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1967: a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”, como ferramenta para atacar quem desmentisse narrativas “oficiais”

27 fev

Teoria da Conspiração

Antes, os Teóricos da Conspiração eram gente como a gente.

A democracia e o capitalismo de livre mercado nasceram sobre a base de teorias de conspiração.

A Magna Carta, a Constituição e a Declaração de Independência e outros documentos ocidentais fundacionais nasceram de teorias conspiracionais. A democracia grega e o capitalismo de livre mercado, idem.

Mas, isso, só naqueles velhos maus tempos. Depois, tudo mudou.

Em 1967, a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”

Nos anos 1960, tudo mudou.

Exatamente em abril de 1967, a CIA redigiu um despacho, no qual cunhou a expressão “teorias da conspiração” (…) e recomendou práticas para desacreditar tais teorias. O despacho/memorando levava um carimbo, “psico”, fórmula abreviada para “operações psicológicas” ou “ação de desinformação”; e outro carimbo, “CS”, sigla da unidade de “Clandestine Services” da CIA.

O despacho da CIA foi redigido em resposta ao requerimento de informações feito a uma corte judicial, nos termos do Freedom of Information Act [“Lei da Liberdade de Informar”], pelo jornal New York Times, em 1976.

CIA-saguão
A CIA, naquele documento diz que:

2. Essa tendência é motivo de preocupação para o governo dos EUA, inclusive para nossa organização.

***
O objetivo desse despacho é oferecer material que contradiga e desacredite os argumentos dos Teóricos da Conspiração, e também inibir a circulação dessas opiniões em outros países. Aqui se oferece informação de fundo, apresentada em seção sigilosa, e vários anexos não sigilosos.

3. Ação. Não recomendamos que a questão [conspirações] seja iniciada onde já não esteja implantada. Onde a discussão já esteja ativada são indispensáveis algumas medidas:
a. Discutir publicamente o problema com contatos amigáveis na elite (especialmente políticos e editores de imprensa), mostrando que [a investigação oficial do evento em discussão] foi investigação tão exaustiva quanto humanamente possível; que as acusações dos críticos não têm qualquer fundamento; e que mais discussões sobre o tema só favorecem a oposição. Deve-se também destacar as partes das conversas sobre alguma conspiração que mais pareçam deliberadamente geradas por propagandistas.

Conclamar aquelas elites para que usem a influência que têm e desencorajem qualquer especulação sem fundamento e irresponsável.

b. Usar todos os recursos de propaganda acessíveis para refutar os ataques vindos dos críticos.Colunas assinadas por especialistas amigáveis e resenhas de livros são especialmente adequadas para esse objetivo. Os anexos desse documento de orientação contêm material útil para ser passado aos agentes.

Nosso discurso deve destacar, sempre que couber, que os críticos (I) já diziam a mesma coisa antes de haver qualquer indício ou prova; que (II) têm interesses políticos; que (III) têm interesses financeiros; que (IV) dizem qualquer coisa, sem qualquer pesquisa ou investigação que o comprove; ou que (V) só dão atenção a teorias que eles mesmos inventem.

***
4. Em contatos privados com a mídia, não dirigidos diretamente a qualquer jornalista, colunista ou editor ou escritor em particular, ou para atacar publicações que ainda não estejam nas ruas, os seguintes argumentos podem ser úteis:

a. Não surgiu nenhuma nova prova, que a Comissão de investigação não tenha considerado.

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b. Regra geral, os críticos sobrevalorizam itens específicos e ignoram outros. Tendem a dar mais ênfase às lembranças de testemunhas individuais (sempre menos confiáveis e mais divergentes – e, portanto, mais vulneráveis a críticas) (…)

***
c. Seria impossível ocultar as grandes conspirações seguidamente sugeridas nos EUA, especialmente porque os informantes poderiam ganhar muito dinheiro se denunciassem as conspirações, etc..

***
d. Os críticos sempre são tomados por alguma espécie de vaidade intelectual:falam de uma teoria e apaixonam-se por ela para sempre; e criticam os investigadores porque nem sempre respondem com prova cabal e decisão absoluta numa direção ou noutra.

***
f. Quanto a acusações de que os relatórios da comissão de investigação seria serviço apressado, sem cuidado: só foi distribuído três meses depois do prazo marcado inicialmente. Mas a Comissão muito se esforçou para apressar a divulgação do relatório; o atraso explica-se pela pressão de especulação irresponsável que já surgia antes até do relatório ser conhecido, em alguns casos vinda dos mesmos críticos que, se recusando a admitir os próprios erros, aparecem agora com novas críticas.

g. Acusações vagas como “mais de dez pessoas morreram misteriosamente” sempre podem ser explicadas por via natural(…).

5. Sempre que possível, reagir contra a especulação forçando a referência ao próprio relatório da Comissão. Leitores estrangeiros de mentalidade aberta sempre podem ser impressionados pelo cuidado, atenção, objetividade e velocidade do trabalho da Comissão de Investigação. Especialistas em resenhar livros para a imprensa, devem ser encorajados a acrescentar, ao que digam sobre [seja o que for], a ideia de que, recorrendo sucessivas vezes ao texto do relatório da comissão de investigação, perceberam que o relatório foi trabalho muito mais bem feito que o trabalho dos que o criticam.

Abaixo se vêem fotos de partes do memorando da CIA.

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CIA-conspiracy
(clique na imagem para aumentar)
(clique na imagem para aumentar)

Resumo das táticas que o despacho/memorando da CIA recomendava, contra os “Teóricos da Conspiração”:

●– Diga sempre que seria impossível que tanta gente mantivesse segredo sobre alguma grande conspiração

●– Consiga que pessoal amigável ataque as ideias de conspiração, e insistam na ideia de repetir sempre o relatório da comissão de investigação

●– Diga sempre que testemunho ocular não é confiável

●– Diga sempre que são notícias velhas [porque] “não surgiu nenhuma nova prova”.

●– Ignore completamente o que se diga sobre conspirações, exceto se a discussão já estiver ativa demais

●– Diga sempre que especular é comportamento irresponsável

●– Acuse os teóricos da conspiração de serem vaidosos de suas próprias ideias e de não serem capazes de superá-las

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem motivação política

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem interesses financeiros na promoção de teorias de conspirações.

Em outras palavras, a unidade de serviços clandestinos da CIA criou argumentos para atacar o que chamou de “Teorias de conspirações” e “declará-las” não confiáveis, nos anos 1960s, como parte de suas operações de guerra psicológica.

Mas teorias da conspiração são de fato… total piração?

[…] Evidentemente não. Por exemplo, o esquema Ponzi de Bernie Madoff foi um crime de conspiração, movido por uma teoria daquela específica conspiração.

Bernard Madoff-ponzi
Esquema Ponzi de Bernard Madoff

Conspirar é crime muito claramente tipificado na lei norte-americana, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de Direito como item do currículo básico. Dizer a um juiz que alguém está envolvido numa “Teoria de Conspiração” é como dizer em juízo que o sujeito matou, roubou, invadiu propriedade alheia, roubou um carro. É conceito legal claro e conhecido.

Madoff não é o único. Diretores da Enron foram também condenados por crime de conspiração, e também do diretor de Adelphia [há muitos e muitos casos de funcionários do estado também condenados pelo mesmo crime (this, this, this, this e this)].

Justin Fox, colunista de finanças da Time Magazine escreve:

Algumas conspirações no mercado financeiro são reais (…) Muitos bons repórteres investigativos são teóricos de conspirações, por falar nisso.

E também são criminosos, pela prática do crime de conspiração – desde que os crimes sejam denunciados e provados e os réus sejam condenados – a Agência de Segurança Nacional e as empresas de tecnologias que ajudem na prática do crime (se algum dia forem condenadas).

Mas “nossos líderes NUNCA fariam tal coisa…”

Embora já haja quem admita que empresários e funcionários de baixo escalão possam envolver-se em conspirações – ainda há muita gente que resiste à ideia de que os mais ricos e os muito poderosos também podem ter praticado o crime de conspirar.
Cass Sunstein
Verdade é que até os mais poderosos conspiram; alguns até confessaram. Por exemplo, o administrador do Gabinete de Informações e Assuntos de Regulação do governo Obama, Cass Sunstein, escreveu:

Cass Sunstein

Claro que algumas teorias conspiracionais, conforme nossa definição, comprovaram-se verdadeiras. O quarto do hotel Watergate usado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata foi realmente invadido e teve instalados equipamentos para escuta clandestina, por funcionários do Partido Republicano a mando da Casa Branca. Nos anos 1950s, a CIA realmente administrou LSD e outros alucinógenos a participantes do Projeto MKULTRA, para investigar possibilidades de “controle da mente”. A Operação Northwoods, muito discutido plano do Departamento de Defesa para simular atos de terrorismo e culpar a Cuba, foi realmente proposto, como conspiração, por funcionários de alto escalão do governo.

Mas “alguém teria dado co’a língua nos dentes”…

Argumento sempre repetido por quem queira desviar a atenção de uma investigação, “diagnosticando” alguma “conspiração” no ar é que “alguém teria dado com a língua nos dentes”, caso houvesse ali realmente alguma conspiração.

Quem explica é o conhecido demolidor de mentiras e whistleblower Daniel Ellsberg:

Ouve-se muito que “não se consegue guardar segredos em Washington” ou que “numa democracia, não importa o quanto o segredo seja sensível, é provável que, dia seguinte, seja publicado no New York Times”. Não há tolice maior, nem truísmo mais falso. Há, sim, histórias ocultadas, meios para enganar e desviar a atenção de jornalistas e leitores, que são parte do processo para encobrir o que é realmente secreto. Claro que eventualmente muitos segredos acabam por ser revelados, que talvez não fossem jamais revelados numa sociedade absolutamente totalitária. Mas a verdade é que a vastíssima maioria dos segredos jamais chegam ao conhecimento da opinião pública norte-americana. É verdade mesmo quando a informação ocultada é bem conhecida de algum inimigo e quando é claramente essencial para a operação do poder de guerra do Congresso e para algum controle democrático sobre a política externa.

A realidade desconhecida do público e de muitos membros eleitos do Congresso e da imprensa é que segredos da mais alta importância para muitos deles podem, sim, permanecer confortavelmente ocultados por autoridades do Executivo durante décadas, mesmo que sejam bem conhedicos por milhares de insiders.

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Daniel Ellsberg
A história prova que Ellsberg tem razão. Por exemplo:

●– 130 mil pessoas, de EUA, Grã-Bretanha e Canadá trabalharam no Projeto Manhattan. O segredo foi mantido durante anos.

●– Documentário da BBC mostra que:

Houve uma tentativa de golpe nos EUA em 1933, organizado por um grupo de empresários norte-americanos de extrema direita (…) O golpe pretendia derrubar o presidente Franklin D Roosevelt, com o auxílio de meio milhão de veteranos de guerra. Os golpistas, entre os quais estavam algumas das mais famosas famílias norte-americanas (proprietários de Heinz, Birds Eye, Goodtea, Maxwell Hse & George Bush [avô], Prescott) acreditavam que o país devesse adotar políticas de Hitler e Mussolini para superar a grande depressão”.

