, participates in a session held at Chamber of Legislators in Brasilia, Brazil, 01 April 2014. Brazilian Chamber of Legislators abruptly stoped the session in rejection of the 50 year anniversary of the military coup at the moment that Bolsonaro wanted to start his speech. Members of Parliament jeered at him and turned their backs in way of protest.  EPA/FERNANDO BIZERRA JR. (Newscom TagID: epalive129917.jpg) [Photo via Newscom]

Dep. Jair Bolsonaro

Photo: Fernando Bizerra/EPA/Newscom

O golpe e a ditadura militar apoiadas pelos EUA ainda pairam sobre a controvérsia atual. A presidente Rousseff e seus apoiadores chamam explicitamente de golpe a tentativa de removê-la. Um deputado pró-impeachment de grande projeção e provável candidato à presidência, o direitista Jair Bolsonaro (que teve seu perfil traçado por The Intercept no ano passado), elogiou ontem explicitamente a ditadura militar e homenageou o Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe de tortura da ditadura (notavelmente responsável pela tortura de Dilma). Filho de Bolsonaro, Eduardo, também na casa, afirmou que estavadedicando seu voto pelo impeachment “aos militares de ’64”: aqueles que executaram o golpe e impuseram o poder militar.

A invocação incessante de Deus e da família pelos que propuseram o impeachment, ontem, lembrava o lema do golpe de 1964: “Marcha da Família com Deus pela Liberdade.” Assim como os veículos de comunicação controlados por oligarquias apoiaram o golpe de 1964, como uma medida necessária contra a corrupção da esquerda, eles estiveram unificados no apoio e na incitação do atual movimento de impeachment contra o PT, seguindo a mesma lógica.

Por anos, o relacionamento de Dilma com os EUA foi instável, e significativamente afetado pelas declarações de denúncia da presidente à espionagem da NSA, que atingiu a indústria brasileira, a população e a presidente pessoalmente, assim como as estreitas relações comerciais do Brasil com a China. Seu antecessor, Lula da Silva, também deixou de lado muitos oficiais norte-americanos quando, entre outras ações, juntou-se à Turquia para negociar um acordo independente com o Irã sobre seu programa nuclear, enquanto Washington tentava reunir pressão internacional contra Teerã. Autoridades em Washington têm deixado cada vez mais claro que não veem mais o Brasil como seguro para o capital.

Os EUA certamente têm um longo — e recente — histórico de criar instabilidade e golpes contra os governos de esquerda Latino-Americanos democraticamente eleitos que o país desaprova. Além do golpe de 1964 no Brasil, os EUA foram no mínimo coniventes com a tentativa de depor o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em 2002; tiveram papel central nadestituição do presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide em 2004; e a então Secretária de Estado, Hillary Clinton, prestou apoio vital para legitimar o golpe 2009 em Honduras, apenas para citar alguns exemplos.

Muitos na esquerda brasileira acreditam que os EUA estão planejando ativamente a instabilidade atual no país com o propósito de se livrar de um partido de esquerda que se apoiou fortemente no comércio com a China, e colocar no lugar dele um governo mais favorável aos EUA que nunca poderia ganhar uma eleição por conta própria.

 

EMBORA  NÃO TENHA surgido nenhuma evidência que comprove essa teoria, uma viagem aos EUA, pouco divulgada, de um dos principais líderes da oposição brasileira deve provavelmente alimentar essas preocupações. Hoje — o dia seguinte à votação do impeachment — o Sen. Aloysio Nunes do PSDB estará em Washington para participar de três dias de reuniões com várias autoridades norteamericanas, além de lobistas e pessoas influentes próximas a Clinton e outras lideranças políticas.

O Senador Nunes vai se reunir com o presidente e um membro do Comitê de Relações Internacionais do Senado, Bob Corker (republicano, do estado do Tennessee) e Ben Cardin (democrata, do estado de Maryland), e com o Subsecretário de Estado e ex-Embaixador no Brasil, Thomas Shannon, além de comparecer a um almoço promovido pela empresa lobista de Washington, Albright Stonebridge Group, comandada pela ex-Secretária de Estado de Clinton, Madeleine Albright e pelo ex-Secretário de Comércio de Bush e ex-diretor-executivo da empresa Kellogg, Carlos Gutierrez.

A Embaixada Brasileira em Washington e o gabinete do Sen. Nunes disseram ao The Intercept que não tinham maiores informações a respeito do almoço de terça-feira. Por email, o Albright Stonebridge Group afirmou que o evento não tem importância midiática, que é voltado “à comunidade política e de negócios de Washington”, e que não revelariam uma lista de presentes ou assuntos discutidos.

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O Senador Aloysio Nunes (esquerda) com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (direita) e o Senador José Serra (Foto: Marcos Alves/Agencia O Globo, via AP Images)

Nunes é uma figura da oposição extremamente importante — e reveladora — para viajar aos EUA para esses encontros de alto escalão. Ele concorreu à vice-presidência em 2014 na chapa do PSDB que perdeu para Dilma e agora passa a ser, claramente, uma das figuras-chave de oposição que lideram a luta doimpeachment contra Dilma no Senado.

Como presidente da Comissão de Relações e Defesa Nacional do Senado, Nunes defendeu repetidas vezes que o Brasil se aproxime de uma aliança com os EUA e o Reino Unido. E — quase não é necessário dizer — Nunes foi fortemente apontado em denúncias de corrupção; em setembro, um juiz ordenou uma investigação criminal após um informante, um executivo de uma empresa de construção, declarar a investigadores ter oferecido R$ 500.000 para financiar sua campanha — R$ 300.000 enviados legalmente e mais R$ 200.000 em propinas ilícitas de caixa dois — para ganhar contratos com a Petrobras. E essa não é a primeira acusação do tipo contra ele.

A viagem de Nunes a Washington foi divulgada como ordem do próprio Temer, que está agindo como se já governasse o Brasil. Temer está furioso com o que ele considera uma mudança radical e altamente desfavorável na narrativa internacional, que tem retratado o impeachment como uma tentativa ilegal e anti-democrática da oposição, liderada por ele, para ganhar o poder de forma ilegítima.

O pretenso presidente enviou Nunes para Washington, segundo a Folha, para lançar uma “contraofensiva de relações públicas” e combater o aumento do sentimento anti-impeachment ao redor do mundo, o qual Temer afirma estar “desmoraliz[ando] as instituições brasileiras”. Demonstrando preocupação sobre a crescente percepção da tentativa da oposição brasileira de remover Dilma, Nunes disse, em Washington, “vamos explicar que o Brasil não é uma república de bananas”. Um representante de Temer afirmou que essa percepção “contamina a imagem do Brasil no exterior”.

“É uma viagem de relações públicas”, afirma Maurício Santoro, professor de ciências políticas da UFRJ, em entrevista ao The Intercept. “O desafio mais importante que Aloysio enfrenta não é o governo americano, mas a opinião pública dos EUA. É aí que a oposição está perdendo a batalha”.

Não há dúvida de que a opinião internacional se voltou contra o movimento dos partidos de oposição favoráveis ao impeachment no Brasil. Onde, apenas um mês atrás, os veículos de comunicação da mídia internacional descreviam os protestos contra o governo nas ruas de forma gloriosa, os mesmos veículos agora destacam diariamente o fato de que os motivos legais para o impeachment são, no melhor dos casos, duvidosos, e que os líderes do impeachment estão bem mais envolvidos com a corrupção do que Dilma.

Temer, em particular, estava abertamente preocupado e furioso com adenúncia do impeachment pela Organização de Estados Americanos, apoiada pelo Estados Unidos, cujo secretário-geral, Luis Almagro, disse que estava “preocupado com [a] credibilidade de alguns daqueles que julgarão e decidirão o processo” contra Dilma. “Não há nenhum fundamento para avançar em um processo de impeachment [contra Dilma], definitivamente não”.

O chefe da União das Nações Sul-Americanas, Ernesto Samper, da mesma forma, disse que o impeachment é “um motivo de séria preocupação para a segurança jurídica do Brasil e da região”.