Mais que isso, “os magnatas disseram ao general Butler que o povo norte-americano aceitaria o novo governo, porque aquelas famílias controlavam todos os jornais”. Alguém ouvira falar, antes, dessa conspiração? Com certeza foi conspiração vastíssima. E, se os golpistas controlavam a imprensa-empresa naquele momento, muito mais controlam hoje, com as empresas-imprensas já “consolidadas”.

●– sete de oito bancos gigantes quebraram nos anos 1980, durante a “Crise latino-americana”, e a resposta do governo foi ocultar a insolvência. A ocultação-falcatrua durou várias décadas

●– bancos foram envolvidos em comportamento criminoso sistemático e manipularam todos os mercados.

●– há 50 anos governos encobrem derretimento de núcleo radiativo de usinas nucleares, para proteger a indústria nuclear. Governos sempre operaram para encobrir a gravidade de inúmeros outros eventos com comprometimento do meio ambiente. Durante muitos anos os funcionários do Texas intencionalmente informaram índices diminuídos de radiação na água potável, para evitar ter de notificar violações das normas.

●– A vigilância ilegal do governo dos EUA sobre os cidadãos começou sete meses antes do 11/9 (confirmado here e here). E vejam essa discussão gravada há mais de 30 anos. Mas o público só soube sobre isso muitos anos depois. Na verdade, o New York Times adiou a publicação, de modo que não afetasse o resultado da eleição presidencial de 2004.

●– A decisão de iniciar a guerra do Iraque foi tomada antes do 11/9. De fato, o ex-diretor da CIA George Tenet disse que a Casa Branca queria invadir o Iraque desde muito antes do 11/9, e inseriu “lixo” em suas justificativas para invadir o Iraque. O ex-secretário do Tesouro, Paul O’Neill – membro do Conselho de Segurança Nacional – também diz que Bush planejou a guerra do Iraque antes do 11/9. E altos funcionários britânicos dizem que os EUA discutiram mudança de regime no Iraque um mês antes de Bush ser empossado. Dick Cheney ao que parece até converteu os campos de petróleo iraquianos em prioridade nacional dos EUA antes do 11/9.

E há muito tempo se sabe que um punhado de pessoas foi responsável por deliberadamente ignorar as muitas evidências de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. São fatos que só recentemente foram abertos para conhecimento público. De fato, Tom Brokaw até explicou que “todas as guerras são baseadas em propaganda”.

E esforço organizado para gerar propaganda é uma conspiração – e é crime nos EUA. Tais como:

●− Apoio a terroristas para promover objetivos geopolíticos

●− Apoio a ataques terroristas de “falsa bandeira”

11-9-2001
11/9/2001, o maior “False Flag Attack” de História

(…) A admissão sempre ocorre várias décadas depois dos eventos. O que mostra que, sim, é possível manter conspirações em segredo por muito tempo, sem que alguém “dê coa língua nos dentes”.

(…) Além do mais, os que supõem que conspiradores dariam com a língua nos dentes esquecem que pessoal militar ou de inteligência – e quem tenha quantias gigantescas de dinheiro investido numa “operação” secreta – tende a ser muitíssimo disciplinado. Dificilmente se embebedam num balcão de bar e põem-se a contar “vantagem” do que fazem e de quem conhecem…

Por fim, pessoas que se envolvem em operações clandestinas podem fazê-lo por profunda convicção ideológica. Jamais subestime a convicção de um ideólogo!

Conclusão

A conclusão disso tudo é que há conspirações inventadas, mas há conspirações reais. Umas e outras têm de ser avaliadas pelos fatos que lhes dão forma. (…)

Quem opera longe dos contrapesos e controles democráticos – e sem a força desinfetante da luz do sol da supervisão democrática – tende a pensar mais nos próprios interesses; e os mais fracos são os mais prejudicados. (…) Gente de poder podem não ser más pessoas. Mas podem ser sociopatas, bandidos, doidos perversos.

Na dúvida, se alguém tentar dissuadi-lo de investigar, e acusá-lo de ter sucumbido a alguma “ridícula Teoria da Conspiração” – expressão que a CIA inventou para afastar bons cidadãos de boas investigações – não pare, não veja, não ouça (a CIA) e… investigue mais e mais.
POSTADO POR CASTOR FILHO

O que aconteceu ao avião da Malaysia Airlines

21 jul

 

Dado que Washington, Kiev e a imprensa-empresa press-tituta [orig. presstitute] também estão obrando na propaganda de que Putin “é culpado”, ninguém encontrará na mídia norte-americana qualquer informação aproveitável. Teremos de procurar e de construir nós mesmos nossa própria informação aproveitável. Paul Craig Roberts

 

1ª página do NYTimes de 18/7/2014 já informa que o voo MH17 foi derrubado por míssil (como?)

A máquina de propaganda de Washington está trabalhando em tão alta rotação, que há risco de perdermos os dados e fatos comprovados que já temos.

Um desses fatos é que os federalistas não têm os caros sistemas de mísseis antiaéreos Buk ou não têm pessoal treinado para operá-los.

Outro fato é que os federalistas não têm incentivo ou motivo para, ou interesse em, derrubar avião de passageiros; a Rússia tampouco. Qualquer um sabe ver a diferença em um avião de combate voando baixo e um avião de passageiros a 33 mil pés de altura.

Os ucranianos têm sistemas Buk de mísseis antiaéreos, e uma bateriaBuk estava operacional na região e localizada em ponto do qual poderia ter disparado um míssil contra o avião.

Sistema de mísseis Buk do exército ucraniano

 

Essa explicação faz algum certo sentido e com certeza faz muito mais sentido que a propaganda de Washington. O problema com a explicação do general é que não explica por que o sistema Buk de mísseis antiaéreos foi posto próximo de, ou dentro de, território dos federalistas. Os federalistas não têm força aérea. Parece estranho que a Ucrânia mantivesse um caríssimo sistema de mísseis em área na qual não teria uso militar – e em posição na qual poderia ser capturado pelos federalistas.

Como Washington, Kiev e a imprensa-empresa press-tituta [orig. presstitute] também estão obrando na propaganda de que Putin é culpado, ninguém encontrará na mídia norte-americana qualquer informação aproveitável. Teremos de procurar e de construir nós mesmos nossa própria informação aproveitável.

Um modo de fazer isso é perguntar: por que aquele sistema de mísseis estava onde estava? Por que pôr em risco um caríssimo sistema de mísseis, pondo-o num ambiente conflagrado, no qual não teria nenhuma serventia? Incompetência, sim, é uma das respostas; outra resposta é que o sistema de mísseis foi posto ali, para ser usado, porque seria usado.

Seria usado para quê? Noticiosos e provas circunstanciais têm fornecido duas respostas. Uma delas é que os extremistas ultranacionalistas anti-Rússia e pró-EUA & Europa tinham planos para derrubar o avião presidencial de Putin; e teriam confundido o avião malaio e o avião russo.

Assim como os federalistas e o governo russo não têm incentivo nem motivo para derrubar avião de passageiros, tampouco os tem o governo ucraniano; e, de fato, nem os ensandecidos nacionalistas extremistas ucranianos que formaram milícias para fazer as lutas contra os federalistas que o governo ucraniano não têm interesse em fazer. A menos que haja aí um plano para culpar a Rússia.

Um general russo que conhece o sistema de armas apresentou sua opinião, de que foi erro cometido por militares ucranianos não treinados para usar aquela arma. O general disse que, embora a Ucrânia tenha algumas armas, os ucranianos não foram treinados para usá-las nesses 23 anos desde que a Ucrânia separou-se da Rússia. O general acredita que tenha sido um acidente devido à incompetência.

Como os EUA (e o Wall Street!) “sabiam” que o MH17 havia sido derrubado por míssil no mesmo dia?

A agência Interfax, citando fontes anônimas, aparentemente controladores de tráfego aéreo, noticiou que o avião malaio e o avião de Putin estariam em rotas quase idênticas, com poucos minutos de intervalo entre um e outro. Interfax cita sua fonte:

O que posso dizer é que o avião de Putin e o Boeing malaio cruzaram-se no mesmo ponto no mesmo degrau. Foi perto de Varsóvia, no degrau 330-m, altura de 10.100 metros. O jato presidencial estava nesse ponto às 16h21 hora de Moscou, e o avião malaio, às 15h44 hora de Moscou. Os perfis das aeronaves são semelhantes, as dimensões lineares são muito semelhantes, e as cores, observadas em grande distância, são quase idênticas.

Não encontrei nenhum desmentido oficial russo, mas, segundo noticiários russos, o governo russo informou, em resposta às notícias da agência Interfax, que o avião presidencial de Putin já não voa a antiga rota da Ucrânia desde o início das hostilidades.

Antes de aceitar essa negativa, é preciso ter bem claro que qualquer tentativa pelos ucranianos de assassinar o presidente da Rússia implica guerra – exatamente a guerra que a Rússia quer evitar. Implica também a cumplicidade de Washington na tentativa de assassinato, porque é altamente improvável que os fantoches de Washington em Kiev arriscar-se-iam a cometer ato tão perigoso, se não contassem com o apoio dos EUA.

O governo russo, que é inteligente e racional, com certeza negaria todas as notícias sobre uma tentativa, por Kiev e Washington, de assassinarem o presidente russo. Se não negar, a Rússia fica obrigada a tomar alguma providência – quer dizer: também implica guerra.

A segunda explicação é que os extremistas pró-Europa-EUA que operam por fora do aparelho militar ucraniano oficial tenham concebido um atentado para derrubar um avião de passageiros, para inculpar a Rússia. Se houve um atentado, o mais provável é que tenha sido gerado pela CIA ou por algum braço operativo de Washington; e visaria a forçar a União Europeia a parar de opor-se às sanções de Washington contra a Rússia, além de contribuir para romper valiosos laços econômicos que conectam a Rússia à Europa. Washington está frustrada por suas sanções continuarem a ser unilaterais, sem apoio dos fantoches dos EUA na OTAN, nem de qualquer outro país no planeta, exceto talvez do cachorrinho-de-madame e primeiro-ministro britânico.

David Cameron e Barack Obama

Há muitas provas circunstanciais a favor dessa segunda explicação. Há o vídeo em Youtube apresentado como de uma conversa entre um general russo e federalistas, que falam sobre terem derrubado, por erro, um avião de passageiros. Segundo o noticiário,especialistas que examinaram o vídeo já sabem que foi gravado na véspera, um dia antes de o avião malaio cair.

Outro problema com esse vídeo é que, por mais que se possa crer que os federalistas tivessem confundido um avião de passageiros a 33 mil pés de altitude, com um jato militar de ataque, o general russo jamais os confundiria. A única conclusão é que, ao fazer falar um militar russo (verdadeiro ou falso), para tentar dar credibilidade a um vídeo falso, os falsários erraram e desacreditaram-se, eles mesmos.

A prova circunstancial que o público não especialista pode entender mais facilmente está na sequência de noticiários de televisão produzidos para culpar a Rússia… antes de que se conheça qualquer fato.

Em meu artigo anterior falei de um noticiário da BBC ao qual assisti e que, com certeza, foi integralmente produzido para culpar a Rússia. O programa concluía com um correspondente da BBC, ofegante, dizendo que acabava de assistir ao vídeo em YouTube, e que ali estava a prova do crime e “não resta dúvida alguma” – dizia o jornalista. A prova do crime apareceu para o jornalista da BBC, antes de o governo da Ucrânia e Washington saberem das coisas.