A viagem para Washington dessa figura principal da oposição, envolvida em corrupção, um dia após a Câmara ter votado pelo impeachment de Dilma, levantará, no mínimo, dúvidas sobre a postura dos Estados Unidos em relação à remoção da presidente. Certamente, irá alimentar preocupações na esquerda brasileira sobre o papel dos Estados Unidos na instabilidade em seu país. E isso revela muito sobre as dinâmicas não debatidas que comandam o impeachment, incluindo o desejo de aproximar o Brasil dos EUA e torná-lo mais flexível diante dos interesses das empresas internacionais e de medidas de austeridade, em detrimento da agenda política que eleitores brasileiros abraçaram durante quatro eleições seguidas.

 

ATUALIZAÇÃO: Antes desta publicação, o gabinete do Sen. Nunes informou ao The Intercept que não tinha mais informações sobre a viagem dele à Washington, além do que estava escrito no comunicado de imprensa, que data de 15 de abril. Subsequente à publicação, o gabinete do Senador nos indicou informação publicada no Painel do Leitor (Folha de S. Paulo, 17.04.2016) onde Nunes afirma — ao contrário da reportagem do jornal — que a ligação do vice-presidente Temer não foi o motivo para sua viagem a Washington.

Traduzido por: Beatriz Felix, Patricia Machado e Erick Dau

Foto em cima: deputados brasileiros celebram depois de atingir os votos suficientes para autorizar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, no Congresso em Brasília, 17 de abril de 2016.

Obama e a perseguição ao jornalismo

9 jul

EUA-liberdade de imprensa

A nota produzida na terça-feira 24 não deixa dúvida. O governo Obama repudiou duramente a decisão da Justiça egípcia de condenar três jornalistas da rede de tevê Al-Jazira, Peter Greste, Mohamed Fahmy e Baher Mohamed, respectivamente a sete, outros sete, e dez anos de detenção: “Essa é uma perseguição, que ataca os mais básicos critérios de liberdade de imprensa. Como afirmamos repetidas vezes, a prática da democracia não se limita às eleições. Ela só é exercida por meio de instituições de fato democráticas, incluindo a imprensa livre e dinâmica, fundamental para fiscalizar e cobrir os atos do governo”.

O texto, que pede o perdão imediato aos dois repórteres e ao produtor do canal, não menciona em nenhum momento a justificativa central do Cairo para a caça às bruxas aos jornalistas, a ameaça à segurança nacional. Mesma justificativa usada pelo atual governo dos EUA para tentar censurar e dificultar o trabalho de repórteres de modo inédito no país.

“Os ataques à liberdade de imprensa são a mais vergonhosa inversão das promessas de Obama, e elas foram muitas”, escreveu o chefe da sucursal dos EUA do jornal britânico Independent. Segundo David Usborne, grandes derrotas do presidente, entre elas a incapacidade de fechar a Prisão de Guantánamo, a perda de oportunidade de ajustar o orçamento público e o fracasso na reforma do sistema de imigração, até podem ser creditadas à oposição radical de direita. Isto não é, no entanto, o que se vê no cerco ao jornalismo.

Em relatório divulgado no início do ano, a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) derrubou os EUA para o 46º lugar na lista de 180 países classificados de acordo com o grau de liberdade de imprensa, justamente pelo uso corrente da “ameaça à segurança nacional” como justificativa para a perseguição de profissionais. O Brasil ocupa o nada honroso 111º posto. Mas, na lista da RSF, a maior queda entre os 80 primeiros países foi a dos EUA.

No início do mês, a Suprema Corte recusou-se a intervir na bizantina disputa entre Washington e James Risen, repórter doNew York Times. O jornalista pode parar na cadeia por se negar a testemunhar contra o ex-funcionário da CIA Jeffrey Sterling, acusado de violar o Ato de Espionagem. Risen publicou, em 2006, State of War, no qual detalha o programa de escuta telefônica iniciado durante a administração Bush. O livro rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer, o mais prestigiado do jornalismo dos EUA. Anteriormente, a Casa Branca havia negociado com a sucursal de Washington a não publicação de trechos de reportagens de Risen relacionados à Operação Merlin, de sabotagem do esforço nuclear iraniano.