A prova de que Putin fez tudo seria um vídeo filmado antes do ataque ao avião malaio. Todo o noticiário produzido pela BBC e distribuído pela [rede]National Public Radio foi orquestrado para a exclusiva finalidade de “provar”, antes de haver qualquer prova, que a Rússia teria sido responsável.

A 1ª página do Daily News já em 18/7/2014 acusa Putin diretamente

 

Verdade é que toda a imprensa-empresa ocidental falou como uma só voz: foi a Rússia! E todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa.

O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental que, sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma “fonte” quer ser criticada por “antiamericanismo” ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o “especialista” receber “nota vermelha” no boletim.

Como ex-jornalista e colaborador dos mais importantes veículos da imprensa-empresa nos EUA, sei muito bem como funcionam.

Por outro lado, se se descontam os condicionamentos pavlovianos – que gera o “jornalismo” de repetição automática – a única conclusão que resta é que todo o ciclo de notícias sobre o avião malaio está sendo orquestrado para inculpar Putin.

Romesh Ratnesar, vice-editor de Bloomberg Businessweek, oferece prova convincente de que, sim, tudo está sendo orquestrado, com o que publicou dia 17/7/2014.

O título da coluna de Ratnesar é “Derrubada do avião malaio atrai desastre para Putin”. Ratnesar não está dizendo que Putin pode estar sendo vítima de um complô. O que ele diz é que antes de Putin ter derrubado o avião malaio,

Romesh Ratnesar

(…) para a vasta maioria dos norte-americanos o comprometimento da Rússia na Ucrânia parecia só ter importância periférica para os interesses dos EUA. Esse cálculo mudou (…). Talvez demore meses, talvez anos, mas a crueldade de Putin voltará a desabar sobre ele. Quando acontecer, a derrubada do MH 17 será afinal vista como o começo do fim de Putin.

Fui editor do Wall Street Journal e, naquele tempo, quem me aparecesse com coluna de merda equivalente a essa teria sido demitido(a). Só insinuações, sem nenhuma prova que apoie qualquer coisa. E a mentira-distorção, descarada, segundo a qual o que foi golpe de estado dado por Washington contra a Ucrânia seria “o comprometimento da Rússia na Ucrânia”! 

O que estamos testemunhando é a total corrupção do jornalismo ocidental, pela agenda imperial de Washington. Ou os jornalistas alinham-se com as mentiras, ou são atropelados.

Procurem à volta: onde há jornalistas ainda honestos? Quem são? Glenn Greenwald, que enfrenta ataque constante dos próprios colegas jornalistas, os quais, TODOS, são putas, daquelas que fazem qualquer negócio por qualquer dinheiro. E que outro jornalista haveria, cujo nome nos venha à lembrança? Julian Assange, trancado na Embaixada do Equador em Londres, com a vida por um fio pendente de ordens de Washington. E o fantoche britânico não dá a Assange o direito de livre trânsito [até o aeroporto] para que possa assumir o asilo que o Equador lhe garantiu.

A última vez que se viu tal violência no mundo, foi a União Soviética, que exigiu que o governo-fantoche da Hungria mantivesse o cardeal Mindszenty cercado dentro da embaixada dos EUA em Budapeste durante 15 anos, de 1956 até 1971. Mindszenty recebeu asilo político dos EUA, mas a Hungria, obedecendo ordens dos soviéticos, não honrou o direito de asilo – exatamente como faz hoje o palhaço-fantoche britânico obedecendo ordens de Washington, que não honra o direito de asilo que Assange JÁ TEM. (…)

Edward Snowden e Julian Assange

 

A única mácula na diplomacia de Putin é que a diplomacia de Putin depende de a boa-vontade e a verdade prevalecerem. Mas não há boa-vontade nos EUA, eWashington não tem interesse algum em que a verdade prevaleça. Para Washington só interessa que Washington prevaleça.

Putin não está enfrentando “parceiros” razoáveis, mas todo um ministério da propaganda que faz mira contra ele.

Compreendo a estratégia de Putin, na qual se veem a razão e a razoabilidade russas, contra as ameaças de Washington – mas é aposta muito arriscada. A Europa já há muito tempo é apêndice de Washington, e não há líderes europeus no poder que tenham capacidade e visão suficientes para separar a Europa, de Washington. Além do mais, os líderes europeus são sobejamente subornados para servirem a Washington. Um ano depois de deixar o governo, e Tony Blair já recebia salário de US $50 milhões.

Depois dos desastres que os europeus conheceram, é pouco provável que seus líderes pensem em qualquer outra coisa que não seja aposentadoria confortável. Para isso, nada como empregar-se como serviçal de Washington. Como a extorsão bem-sucedida contra a Grécia, obrada por bancos, o comprova, o povo europeu está reduzido à impotência.

Em Global Research lê-se a declaração oficial do Ministério de Defesa da Rússia.

O ataque de propaganda de Washington contra a Rússia é uma dupla tragédia, porque contribuiu para desviar as atenções para longe da mais recente atrocidade que Israel comete contra os palestinos sitiados no Gueto de Gaza. Israel diz que o ataque aéreo e a invasão da Faixa de Gaza seriam simples esforços para localizar e vedar supostos túneis pelos quais palestinos contrabandeariam armas para dentro de Israel. Basta olhar pela janela em Israel, para ver que não há ataques de palestinos contra israelenses, nem há palestinos massacrando uma geração inteira, mais uma, de palestinos.

Seria de esperar que houvesse pelo menos um jornalista em algum ponto da imprensa-empresa norte-americana, que perguntasse se bombardear hospitais e matar crianças dentro das próprias casas está(ria) ajudando a fechar supostos túneis que chegariam a Israel. Mas já é pedir demais para as press-titutas/press-titutos da imprensa-empresa nos EUA.

A queda do MH17 é um álibi da imprensa-empresa para disfarçar o GENOCÍDIO de Israel em Gaza

E do Congresso dos EUA, então, esperem ainda menos! A Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel. A Resolução foi aprovada pelo povo “excepcional e indispensável” do Senado dos EUA, por unanimidade.

Como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, US$ 429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre.

Comparem o apoio que o governo dos EUA garante aos crimes de guerra de Israel, e a massacrante campanha de propaganda contra a Rússia, alimentada de mentiras.

Os EUA estamos de volta aos tempos das MENTIROSAS “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein; das “armas químicas” de Bashar al-Assad; das “armas atômicas iranianas”.

Washington mente tanto, há tanto tempo, que já não sabe fazer outra coisa.

[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista doWall Street Journal, Business WeekeScripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

POSTADO POR CASTOR FILHO 

 

Vladimir Putin entrevistado sobre a situação na Ucrânia

7 mar
VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Boa-tarde, senhores.
 
Sugiro que organizemos as coisas do seguinte modo, como uma conversa, mais do que como entrevista. Peço então que apresentem suas perguntas, vou reunindo e tentarei respondê-las todas. Em seguida, podemos ter conversa mais detalhada sobre pontos específicos que os interessem mais. Podemos começar.
 
PERGUNTA: Sr. Presidente, queria perguntar-lhe (faz tempo que o senhor não conversa conosco, então há muitas perguntas) como o senhor avalia os eventos em? O senhor entende que o Governo e o presidente em exercício, que estão no poder em Kiev, são legítimos? O senhor está disposto a fazer contato com eles, e sob que termos? O senhor entende que seja possível agora voltar aos acordos de 21/2, sobre o qual todos nós falamos tanto?
 
PERGUNTA: Sr. Presidente, a Rússia prometeu ajuda financeira à Crimeia e, ontem, o Ministério das Finanças recebeu instruções. Já se sabe claramente quanto estamos dando, de onde está saindo o dinheiro, sob que condições está sendo entregue e quando? A situação lá é muito difícil.
 
PERGUNTA: Quando, em que termos e para que objetivo pode ser usada força militar na Ucrânia? Em que medida o movimento está sendo feito conforme acordos internacionais assinados pela Rússia? Os exercícios militares que acabam de ser encerrado tem algo a ver com o possível uso da força?
 
PERGUNTA: Queremos saber mais sobre a Crimeia. O Sr. entende que acabaram as provocações, ou que ainda há alguma ameaça contra os cidadãos russos que estão agora na Crimeia e contra os falantes de russo? Qual a dinâmica geral da situação lá – as coisas estão mudando para melhor ou para pior? Ouvem-se os relatos mais diferentes.
 
PERGUNTA: Se o senhor decidir usar a força, o senhor já avaliou os possíveis riscos para o senhor, para o país e para o mundo: sanções econômicas, menos segurança global, possível fim dos vistos de entrada em vários países ou maior isolamento para a Rússia, como estão exigindo políticos ocidentais?
 
PERGUNTA: Ontem, o mercado de ações caiu muito na Rússia, em resposta à votação no Conselho da Federação, e o rublo atingiu o recorde de menor valor de câmbio. O senhor esperava essa reação? Quais, na sua avaliação, são as possíveis consequências para a economia? São necessárias medidas especiais agora, e de que tipo? Por exemplo, o Sr. acha que a decisão do Banco Central de mover-se para uma taxa flutuante de câmbio para o rublo, pode ter sido prematura? Na sua opinião, a decisão deve ser revogada?
 
VLADIMIR PUTIN: Ótimo. Comecemos por essas perguntas. Depois, continuamos. Não se preocupem: tentarei responder o maior número possível de perguntas.
 
Para começar, minha avaliação de o que aconteceu em Kiev e na Ucrânia em geral. Só pode haver uma avaliação: foi tomada anticonstitucional, tomada armada, do poder. Alguém questiona isso? Não, ninguém questiona. Há aqui uma pergunta que nem eu nem meus colegas com os quais discuti muito a situação na Ucrânia nos últimos dias, como vocês sabem – uma pergunta que nenhum de nós pode responder. A pergunta é: por que tudo aquilo foi feito?
 
Queria chamar a atenção de vocês para o fato de que o presidente Yanukovych, através da mediação de Ministros de Relações Exteriores de três países europeus – Polônia, Alemanha e França – e na presença de um de meus representantes (o Comissário Russo para Direitos Humanos, Vladimir Lukin) assinou um acordo com a oposição, dia 21 de fevereiro. Quero destacar que, nos termos desse acordo (e não estou dizendo que seja bom ou ruim, só estabelecendo um fato), o Sr. Yanukovych, na verdade, entregou o poder.
 
Aceitou todas as demandas da oposição: aceitou que se antecipassem as eleições parlamentares, as eleições presidenciais, e o retorno à Constituição de 2004, como a oposição demandava. Deu resposta positiva ao nosso pedido, ao pedido dos países ocidentais e, sobretudo, ao pedido da oposição, para que não usasse a força. Não emitiu uma única ordem ilegal, para atirar naqueles infelizes manifestantes. Além disso, ordenou a retirada de todas as forças policiais da capital, o que elas fizeram. Foi a Carcóvia, para participar de um evento e, no momento em que ele saiu, em vez de esvaziar e liberar os prédios públicos ocupados, eles imediatamente ocuparam a residência do presidente e o prédio do governo. Exatamente o oposto do acordo que acabavam de assinar.
 
Pergunto-me a mim mesmo, qual o objetivo disso tudo? Quero muito entender por que isso foi feito. O presidente de fato já cedera o poder, e creio que, como eu disse a ele, ele não tinha chances de ser reeleito. Quanto a isso, todos concordam, todos com quem falei pelo telefone nos últimos dias. Qual o objetivo de todas aquelas ações ilegais e inconstitucionais? Por que criaram tamanho caos no país? As ruas de Kiev ainda estão cheias de milicianos mascarados e armados. Aí estão uma questão ainda sem resposta. Queriam humilhar alguém e mostrar poder? Aí, só vejo ações absolutamente tresloucadas. O resultado é o exato oposto do que esperavam, porque suas ações desestabilizaram significativamente o leste e o sudeste da Ucrânia.
 
Agora, sobre como isso tudo aconteceu.
 
Na minha opinião, essa situação revolucionária já estava fermentando há muito tempo, desde os primeiros dias da independência da Ucrânia. O cidadão ucraniano comum, a gente comum, sofreu durante o reinado de Nicolau 2º, durante o governo de Kuchma, e Yushchenko e Yanukovych. Nada, ou praticamente nada, jamais mudou para melhor. A corrupção alcançou dimensões das quais nunca nem se ouviu falar na Rússia. Acumulação de riqueza e estratificação social – problema também agudo na Rússia – são muito piores, radicalmente piores na Ucrânia. A coisa lá é além do que possamos imaginar. De modo geral, todas as pessoas queriam mudanças. Mas ninguém apoiará mudança ilegal.
 
 No espaço pós-soviético, onde as estruturas políticas ainda são frágeis e as economias ainda são fracas, é essencial que se usem só meios constitucionais. Nessa situação, ir além do marco constitucional sempre será erro cardinal. Devo dizer que compreendo aquelas pessoas na praça Maidan, embora não apoie o rumo que as coisas tomaram. Entendo que as pessoas em Maidan exigissem mudança radical, não alguma simples remodelagem cosmética, do poder. Por que exigem isso? Porque cresceram vendo um grupo de ladrões trocar de lugar com outro grupo de ladrões. Além do mais, as pessoas da Regiões não participam sequer da formação de seus próprios governos regionais. Houve tempo, na Rússia, quando o presidente nomeava os líderes regionais, mas eles tinham de ser aprovados pelas autoridades regionais. Na Ucrânia, são diretamente noemados. Nós já temos eleições; eles ainda não estão nem perto disso. E, lá, puseram-se a nomear todos os tipos de oligarcas e bilionários para governarem as regiões leste do país. Não é surpresa que as pessoas não aceitassem isso. Não é surpresa que vejam que, como resultado de uma privatização desonesta (e também aqui há muita gente que tem o mesmo pensamento), alguns tenham ficado imensamente ricos e que, agora, estivessem sendo levados ao poder.
 
Por exemplo: Kolomoisky foi nomeado Governador de Dnepropetrovsk. É escroque conhecido. Conseguiu ludibriar até um oligarca russo, Roman Abramovich, há dois ou três anos. “Tungou” Roman Abramovich, como nossos intelectuais gostam de dizer. Os dois assinaram um negócio; Abramovich transferiu vários bilhões de dólares; o sujeito jamais entregou o que vendera e embolsou o dinheiro. Quando eu perguntei a ele [Roman Abramovich]: “Por que você fez aquele negócio?”, ele disse: “Nunca pensei que esse golpe fosse possível”. Não sei, até hoje, se conseguiu reaver seu dinheiro, ou se acabaram por consumar o negócio. Mas aconteceu, realmente, bem assim, há alguns anos. Agora, esse mesmo escroque aparece nomeado Governador de Dnepropetrovsk. Não surpreende que as pessoas estejam insatisfeitas. Estavam insatisfeitas e continuarão insatisfeitas, se os que se autodesignam autoridades legítimas continuam a gir do mesmo modo.
 
O mais importante é que as pessoas têm de ter o direito de decidir o próprio futuro, de suas família, da região onde vivem, e têm de ter participação igual. Aí está algo que quero destacar: não importa em que parte do país alguém viva, ele ou ela tem de ter o direito de participar em condições de igualdade, para determinar o futuro do país.
 
As atuais autoridades são legítimas? O Parlamento tem ainda alguma legitimidade, mas os demais não, não são legítimos. O presidente-em-exercício, esse, definitivamente não é legítimo. De um ponto de vista legal, só a um presidente. Sabemos que não tem poder. Mas, ainda assim, já disse e repito: Yanukovych é o único presidente legítimo.
 
Pela lei ucraniana há três modos de remover um presidente: por morte, se ele pessoalmente renuncia, ou por impeachment. O impeachment é processo constitucional, com regras bem claras. Envolve a Corte Constitucional, a Suprema Corte e o Rada (Parlamento). É procedimento complicado e demorado. Não houve nada disso. Portanto, do ponto de vista legal, não há sequer o que discutir.
  Acredito, além do mais, que essa foi a razão pela qual extinguiram a Corte Constitucional – o que contradiz todas as normas legais, da Ucrânia e da Europa. Não apenas dissolveram a Corte Constitucional de modo ilegítimo, mas eles também – vejam só! – deram ordens ao Gabinete do Procurador Geral para iniciar processos criminais contra todos os juízes da Corte Constitucional. O que é isso? É o que chamam de justiça? Como é possível alguém mandar alguém iniciar processo criminal, sem acusação formal, sem inquérito? Iniciar um processo criminal por ordem superior é nonsense. É falcatrua.
Agora, sobre a ajuda financeira à Crimeia. Como vocês talvez já saibam, decidimos organizar o trabalho nas regiões russas, para ajudar a Crimeia, que nos pediu apoio humanitário. Claro que atenderemos o pedido. Não posso ainda dizer quanto, quando ou como – o governo está trabalhando nisso, reunindo as regiões que têm fronteira com a Crimeia, garantindo apoio adicional às nossas regiões, para que possam ajudar o povo da Crimeia. Não há dúvida de que ajudaremos, é claro.
 
Sobre o deslocamento de tropas, o uso de forças armadas. Até aqui, não houve necessidade, mas a possibilidade permanece. Quero dizer aqui que os exercícios militares que fizemos recentemente nada têm a ver com os eventos na Ucrânia. São exercícios planejados há muito tempo, mas não foram divulgados, naturalmente, porque era inspeção surpresa da prontidão da forças para combate. Estava planejado há muito tempo, o Ministro da Defesa informou-me e eu já tinha a ordem pronta para iniciar o exercício. Vocês talvez já saibam que os exercícios já foram concluídos; ontem, dei ordem para que as tropas voltem aos deslocamentos regulares.
 
 O que daria motivo para usar as Forças Armadas? – uma medida que, com certeza, só será tomada como último recurso.
 
Em primeiro lugar, a questão da legitimidade. Como vocês devem saber, recebemos pedido direto do presidente eleito e, como eu disse, do único presidente legítimo da Ucrânia, Sr. Yanukovich, que nos pediu o uso das forças armadas para proteger a vida, a liberdade e a integridade física dos cidadãos da Ucrânia.
 
Qual a nossa maior preocupação? Vemos o crescimento de forças reacionárias, nacionalistas e antissemitas em várias partes da Ucrânia, inclusive em Kiev. Vocês, jornalistas, com certeza viram um dos governadores algemado e preso com correntes a um poste, e atacado com baldes de água, no auge do inverno. Depois disso, foi trancado num celeiro e torturado. O que é isso? Seria democracia? Seria manifestação democrática? Esse governador havia sido nomeado recentemente, em dezembro, me parece. Ainda que se aceite que, lá, todos são corruptos, esse governador ainda nem teria tido tempo de roubar coisa alguma.
 
 Sabem o que aconteceu quando tomaram o prédio do Partido das Regiões. Não havia no prédio membros do partido. Apenas dois, três empregados saíram, um deles um engenheiro, que disse aos invasores: “Por favor, deixem-nos sair. Deixem sair as mulheres, por favor. Sou engenheiro, nada tenho a ver com política”. Esse foi assassinado a tiros, ali, à frente de todos. Outro dos empregados foi preso num celeiro e o celeiro incendiado com coquetéis molotov. Foi queimado vivo. Seria manifestação de democracia?
 Quando se veem essas coisas, entende-se o que preocupa os cidadãos da Ucrânia, sejam russos ou ucranianos, e a população que fala russo nas regiões leste e sul da Ucrânia. O que os preocupa é esse crime descontrolado.
 Assim sendo, se virmos esse crime descontrolado espalhando-se para as regiões leste do país, e se aquele povo nos pedir ajuda, dado que já temos o pedido formal, legal do presidente legítimo, nos reservamos o direito de usar todos os meios ao nosso alcance para proteger aquelas pessoas. É resposta absolutamente legítima. Será usada como último recurso.
 Há uma coisa que eu gostaria de dizer: nós sempre consideramos a Ucrânia não só como vizinho, mas como república vizinha irmã. E assim continuaremos. Nossas Forças Armadas são camaradas em armas, amigos, muitos dos quais se conhecem pessoalmente. Tenho certeza, e insisto, que militares ucranianos e russos jamais se enfrentarão: em combate, todos estarão do mesmo lado.
 
Aliás, isso de que estou falando – essa unidade – é o que já se vê na Crimeia. Vocês sabem que, graças a Deus, nenhum tiro foi disparado ali; não há mortes, exceto um atropelamento na praça há uma semana. O que se viu ali? As pessoas chegaram, cercaram unidades das forças armadas e conversaram com os soldados, convencendo-os a atender às demandas populares e o desejo do povo que vive ali. Não houve um tiro, um único confronto armado.
Assim, a tensão na Crimeia, associada à possibilidade de usarmos nossas forças armadas simplesmente se esvaiu, e não foi preciso usá-las. A única coisa que tínhamos de fazer e fizemos, foi reforçar a defesa de nossas instalações militares, porque estavam recebendo ameaças, e sabíamos de nacionalistas armados que tentavam aproximar-se. Reforçamos nossa proteção, e era a coisa certa a fazer e fizemos no momento certo. Parto da ideia de que não será necessário fazer nada desse tipo, no leste da Ucrânia.
 
Mas há algo que quero destacar. Obviamente, o que vou dizer não está compreendido na minha autoridade e não temos nenhuma intenção de interferir. Mas cremos firmemente que todos os cidadão da Ucrânia, repito: vivam onde viverem, devem ter iguais direitos de participar na vida de seu país e determinar seu futuro.
 
 Se eu estivesse na pele daqueles que se consideram autoridades legítimas, não perderia tempo e cuidaria de seguir logo todos os procedimentos legais necessários, porque eles não tem mandato nacional para conduzir políticas domésticas, externas ou econômicas, e nem, especialmente, para determinar o futuro da Ucrânia.
 
 Agora, a questão das Bolsas de Ações. Como vocês talvez saibam, o mercado já estava oscilante antes de que a situação na Ucrânia deteriorasse. Tem a ver, basicamente, com a política do Federal Reserve dos EUA, cujas decisões recentes tornaram mais atraente investir na economia dos EUA, e os investidores puseram a mover seus investimentos, dos países emergentes para o mercado norte-americano. É uma tendência geral e nada tem a ver com a Ucrânia. Parece-me que o país que mais sofreu, dentre os BRICS, foi a Índia. A Rússia também foi atingida, não tão duramente como a Índia, mas foi atingida. A razão fundamental é essa.
 