Risen é um dos autores da reportagem publicada no jornal nova-iorquino no dia 31 de maio, a partir de dados fornecidos pelo ex-analista da agência Edward Snowden, o mais notório divulgador de segredos de Estado da era Obama. O texto revela a obtenção pela Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) de milhares de imagens em redes sociais para incrementar seus programas de reconhecimento facial. A reportagem, uma vez mais, não teria agradado à Casa Branca, acusada publicamente pelo jornalista de ser “a maior inimiga da liberdade de imprensa nos EUA nesta geração”. O relato foi publicado exatos dois dias depois de a Casa dos Representantes aprovar uma emenda para impedir o Departamento de Justiça a forçar jornalistas a revelar fontes em processos movidos em nome do governo federal, espelho de legislação idêntica em vigor em 49 unidades da federação.

Vozes do jornalismo defendem uma “lei-escudo”, que barre qualquer perseguição a profissionais no país, cuja democracia foi testada em episódios icônicos como o Watergate e os famosos Pentagon Papers, durante o governo Nixon. A administração diz aprovar a medida e, de acordo com Usborne, o secretário de Justiça, Eric Holder teria garantido, em recente reunião com editores dos principais jornais, que, “enquanto estiver no cargo, Risen não passará um dia na cadeia”.

“Mas há vários outros casos que revelam a falácia da promessa de transparência e responsabilidade cidadã de Obama. Ele iniciou oito processos contra cidadãos acusados de revelar documentos comprometedores à segurança dos EUA, quase o triplo das administrações Bush II e Clinton combinadas. O instinto desta Casa Branca é, desde o início, o de intimidar aqueles que cobrem o governo”, denuncia o jornalista.

No ano passado, o Departamento de Justiça pediu o registro das ligações telefônicas de repórteres da agência Associated Press, por causa de uma ação da CIA no Iêmen. Já o repórter da ABC News Max Levine denunciou a pressão sofrida em 2011, quando trabalhava na Fox e foi acusado de crime de conspiração por se recusar a revelar as fontes de sua reportagem sobre jovens americanos de origem somali recrutados por um grupo identificado como extremista islâmico.

A ombudsman do New York Times foi irônica ao lembrar de uma declaração assinada por Obama ainda encontrada no site da Casa Branca (“Minha administração está comprometida em criar níveis jamais antes vistos de transparência e participação popular no governo federal”). “Exatamente o oposto, o que se vê é um aumento sem precedentes do ataque à imprensa”, escreveu Margaret Suvillan. Aliado do governo, o deputado democrata Alan Grayson, autor da emenda aprovada no fim de maio, resumiu, para constrangimento da Casa Branca, a relação entre governo e mídia sob Obama: “É absolutamente impróprio saudarmos a liberdade de imprensa quando ameaçamos jogar jornalistas na cadeia por não revelarem suas fontes”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título “A primeira emenda já era?”

 

Eduardo Graça-RBA

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte II

20 set

Todas as guerras dos Estados Unidos – Parte II

…e vamos com a segunda parte do artigo acerca das guerras dos Estados Unidos.
Em análise, as intervenções para derrubar os regimes estrangeiros.

As acções encobertas: 1964 – 1986
Rio de Janeiro, 1964

1964: Brasil

O governo democraticamente eleito liderado pelo presidente João Goulart foi derrubado por um golpe apoiado pela CIA, em Março de 1964.

Tendo previsto uma guerra civil, o presidente dos EUA Johnson autorizou que material logístico fosse enviado para apoiar os rebelde, como parte da Operação Brother Sam (“Tio Sam”): entre outros, munições, carburantes foram enviados do porto de Aruba (Pequenas Antilhas) enquanto outras 110 toneladas de munições e gás CS ficaram prontas em New Jersey para o envio até o aeroporto de Campina.