 Quanto aos eventos na Ucrânia, a política sempre influencia os mercados de ações, de um modo ou de outro. O dinheiro gosta de tranquilidade, estabilidade e calma. Mas acho que é desenvolvimento só tático, temporário, e influência temporária
 
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 VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Suas perguntas, por favor.
 
 PERGUNTA: Sr. Presidente, pode dizer se o senhor esperava reação tão forte dos seus parceiros ocidentais, contra as ações da Rússia? Pode dar-nos detalhes de suas conversas com seus parceiros ocidentais? A única coisa que se ouviu foram notícias do seu serviço de imprensa. E o que pensa sobe a reunião do G8 em Sochi – acontecerá?
 
 VLADIMIR PUTIN: Sobre a reação esperada, se o G8 se realizará e sobre as conversas. Todas essas conversas são confidenciais, algumas acontecem até por linhas protegidas. Assim sendo, não estou autorizado a divulgar o que discuti com os parceiros. Mas posso comentar algumas declarações públicas, feitas por meus colegas ocidentais; sem dar nomes; comento-as só em termos gerais.
 
 A que prestar atenção? Sempre há alguém a dizer que o que a Rússia faz não seria ilegítimo. Pergunto: “Será que supõem que tudo que o que eles fazem é sempre legítimo?” A resposta é “Sim, eles supõem”. Então, tenho de lembrar-lhes o que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque e Líbia, onde agiram sem autorização da ONU ou distorceram completamente o conteúdo daquelas resoluções, como no caso da Líbia. Nesse caso, como vocês sabem, a resolução só autorizava a fechar o espaço aéreo para a aviação de Gaddafi. E a coisa terminou, como se sabe, com bombardeios aéreos e operação em terra, pelas forças especiais.
 
 O que se vê é que nossos parceiros, especialmente os EUA, sempre claramente formular seus próprios interesses geopolíticos e de estado, e os seguem persistentemente. Então, usando o princípio “Ou estão conosco ou estão contra nós”, dividem o mundo. E os que não se enquadrem, são “espancados” até se enquadrar.
 
 Nossa abordagem é diferente. Partimos da convicção de que sempre temos de agir com legitimidade. Eu, pessoalmente, sempre defendi que temos de agir em estrito cumprimento da lei internacional. Quero reforçar, mais uma vez, que, se tomarmos a decisão, se eu decidir usar as Forças Armadas russas, será decisão legítima, em plena obediência a todas as normas gerais da lei internacional – porque recebemos um pedido de ajuda do presidente legítimo –, e, também, em plena obediência aos nossos compromissos, que, nesse caso, coincidem com nossos interesses de proteger um povo com o qual temos estreitos laços históricos, culturais e econômicos. Essa é missão humanitária. Não visamos a subjugar ninguém nem a dar ordens a ninguém. Mas não podemos ficar indiferentes se vemos aquele povo ser perseguido, destruído e humilhado.
 
 Seja como for, espero sinceramente que não seja necessário chegar até isso.
 
 PERGUNTA: Como o senhor avalia a reação do ocidente aos eventos na Ucrânia e as ameaças contra a Rússia: estamos diante de possíveis sanções ou da expulsão do G8?
 
 VLADIMIR PUTIN: Quanto às sanções. Quem mais se deve preocupar com as consequências das sanções é quem aplica as sanções. Entendo que, no mundo moderno, no qual tudo está interconectado e é interdependente, é possível causar danos a outro país, mas sempre será dano mútuo. Aí está algo que todos devem manter sempre em mente. Isso é uma coisa.
 
 A segunda coisa, e a mais importante: já disse aos senhores o que nos motiva. Mas… o que motiva nossos parceiros? Eles apoiaram um golpe para tomada armada e inconstitucional do poder; declararam o novo poder legítimo e agora estão tentando dar-lhes apoio.
 
Devo dizer que, apesar de tudo isso, temos sido pacientes e até dispostos a cooperar; não queremos romper nossa cooperação. Como vocês devem saber, há alguns dias instruí o governo a considerar como se podem preservar os contatos até com aqueles poderes em Kiev que não consideramos legítimos, para não comprometer nossos laços na economia e na indústria. Entendemos que nossas ações têm sido absolutamente razoáveis. Entendemos também que ameaçar a Rússia sempre é contraproducente e danoso.
 
 Quanto ao G8, não sei. Estaremos prontos para hospedar o encontro com nossos colegas. Se não querem vir… que seja.
 
 PERGUNTA: Posso acrescentar algo, sobre os contatos? Como vejo as coisas, o senhor considera legítimo o primeiro-ministro da Crimeia, sr. Aksyonov, como representante das autoridades do governo. O senhor está pronto a ter contatos com os que se consideram legítimas autoridades em Kiev?
 
 VLADIMIR PUTIN: Já falei sobre isso. O senhor talvez não tenha ouvido.
 
 PERGUNTA: Quero dizer, em alto nível, para uma solução política.
 
 VLADIMIR PUTIN: Não parceiro no alto nível, lá. Lá não há presidente. E não pode haver, até que haja eleições gerais.
 
 Quanto à Crimeia, o Parlamento foi formado em 2010, em dezembro de 2010, se bem me lembro. Há 100 deputados eleitos, que representam seis partidos políticos. Depois da renúncia do ex-primeiro-ministro, o Parlamento da Crimeia, como ordena a legislação vigente e pelos procedimentos legais, elegeram um novo primeiro-ministro em sessão do Conselho Superior da Crimeia. É claro que é definitivamente legítimo. Foram respeitados todos os procedimentos de lei; não houve sequer um ato ilegal.
 
 E quando, há alguns dias, um grupo de homens armados tentou ocupar o prédio do Soviet Superior da Crimeia, houve indignação dos habitantes locais. Pareceu-lhes que alguém tentava aplicar na Crimeia o mesmo cenário de Kiev, lançar séries de atos terroristas e provocar o caos. É claro que os habitantes locais têm boas razões para preocupação. Por isso organizaram comitês de autodefesa e assumiram o controle sobre as forças armadas da Crimeia.
 
 Casualmente, examinei as notícias, ontem, para ver sobre o que, exatamente, a população da Crimeia assumiu o controle. Há várias dúzias de unidades C-300, várias dúzias de sistemas de mísseis de defesa aérea, 22 mil soldados e mais. Mas, como eu disse, tudo já está sob controle do povo da Crimeia, e sem disparar um único tiro.
 
PERGUNTA: Sr. Presidente, um esclarecimento, por favor. As pessoas que bloqueavam o acesso às unidades do Exército da Crimeia usavam uniformes muito parecidos com o uniforme do Exército Russo. Eram soldados russos, o exército russo?
 
VLADIMIR PUTIN: Examine os uniformes dos exércitos dos soldados dos estados pós-soviéticos. Há muitos uniformes parecidos. E sempre se pode entrar numa loja e comprar qualquer tipo de fardamento.
 
 PERGUNTA: Mas eram ou não eram soldados russos?
 
 VLADIMIR PUTIN: Eram unidades locais de autodefesa.
 
 PERGUNTA: Eram treinados? Se se comparam aqueles soldados com as unidades de autodefesa em Kiev…
 
VLADIMIR PUTIN: Meu caro amigo, veja o quão bem treinado era o pessoal que operou em Kiev. Todos sabemos que foram treinados em bases especiais em estados vizinhos: na Lituânia, na Polônia e na própria Ucrânia. Foram treinados por instrutores, por longos períodos. Foram divididos em dúzias e centenas, as ações foram coordenadas e havia bons sistemas de comunicação. Funcionava como um relógio. Você os viu em ação? Operavam como profissionais, pareciam forças especiais. Por que você pressupõe que os defensores da Crimeia teriam de ser menos bem organizados, piores?
 
 PERGUNTA: Então, me explico melhor: tomamos parte no treinamento das forças de autodefesa da Crimeia?
 
 VLADIMIR PUTIN: Não.
 
 PERGUNTA: Como o senhor vê o futuro da Crimeia? O senhor considera a possibilidade de a Crimeia unir-se à Rússia?
 
 VLADIMIR PUTIN: Não, não consideramos. De modo geral, creio que só residentes de um determinado país, com plena liberdade para escolher e em completa segurança, podem determinar o futuro do próprio país. Se isso sempre tivesse sido garantido aos albaneses do Kosovo, se fosse tornado possível em muitas diferentes partes do mundo, ninguém teria roubado a ninguém o direito à autodeterminação, o qual, que eu saiba, está fixado em vários documentos da ONU. Não, de modo algum. Não provocaremos essa decisão, nem promoveremos esses sentimentos.
 
 Quero destacar que acredito que só quem viva num dado território tem o direito de determinar o próprio destino naquele território.
 
 
PERGUNTA: Duas perguntas. O senhor disse que enviar tropas à Ucrânia é medida extrema, mas o senhor não a descartou. Mas, se tropas russas entrarem na Ucrânia, pode ser o início de uma guerra. Isso não o preocupa? E uma segunda pergunta: o senhor diz que Yanukovich não deu ordem para seus policiais atirarem contra o povo. Mas alguém atirou e, claramente, eram atiradores treinados.
 
VLADIMIR PUTIN: Muita gente, inclusive pessoas que estavam entre os manifestantes, manifestaram a opinião de que eram provocadores, de um dos partidos da oposição. O senhor não ouviu esses relatos?
 
 RESPOSTA: Não, não ouvi.
 
 VLADIMIR PUTIN: Procure esses relatos – não é difícil encontrá-los. Por isso é tão difícil chegar ao fundo dessa situação. Mas não há dúvidas de que o senhor e eu vimos, com certeza, quando os policiais Berkut lá estavam, só com seus escudos, sob fogo – e não eram armas de ar comprimido, que foram usadas contra eles, mas armas de assalto, que perfuraram os escudos. Isso, com certeza, nós vimos, todo mundo viu. E quanto a quem ordenou os tiros, não sei. Sei o que o sr. Yanukovich contou-me. E ele me disse que não deu ordem de tiro, em nenhum momento. Mais do que isso, depois de assinar o acordo de 21/2/2014, ele deu instruções para que todas as unidades policiais se retirassem da capital.
 
 Posso, até, lhe contar mais. Yanukovich telefonou-me; e eu lhe disse que não retirasse os policiais das ruas. Disse a ele: “Você terá anarquia, você gerará o caos na capital. Pense no povo”. Mas, mesmo assim, ele retirou os policiais. Imediatamente seu próprio gabinete foi tomado, e o prédio do governo, e foi o caos, o mesmo do qual eu falei a Yanukovich, e que continua até hoje.
 
 PERGUNTA: E sobre a primeira pergunta? Não o preocupa a possibilidade de uma guerra?
 
 VLADIMIR PUTIN: Não. Porque não planejamos guerra alguma, nem combateremos contra o povo da Ucrânia.
 
 PERGUNTA: Mas há soldados ucranianos, o exército ucraniano.
 