Poucos dias após o golpe, um oficial da CIA enviou uma comunicação para Washington:
A mudança do governo irá criar uma grande mudança benéfica para os investimentos estrangeiros.

Os documentos da CIA acerca do envolvimento no golpe do 1964 permanecem secretos.

1966: Gana

Em Fevereiro de 1966, Kwame Nkrumah, o Presidente do Gana, foi derrubado com um golpe militar apoiado pela CIA, enquanto se encontrava em visita de Estado no Vietnam do Norte e na China.

1968: Iraque

Em 1966, Abdul Rahman Arif assumiu a presidência do País e o ano seguinte o governo estava perto de dar novas concessões para a exploração de petróleo por parte de França e URSS. Robert Anderson, ex-Secretário do Tesouro sob o presidente Dwight D. Eisenhower, encontrou-se secretamente com o Partido Ba’ath e chegou a um acordo segundo a qual tanto as concessões petrolíferas quanto o enxofre extraído no norte do País iriam para empresas dos Estados Unidos com o Ba’ath no poder novamente. Em 1968, a CIA apoiou o golpe de Ahmed Hassan al-Bakr, do Partido Baath, que trouxe Saddam Hussein no poder (após uma série de contra-golpes).

Em Junho de 1972, o governo do Iraque nacionalizou os recursos petrolíferos de British Petroleum, Royal Dutch Shell, Compagnie Française des Petroles, Mobil Oil e Standard Oil de New Jersey.

1973: Chile

Salvador Allende

A CIA esteve envolvida em várias missões destinadas a eliminar o Presidente Salvados Allende: tentou
subornar o Congresso chileno para impedir a nomeação dele, tentou fazê-lo exilar, trabalhou para influenciar a opinião pública contra ele, tentou frustrar suas aspirações políticas durante a administração de Lyndon B. Johnson e financiou protestos planeados para levar o País à uma paralisação.
Convencidos de que uma revolta militar convencional não era ainda possível no Chile, a CIA planeou um golpe de Estado constitucional: fazer que o Congresso chileno reconhecesse Jorge Alessandri como vencedor das últimas eleições.

A situação precipitou em 1973, quando o General Pinochet avançou com um golpe de Estado e Allende morreu (ou suicida ou assassinado, ainda não há certezas).

1976: Argentina

O governo democraticamente eleito da Argentina, liderado por Isabel Martínez de Perón foi derrubado por um golpe militar em Março de 1976. Oito dias antes do golpe, o almirante Emilio Eduardo Massera, chefe da Marinha da Argentina e um dos golpistas, tinha pedido ajuda ao embaixador dos EUA Robert Hill: este afirmou que o governo dos Estados Unidos não poderia interferir directamente mas forneceu ao Massera uma lista de empresas que trabalhavam pela Embaixada. Washington incentivou os golpistas e já poucos dias depois do golpe os EUA reconheceram o novo governo.

1978-1989: Afeganistão

Bin Laden e Z. Brzezinski

Uma das mais longas e caras operações secretas da CIA foi o fornecimento de biliões de Dólares em
armas para os militantes afegãos mujahideens que lutavam contra o exército da União Soviética. A CIA forneceu assistência aos insurgentes fundamentalistas através dos serviços secretos paquistaneses num programa chamado Operação Ciclone: algo entre 2 e 20 biliões em fundos dos EUA foram canalizados para treinar e equipar as tropas com armas

Com o financiamento americano, foram armados e treinados mais de 100.000 insurgentes. Em 20 de Julho de 1987, a retirada das tropas soviéticas do País foi anunciada em conformidade com as negociações que levaram aos Acordos de Genebra de 1988, enquanto os últimos soviéticos deixaram o solo afegão em 15 de Fevereiro de 1989.

Os alicerces iniciais da Al-Qaeda foram construídos com as relações e o armamento que vieram dos biliões de Dólares de apoio dos EUA para os mujahideens afegãos durante a guerra para expulsar as forças soviéticas do país. O atentado inicial do World Trade Center em 1993, os ataques contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia, o ataque ao USS Cole e os ataques de 11 de setembro de 2001 foram todos supostamente ligados a indivíduos e grupos que foram armados e treinados pelos Estados Unidos.