 VLADIMIR PUTIN: Ouça com atenção. Quero que me compreendam claramente: se nós tomarmos essa decisão, será, sempre e necessariamente e unicamente, para proteger os cidadãos da Ucrânia. Quero ver que exército ucraniano se atreverá a atirar contra o próprio povo, com os russos lá, com os ucranianos; por trás dos ucranianos, não à frente, mas no apoio. Queria saber quem, na Ucrânia, daria ordem ao exército ucraniano para atirar contra mulheres e criança ucranianas que estão sob nossa proteção.
 
 PERGUNTA: Posso fazer uma pergunta, sr. presidente? Nossos colegas, meus colegas jornalistas que estão atualmente trabalhando na Ucrânia, dizem, todos os dias, que a situação dos Berkut piora dia a dia (com exceção, talvez, da Crimeia). Em Kiev, especialmente, há oficiais da polícia antitumultos feridos, agora hospitalizados, mas que não recebem nenhum tipo de tratamento. Alguns, sequer recebem comida. E as famílias deles não podem nem sair de casa, porque estão cercados: há barricadas em torno das casas. Não têm comida, são humilhados. O senhor pode comentar isso? Há meio de a Rússia ajudar aquelas famílias e os policiais?
 
VLADIMIR PUTIN: Sim, é assunto que muito nos preocupa. Não são soldados nossos, nem estamos diretamente envolvidos nessa situação. Mas é, sim, uma questão humanitária grave. Seria oportuno que nossas organizações de direitos humanos se envolvessem nessa questão. Podemos pedir que Vladimir Lukin, só ou com seus colegas [da ONU], representantes da França, Alemanha e Polônia, que trabalharam para construir o conhecido acordo de 21/2/2014, que viajem até lá e verifiquem in loco a situação desses policiais Berkut, que não ofenderam nenhuma lei e agiram em obediência às ordens. São oficiais militares, enfrentaram os tiros, os coquetéis molotov, foram feridos. Aquela situação é difícil até de imaginar. Há leis que obrigam a alimentar e dar tratamento médico até a prisioneiros de guerra. As organizações de direitos humanos devem dar toda a atenção a esse caso. Desde já, garanto que receberão atendimento médico aqui na Rússia.
 
PERGUNTA: Sr. Presidente, voltando à reação ocidental. Depois do duro pronunciamento do secretário de Estado dos EUA, o Conselho da Federação sugeriu que chamássemos de volta nosso embaixador nos EUA. O senhor apoia essa ideia?
 
 VLADIMIR PUTIN: O secretário de Estado dos EUA é, sem dúvida, homem muito importante, mas não é a autoridade que determina a política externa dos EUA. Ouvimos declarações de vários políticos e representantes de variadas forças políticas. A medida sugerida é medida extrema. Será usada, se for necessária. Mas realmente não quero usá-la, porque acho que a Rússia não é a única interessada na cooperação com nossos parceiros num plano internacional, e em áreas como economia, política e segurança internacional, a cooperação interessa tanto a nossos parceiros quanto a nós. É muito fácil destruir esses instrumentos de cooperação, e seria muito difícil reconstruí-los.
 
 PERGUNTA: Rússia envolveu-se no destino de Yanukovych. Como o senhor vê seu papel futuro e seu destino futuro?
 
 VLADIMIR PUTIN: É difícil dizer, não analisei detidamente essas questões. Acho que ele não tem nenhum futuro político – e disse a ele. Quanto a nos ter envolvido no “destino” dele – o que fizemos foi feito por questão de consideração humanitária. Assassinar presidente legítimo é o meio mais fácil para livrar-se dele. Acho que, se ficasse lá, teria sido assassinado. Mais uma vez, ressurge a mesma pergunta: mas por quê?
 
Afinal, vejam como tudo começou, o que desencadeou esses eventos. A razão formal é que ele não assinou o Tratado de Associação com a União Europeia. Hoje, já soa como total nonsense; é ridículo, até, falar disso. Mas o que quero dizer é que ele não se recusou a assinar o tal Tratado.
 
 Yanukovich disse: “Analisamos detidamente esse Tratado e o conteúdo dele não atende aos nossos interesses nacionais. Não podemos aumentar o preço do combustível para os ucranianos, tanto quanto o Tratado exige, porque os ucranianos já vivem situação muito difícil. Não podemos fazer isso, nem isso, nem aquilo. Não podemos romper completamente e imediatamente nossos laços econômicos com a Rússia, porque nossa cooperação é muito extensa. (…) Yanukovich disse “Não posso fazer isso, assim, de repente. Vamos discutir mais”. Yanukovich não se recusou a assinar o Tratado: só pediu mais tempo para discutir o documento. E, na sequência, essa loucura toda começou.
 
 E por quê? Teria feito algo que extrapolasse a autoridade que tinha? Não. Agiu estritamente no limite de sua autoridade; não infringiu lei alguma. Simplesmente se recusou a apoiar as forças que lhe faziam oposição, numa luta pelo poder. Nada há aí de excepcional. Como, por que, esse “nada” inicial foi levado ao atual nível de anarquia, à derrubada ilegal de governo legítimo, com a Ucrânia lançada no caos em que está hoje? Tudo, aí, me parece inaceitável.
 
 Não é a primeira vez que nossos parceiros ocidentais fazem isso na Ucrânia. Às vezes tenho a sensação de que em algum lugar naquele poço imenso, nos EUA, alguém senta-se num laboratório e põe-se a fazer testes, como se todos fôssemos ratos de gaiola, sem realmente compreender as consequências do que fazem. Por que tinham de fazer isso? Quem explica o que fizeram? Não há explicação.
 
 O mesmo aconteceu durante o primeiro levante na praça Maidan, quando Yanukovych foi bloqueado longe do poder. Quem precisava daquele terceiro turno de eleições? Em outras palavras, a coisa toda virou farsa – a vida política da Ucrânia foi convertida em farsa. Nenhuma consideração à Constituição. Agora, vocês veem, estão ensinando às pessoas que, se uma pessoa pode violar a lei, todos podem; assim, geraram o caos. O perigo é esse.
 
 Em vez disso, é preciso ensinar as sociedades a seguir outras tradições: a tradição de respeitar a lei maior do país, a Constituição, e todas as demais leis. Claro, nem sempre se conseguirá. Mas… agir como touro em loja de porcelana é contraproducente e muito perigoso. Há mais perguntas, por favor?
 
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 PERGUNTA: Sr. presidente, Turchynov é ilegítimo, do seu ponto de vista.
 
 VLADIMIR PUTIN: Como presidente, sim.
 
 PERGUNTA: Mas o Rada [Parlamento] é parcialmente legítimo.
 
 VLADIMIR PUTIN: Sim.
 
 PERGUNTA: Yatsenyuk e o Gabinete são legítimos? A Rússia está preocupada com a força crescente dos elementos radicais. Eles se fortalecem, sempre que se veem diante de um inimigo hipotético, o qual, hoje, eles entendem que seria a Rússia. Há também a posição russa, de declarar-se pronta para enviar tropas [para a Ucrânia]. Pergunto: faz sentido é será possível manter conversações com as forças moderadas no governo da Ucrânia, com Yatsenyuk? Yatsenyuk é legítimo?
 
 VLADIMIR PUTIN: Parece que o senhor não ouviu o que eu disse. Eu já disse que, há três dias, dei instruções ao governo para renovar os contatos em nível de governo com seus correspondentes ministérios e departamentos na Ucrânia, para não cortar laços econômicos, e para apoiar suas tentativas para reconstruir a economia. Foram instruções que dei diretamente ao governo russo. O primeiro-ministro, sr. Medvedev, está em contato com [Arseniy] Yatsenyuk. E sei que Sergei Naryshkin, presidente do Parlamento russo, está em contato com [Oleksandr] Turchynov. Mas, repito: nossos contatos comerciais e econômicos, e outros, nossos contatos humanitários, só se poderão desenvolver plenamente depois que a situação se normalizar e houver eleições presidenciais.
 
 PERGUNTA: Gazprom já disse que está voltando aos velhos preços do gás, a partir de abril.
 
 VLADIMIR PUTIN: Não. A Gazprom não pode ter dito isso. O senhor não ouviu bem, ou alguém não se expressou com clareza. A Gazprom não está voltando aos velhos preços. A empresa simplesmente não quer manter os atuais descontos, que ela só aceita aplicar ou não aplicar, por períodos trimestrais. Já era assim antes desses eventos, antes de a crise se agravar. Conheço as negociações entre a Gazprom e seus parceiros. A Gazprom e o governo da Federação Russa acordaram que a Gazprom introduziria um desconto, reduzindo os preços do gás para US $268,50 por mil metros cúbicos. O governo da Rússia provê a primeira parte do empréstimo, que não é formalmente um empréstimo, mas uma compra de papéis – um quase-empréstimo, US $3 bilhões de dólares no primeiro estágio. E o lado ucraniano assume o compromisso de pagar a dívida que se criou no segundo semestre do ano passado e de fazer pagamentos regulares do que estão consumindo – pelo gás. A dívida não foi paga, nem estão sendo feitos integralmente os demais pagamentos.
 
 Além disso, o parceiro ucraniano não depositou o pagamento que venceu em fevereiro, o que fez aumentar o montante da dívida. Hoje, está em torno de US $1,5-1,6 bilhões. E se não pagarem tudo o que vence em fevereiro, a dívida se aproximará de US $2 bilhões. Naturalmente, nessas circunstâncias, a Gazprom diz: “Escutem aqui, já que vocês não vão mesmo pagar, e a única coisa que aumenta é a dívida de vocês, vamos fechar negócio com o preço regular, que já é reduzido”. É movimento puramente comercial, parte das atividades da Gazprom, que planeja retornos e gastos em seus investimentos, como qualquer grande empresa. Se não recebem a tempo o dinheiro dos parceiros ucranianos, eles têm de cortar os próprios programas de investimentos; é problema real, para eles. Mas, lembro, nada disso tem qualquer coisa a ver com os eventos na Ucrânia, nem com qualquer movimento político. Havia um acordo: “Damos a vocês dinheiro e preços reduzidos de gás, e vocês fazem pagamentos regulares”. A empresa deu a eles dinheiro e preços reduzidos de gás, mas os pagamentos não estão sendo feitos. Naturalmente, a Gazprom diz “Não, pessoal, a coisa não está funcionando”.
 
 PERGUNTA: Sr. Presidente, o serviço de imprensa da chanceler alemã Merkel disse, depois da conversa telefônica entre ela e o senhor, que havia ficado acertado que o senhor enviaria uma missão de investigação em campo, à Ucrânia, para saber o que acontece por lá, e que seria constituído um grupo de contato.
 
 VLADIMIR PUTIN: Eu disse que temos pessoal com treinamento e competências para examinar a questão e para discuti-la com nossos colegas alemães. Pode-se fazer. Já dei as instruções necessárias ao nosso ministro de Relações Exteriores, que estava para encontrar-se, ou vai encontrar-se com o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, sr. Steinmeier, ontem ou hoje, para discutirem esse assunto.
 
 PERGUNTA: Todos os olhos estão na Crimeia, agora, é claro, mas vê-se também o que está acontecendo em outras partes da Ucrânia, no leste e no sul. Vê-se o que está acontecendo em Carcóvia, Donetsk, Lugansk e Odessa. As pessoas içam bandeiras da Rússia nos prédios do governo e pedem ajuda e apoio à Rússia. A Rússia responderá a esses eventos?
 