1980: Turquia

Um dia antes do golpe militar de 12 de Setembro de 1980, cerca de 3.000 soldados norte-americanos começaram a manobra militar Anvil Express em solo turco.

O apoio estadunidense ao golpe foi reconhecido pelo chefe de estação da CIA em Ancara, Paul Henze. Depois do governo ter sido derrubado, Henze telegrafou para Washington, dizendo: “Os nossos rapazes [em Ancara] fizeram isso”. O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou o golpe durante a noite entre 11 e 12 de setembro: os militares haviam telefonado para a embaixada dos Estados Unidos em Ancara para alertá-los do golpe com uma hora de antecedência.

1980-1981: Polónia

Os EUA apoiaram o movimento Solidarność na Polónia, e com a CIA, actuou numa campanha de relações públicas para impedir que “um iminente movimento de grandes forças militares soviéticas na Polónia”.Quando o governo polaco lançou uma ofensiva em 1981, Solidarność não foi alertada. Possíveis explicações para isso variam: alguns acreditam que a CIA foi encontrada desprevenida, enquanto outros sugerem que osdecisores políticos americanos viram uma repressão interna como preferível a uma intervenção soviética.

1980: Angola

A intervenção militar cubana em apoio da ditadura comunista do MPLA em Angola levou a décadas de guerra civil que custou 1 milhão de vidas. A administração Reagan ofereceu ajuda secreta a um grupo de rebeldes anti-comunistas liderados por Jonas Savimbi, chamado UNITA, cuja insurgência forçou o fim à ocupação de Cuba. 

1980-1995 Camboja 

A administração Reagan auxiliou os movimentos de resistência anti-soviéticos no exterior da que encontrava-se sob a ocupação vietnamita após o genocídio cambojano realizado pelos comunistas do Khmer Vermelho. Os vietnamitas tinham instalado uma ditadura comunista liderada por um dissidente do Khmer Vermelho, portanto Reagan autorizou a concessão de ajuda a um movimento de resistência chamado Frente Popular de Libertação Nacional do Khmer (KPNLF), dirigido por Son Sann. Mais tarde, os vietnamitas se retiraram, as tropas americanas (com as forças da ONU) invadiram o País onde se realizaram novas eleições.

1981-1990: Nicarágua

Daniel Ortega

Entre 1980 e 1990, a CIA temtou derrubar o governo sandinista na Nicarágua.

Em 1983, a CIA criou o grupo Unilaterally Controlled Latino Assets ( UCLAs ), cuja tarefa era sabotar portos, refinarias, barcos e pontes, e tentar inculpar os Contras para desencadear uma guerra civi. Em Janeiro de 1984 , as UCLA realizaram a operação para a qual seriam mais conhecidas, o posicionamento de minas explosivas em vários portos da Nicarágua, o que implicou o afundamento de vários barcos e navios e danificou pelo menos cinco embarcações estrangeiras.

O governo sandinista liderada por Daniel Ortega venceu as eleições de 1984 mas a guerrilha continuou até 1990, ano em que os Sandinistas perderam o poder. Tanto os Sandinistas quanto os Contras foram sucessivamente acusados pela Comissão Permanente do Nicarágua pelos Direitos Humanos ​​de matar milhares pessoas, estupro, incêndio e outros crimes de guerra. 

1986: Filipinas 

Os Estados Unidos tinham há muitas décadas pressionado o ditador Ferdinand Marcos, assim como o regime que abusou dos direitos humanos e a esposa Imelda Marcos. O apoio dos EUA estavam preocupados com as bases navais norte-americanas nas ilhas, mas alguns presidentes americanos, como Ronald Reagan, não quiseram intervir (definindo Marcos qual “combatente da liberdade”).
Não obstante o apoio dos EUA, o regime vacilou, Washington, por temer que o antigo aliado se afastasse, desempenhou um papel significativo em pressionar Marcos a renunciar e para transição pacífica até a democracia.

Ipse dixit.

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