 VLADIMIR PUTIN: Você acha que não demos nenhuma resposta? Acho que estamos aqui, há uma hora, discutindo essa resposta. Mas, em alguns casos, os desenvolvimentos que se veem são, me parece, inesperados. Não vou entrar aqui em detalhes específicos sobre o que quero dizer com isso, mas a reação que estamos vendo é, em princípio, compreensível.
 
 É possível que nossos parceiros no ocidente e os que se dizem governo em Kiev não tenham previsto que os eventos tomariam esse rumo? Eu perguntei a eles, repetidas vezes: por que vocês estão empurrando o país para esse frenesi? O que estão fazendo? Eles continuaram a trabalhar para o frenesi. É claro que o povo do leste da Ucrânia sabe que foi deixado de fora do processo de decisão.
 
 Essencialmente, o que é preciso fazer agora é adotar uma nova Constituição e submetê-la a um referendo, para que todos os cidadãos de toda a Ucrânia participem do processo e influenciem os princípios básicos que serão o fundamento do governo do país deles. Mas esse não é assunto dos russos. Esse assunto é algo que só o povo e o governo da Ucrânia podem decidir, para um lado ou para outro. Acho que, tão logo haja um governo legítimo e novo presidente e novo Parlamento eleitos, que é o que está planejado, as coisas provavelmente andarão em frente. Se eu fosse eles, voltaria ao assunto de adotar uma Constituição e submetê-la a referendo, para que todos se possam manifestar, votar, e, depois, todos terão de respeitar suas próprias decisões. Se as pessoas sentem que estão sendo deixadas fora do processo, jamais o aceitarão e continuarão a resistir contra ele. Quem precisa desse tipo de coisa? Mas, como já disse, esse não é assunto nosso.
 
 PERGUNTA: A Rússia reconhecerá a planejada eleição presidencial que acontecerá na Ucrânia?
 
 VLADIMIR PUTIN: Vamos ver como a coisa anda. Se for acompanhada pelo mesmo tipo de terror que é tudo que hoje se vê em Kiev, não reconheceremos.
 
 PERGUNTA: Queria voltar à reação do ocidente. Continua toda essa conversa dura, temos, em poucos dias a abertura dos Jogos Paraolímpicos em Sochi. Esses jogos estão em risco, a ponto de fracassar, pelo menos no que tenha a ver com a cobertura jornalística?
 
 VLADIMIR PUTIN: Não sei. Parece-me o cume do cinismo criar ameaças contra os Jogos Paraolímpicos. Todos sabemos que é evento internacional de esportes nos quais portadores de necessidades especiais podem mostrar suas capacidades, provar a eles mesmos e ao mundo que não são pessoas limitadas, mas, ao contrário, gente cheia de ilimitadas capacidades e mostrar, no esporte suas realizações. Se há gente interessada em fazer fracassar esses jogos, só mostram que são gente para quem nada é respeitável, nada é sagrado.
 
 PERGUNTA: Queria perguntar sobre a possibilidade hipotética de usar o exército. Há quem diga, no ocidente, que se a Rússia tomar essa decisão estará violando o Memorando de Budapeste, pelo qual EUA e alguns parceiros da             OTAN consagraram  a integridade territorial da Ucrânia, em troca da promessa de que o país não desenvolveria armas atômicas. Se os desenvolvimentos tomarem esse rumo, atores internacionais poderão intervir nesse conflito local e fazer dele um conflito global? O senhor considerou esse risco?
 
 VLADIMIR PUTIN: Antes de fazer ‘declarações’ e sobretudo, antes de qualquer passo concreto, temos o hábito de dar a devida atenção às questões e analisar consequências e reações possíveis dos vários atores.
 
 Quanto ao Memorando de que você fala… Você disse que é da Reuters, é isso?
 
 RESPOSTA: Sim.
 
 VLADIMIR PUTIN: Como os círculos populares e políticos em seu país veem os eventos em andamento? É claro, afinal, que foi evidente tomada do poder por um grupo armado. Esse é fato claro e evidente. E é claro, também que é golpe anticonstitucional. É fato claro, não é?
 
 RESPOSTA: Eu vivo na Rússia.
 
 VLADIMIR PUTIN: Bom para você! Você deveria trabalhar no corpo diplomático; seria um bom diplomata. A língua dos diplomatas, como se sabe, existe para esconder o que eles pensam. Então, dizemos que o que estamos vendo é um golpe armado anticonstitucional, e nos dizem que não, não é. Você com certeza ouviu muitas e muitas vezes que não se trata de golpe anticonstitucional nem tomada armada do poder, mas que seria uma revolução. Você já ouviu isso?
 
 RESPOSTA: Já.
 
 VLADIMIR PUTIN: Sim, mas, se é uma revolução, o que significa tudo isso? Em alguns casos é difícil não concordar com alguns especialistas que dizem que um novo estado está emergindo nesse território. Exatamente o que aconteceu quando do colapso do Império Russo, depois da revolução de 1917, e um novo estado emergiu. E esse seria um novo estado, com o qual nós não assinamos nenhum acordo ou Memorando.
 
 PERGUNTA: Queria esclarecer um ponto. O senhor disse que se os EUA impuserem sanções, implicaria um golpe contra ambas as economias. Isso implica que a Rússia pode impor contra-sanções, ela mesma? Nesse caso, a resposta seria simétrica?
 
 O senhor também falou sobre os descontos no preço do gás. Mas há também o acordo de comprar $15 bilhões de papéis da Ucrânia. A Ucrânia recebeu a primeira parcela, no final do ano passado. O restante do dinheiro foi suspenso? Se a Rússia oferecer ajuda, em que exatos termos econômicos e políticos isso será feito? E que riscos econômicos e políticos o senhor está considerando nesse caso?
 
 VLADIMIR PUTIN: Respondendo sua pergunta, estamos, em princípio, dispostos a tomar as medidas necessárias para tornar disponíveis as demais parcelas referentes à compra de papéis. Mas nossos parceiros ocidentais nos pediram que não façamos isso. Pediram-nos para trabalharmos em conjunto com o FMI, para encorajar as autoridades ucranianas a fazerem as reformas necessárias que levem à recuperação da economia ucraniana. Continuamos trabalhando nessa direção. Mas, dado que a Naftogaz ucraniana não está pagando o que deve à Gazprom, o governo, agora, considera várias alternativas.
 
 PERGUNTA: Sr. Presidente, a dinâmica dos eventos na Ucrânia está mudando para melhor ou para pior?
 
 VLADIMIR PUTIN: Acima de tudo, acho que está gradualmente começando a nivelar-se. Temos absolutamente de sinalizar para o povo do sudeste da Ucrânia que todos podem sentir-se seguros, e sabendo que poderão tomar parte no processo político geral de estabilizar o país.
 
PERGUNTA: O senhor falou várias vezes de futuras eleições legítimas na Ucrânia. Quem o senhor vê como candidato sério? Claro que o senhor vai dizer que cabe ao povo ucraniano decidir, mas pergunto mesmo assim.
 
 VLADIMIR PUTIN: Honestamente, não sei mesmo.
 
RESPOSTA: Parece que ninguém sabe, porque todos com quem se fala parecem estar completamente perdidos.
 
VLADIMIR PUTIN: Realmente, não sei dizer. Você sabe, é difícil fazer previsões em eventos desse tipo. Já disse que não concordo com esse método de tomar o poder e derrubar autoridades eleitas, e o presidente eleito, e que me oponho fortemente a esse tipo de método na Ucrânia e em geral em todo o espaço pós-soviético.
 
 Oponho-me, porque esse tipo de método não contribui para inculcar uma cultura de respeito à lei. Se um se safar, depois de ter feito isso, significa que todos podem tentar, e isso só significa caos. É preciso entender que esse tipo de caos é o pior que pode acontecer a países de economias frágeis e sistema político instável. Nesse tipo de situação você jamais sabe que tipo de gente os eventos jogarão no centro da cena.
 
 Lembre, por exemplo, o papel que as tropas de assalto de [Ernst] Roehm tiveram na ascensão de Hitler, ao poder. Adiante, aquelas tropas foram liquidadas, mas tiveram seu papel para levar Hitler ao poder. Os eventos podem tomar os rumos mais inesperados.
 
Permitam-me dizer, mais uma vez, que em situações nas quais o povo clame por reforma política fundamental e novas caras no topo, e também num clamor plenamente justificado – e nisso concordo com o movimento Maidan –, sempre há o risco de você, de repente, ter nas mãos um levante nacionalista ou semifascista, como uma espécie de gênio que salta para fora da garrafa. Hoje, eles estão bem à vista, usando braçadeiras com algo que muito parecem suásticas, ainda circulando por Kiev, nesse momento – ou antissemitas ou outros. Esse perigo está presente lá.
 
PERGUNTA: Hoje mesmo, coincidentemente, o enviado ucraniano à ONU disse que os crimes cometidos pelos seguidores de Bandera foram forjados pela União Soviética. Com 9 de maio se aproximando, já se pode ver quem está hoje no poder. Podemos ter qualquer contato com eles?
 
VLADIMIR PUTIN: Temos de ter contato com todos, exceto com criminosos, mas, como eu já disse, nesse tipo de situação sempre há o risco de que eventos como esse tragam à tona gente com visão extremista. Isso, claro, tem consequências graves para o país.
 
 PERGUNTA: O senhor disse que temos de fazer contato com todos. Parece que Yulia Timoshenko planeja visitar Moscou.
 
VLADIMIR PUTIN: Como você sabe, sempre trabalhamos proveitosamente com todos os diferentes governos ucranianos, não importa sua cor política. Trabalhamos com Leonid Kuchma e com [Viktor] Yushchenko. Quando fui primeiro-ministro, trabalhei com Timoshenko. Visitei-a na Ucrânia e ela veio à Rússia. Tivemos de lidar com situações diferentes no trabalho de administrar a economia de nossos respectivos países. Tivemos nossas diferenças, mas também alcançamos acordos. Foi trabalho construtivo. Se ela quer vir à Rússia, que venha. A situação é outra, agora que ela não é mais primeira-ministra. Virá a que título? Mas, pessoalmente, não tenho nenhuma intenção de impedi-la de vir à Rússia.
 
PERGUNTA: Uma pergunta rápida: quem, em sua opinião, está por trás do golpe, como o senhor diz, na Ucrânia?
 
VLADIMIR PUTIN: Como já disse, acho que foi ação longamente preparada. Houve destacamentos treinados para combate. Ainda estão lá, e todos vimos que trabalharam com eficiência. Seus instrutores ocidentais dedicaram-se ao trabalho, é claro. Mas esse não é o verdadeiro problema. Se o governo ucraniano estivesse forte, confiante, e tivesse construído um sistema estável, nenhum grupo nacionalista teria conseguido levar adiante aquele tipo de plano e programa, nem teriam chegado aos resultados que se veem hoje.
 
O verdadeiro problema é que nenhum dos governo ucranianos anteriores deram a atenção devida às necessidades do povo. Cá na Rússia temos muitos problemas, muitos semelhantes aos da Ucrânia, embora não tão graves como na Ucrânia. A renda mensal média per capita na Rússia, por exemplo, é 29.700 rublos. Mas na Ucrânia, convertida em rublos, é de 11.900 rublos, quase três vezes menor que na Rússia. A aposentadoria média na Rússia é de 10,700 rublo; na Ucrânia, é de 5.500 rublos – metade da russa. Os veteranos russos da Grande Guerra Patriótica [IIª Guerra Mundial, no ocidente] recebem mensalmente quase o mesmo que o salário médio mensal dos trabalhadores. Em outras palavras, há diferença substancial nos padrões de vida. Nisso, sim, os vários governos dever-se-iam ter concentrado desde o começo. Sim, claro, tiveram de combater o crime, o nepotismo, as gangues e clãs, sobretudo na economia. O povo viu tudo isso e perdeu a confiança no governo em geral.
 
Isso continuou ao longo de várias gerações de modernos políticos ucranianos, que vêm e vão. E o resultado é o povo cada vez mais desapontado, querendo ver sistema novo e novas caras no poder. Essa é a fonte de combustível para os eventos que se veem na Ucrânia. Mas permitam-me repetir: uma mudança de poder, a julgar pela situação, era provavelmente necessária na Ucrânia, mas teria de acontecer por meios legítimos, respeitando, nunca violando, a atual Constituição.
 
PERGUNTA: Sr. Presidente, se a Crimeia fizer um referendo e o povo optar por separar-se da Ucrânia, quer dizer, se a maioria da população da região votar pela secessão, o senhor apoiará?
 
 VLADIMIR PUTIN: O modo condicional não existe em política. Não esqueço essa regra.
 
 PERGUNTA: Yanukovich está vivo? Houve rumores de que teria morrido.
 
 VLADIMIR PUTIN: Estive com ele só uma vez, desde que chegou à Rússia. Aconteceu há dois dias. Estava vivo e bem, e deseja ao senhor uma longa e próspera vida. Ainda corre o risco de apanhar um resfriado no funeral dos que espalham boatos de que teria morrido.
 
 PERGUNTA: Sr. Presidente, que erros, em sua opinião, Yanukovich teria cometido nos últimos meses, enquanto a situação se agravava na Ucrânia?
 
VLADIMIR PUTIN: Prefiro não responder essa pergunta, não porque não tenha opinião a expressa, mas porque me parece que não seria adequado. Vocês têm de entender, que, afinal…
 
PERGUNTA: O senhor tem simpatia por ele?
 
VLADIMIR PUTIN: Não, simpatia não, outros sentimentos. Quem esteja no governo carrega imensa responsabilidade como chefe de estado, têm direitos e também obrigações. Mas a maior obrigação é fazer acontecer o desejo do povo que o elegeu, agindo pela lei, conforme a lei. E temos de analisar também se ele fez tudo que a lei e os eleitores lhe deram poder para fazer. Analisem vocês mesmos e extraiam suas próprias conclusões.
 
PERGUNTA: Mas quais são os seus sentimentos? O senhor disse “simpatia, não, outros sentimentos”. Que sentimentos, exatamente?
 
 VLADIMIR PUTIN: Conversamos depois.
 
PERGUNTA: Algumas questões antes, o senhor disse que temos de sinalizar claramente para o povo do sul e do sudeste da Ucrânia. O sudeste, sim, compreende-se. Mas…
 
 VLADIMIR PUTIN: Temos de expor claramente nossa posição, de fato, para todos.
 
 Temos que ser ouvidos por todo o povo da Ucrânia. Não temos inimigos, na Ucrânia. Já disse e repito, que a Ucrânia é país amigo. Sabem quantos vieram da Ucrânia para a Rússia, ano passado? 3,3 milhões de pessoas. Desses, quase 3 milhões vieram para a Rússia para trabalhar. Trabalham aqui – cerca de 3 milhões de pessoas. Sabem quanto dinheiro mandaram para casa, na Ucrânia, para sustentar a família? Calculem o salário médio, vezes 3 milhões. São bilhões de dólares, uma contribuição importante para o PIB da Ucrânia. Não é brincadeira. São todos bem-vindos. E entre esses ucranianos que vêm trabalhar na Rússia, muitos são também do oeste da Ucrânia. Aos nossos olhos, são todos iguais, todos nossos irmãos.
 
PERGUNTA: Era exatamente o que eu queria perguntar. Estamos ouvindo muito sobre o sudeste da Ucrânia, atualmente, o que é compreensível, mas há russos étnicos e falantes de russo vivendo também no oeste da Ucrânia, e a situação deles é, provavelmente, ainda pior. Provavelmente não podem nem levantar a cabeça e são minoria muito rejeitada lá. O que a Rússia pode fazer por eles?
 
VLADIMIR PUTIN: Nossa posição é que, se o pessoal que hoje se diz governo tem esperança de ser considerado governo civilizado, eles terão da garantir a segurança de todos os cidadãos, não importa em que parte do país vivam. Nós, é claro, acompanharemos de perto essa situação. Muito obrigado. 
 

O Ocidente e a Ucrânia: cenários possíveis

10 fev

8/2/2013, Irina LebedevaStrategic Culture

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Irina Lebedeva
O relatório Ucrânia 2020 foi publicado em 2010 pelo Center for Global Affairs (CGA). O documento apresenta possíveis opções para o desenvolvimento político da Ucrânia. O professor Michael Oppenheimer (Center for Global AffairsNew York University), foi o criador do projeto.
 Os eventos na Ucrânia parecem desenvolver-se hoje segundo, não um, mas todos os “três cenários” descritos no documento.
 James Sherr (Russia and Eurasia ProgramChatham House) escreve no prefácio que o CGA participou dos projetos conduzidos pelo Departamento de Estado, Departamento da Defesa, Conselho de Inteligência Nacional, CIA, Institute for PeaceBrookings InstituteCouncil on Foreign Relations e pelo Conselheiro Científico do Presidente dos EUA. Praticamente todos os especialistas em Ucrânia conhecidos, dos EUA, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Bélgica, da Polônia e de outros estados participaram do projeto do CGA… [mas nenhum representante da Rússia nem especialista em Rússia].
 
Yulia Tymoshenko
Não será surpresa que, algum dia, se os escritórios doPartido Batkivshchyna da Ucrânia [partido de Yulia Tymoshenko] forem revistados, encontrem-se ali excertos desse manual de “o que fazer”, redigido pelos norte-americanos como se fosse algum “relatório”.
 Em 2010, há apenas poucos anos, os autores do Relatório conseguiram “antever” que o Partido Svoboda [ex-Partido Nacional Socialista da Ucrânia; é hoje o mais forte partido da direita na Ucrânia] viria a liderar “protestos populares”; a renúncia do Primeiro-Ministro Nikolay Azarov e a ascensão de Arseniy Yatsenyuk [em 2009, criara a “Frente para a Mudança”]… Conforme se lê no Relatório, haveria ataques antissemitas contra Yatsenyuk por causa de sua nacionalidade, mas seria fácil descartá-los como “ridículos”.
 
Stepan Bandera
O cenário que o Relatório pinta prevê que o Partido Svoboda seria deixado de lado, ultrapassado pelos militantes do Trizub [o tridente: Deus, no céu e na terra], organização que reverencia a chamada Organização dos Nacionalistas Ucranianos liderada por Stepan Bandera [Em 2011, os partidos comunistas ucranianos pediram ao Parlamento (Rada) o banimento de todas essas organizações de extrema direita, denunciadas como organizações nazistas]. No Relatório “Ucrânia-2020”, toda essa gente aparece descrita como “elementos moderados”.
 Por tudo isso, conforme o Relatório “prevê”, logo se aprofundaria o processo de “ucranização”, o que provocaria “elementos russos”. O Relatório recomenda a privatização dos ativos estratégicos, portas abertas para investidores ocidentais, créditos assegurados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, pondo fim aos “tabus soviéticos” contra a venda de terras a estrangeiros; e o envolvimento supervisionado da China, que é apresentada como inimigo da União Europeia e concorrente da Rússia, o que levaria à expulsão da Frota do Mar Negro do porto de Sebastopol; e mudança na Constituição da Ucrânia, para converter o país em república parlamentarista ou presidencial-parlamentarista. (Mas o Relatório não explica quem votaria para eleger Yatsenyuk nas eleições presidenciais…).
 Cenário Um: Fragmentação do Autoritarismo FracassadoPara os autores do Relatório, essa opção é desvantajosa para os EUA e para a Federação Russa.
 Cenário Dois: Consenso Nacional Conduzindo a Reformas. É a melhor opção, do ponto de vista de Washington e da União Europeia.
 Cenário Três: Autoritarismo Estratégico. Aqui, o Relatório “prevê” um desenvolvimento de eventos pelo qual o presidente Yanukovych mantém o poder. É uma espécie de “Plano B”. Neste cenário, o presidente Yanukovych terá de curvar-se, para manter a legitimidade. Terá de fazer todos os tipos de concessões a “investidores estrangeiros”, implementar reformas constitucionais e estruturais, aceitar empréstimos que lhe ofereçam para suavemente empurrar a Rússia para bem longe da esfera de seus interesses estratégicos.
 
Viktor Yanukovich, Presidente da Ucrânia
As forças externas já criaram o caos na Ucrânia, mas não se sabe se conseguirão controlá-lo. Yanukovych já foi avisado de que pode ter o destino de Milosevic na Sérvia ou de Gaddafi na Líbia. A “comunidade internacional” presunçosamente acredita que os nacionalistas ucranianos hoje inflados serão, na sequência, facilmente domesticáveis.
 Haverá dinheiro para os democratas pró-ocidente, sob a condição de que implementem as “reformas” acima mencionadas (questão sobre a qual a oposição “confiável” já está conversando. E, sobre isso, Yatsenyuk lembrou recentemente o Plano Marshall).
 O Relatório considera a história da Aliança do Atlântico Norte e várias vezes menciona o Plano Marshall, para o caso da Ucrânia, que seria como “duas metades da mesma noz”.
 Mas depois da 2ª Guerra Mundial, os EUA não garantiram à Europa arruinada um empréstimo gratuito: houve acordos de natureza semicolonial que incluíram instalar ali “armas secretas da OTAN”. E não será o Pravy Sektor (aliança dos grupos de mais extrema direita), mas essas estruturas da OTAN, que desempenharão a função de “mão de ferro” que levará a Ucrânia à integração com a Europa e os EUA.
 ***
Washington está diante do risco de novos fracassos de diplomacia, que ferem a imagem do país no exterior. É hora de perguntar em que foram consumidos $5 bilhões de dólares dos contribuintes norte-americanos.
 
Victoria “Fuck European Union” Nuland
quantia é a que informaram a secretária-assistente de Estado, Victoria Nuland e o vice-secretário de Estado do Gabinete de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, em audiência no Senado, em janeiro, ao falarem dos sucessores ucranianos dos que apoiavam as ideias de Stepan Bandera e Roman Shukhevych.
Os mesmos ditos moderados do Trezub nomeados em honra de Stepan Bandera estiveram sob constante supervisão pelos centro euroatlânticos.
 Abra aleatoriamente qualquer página do jornal Ukrainian Weekly (editado nos EUA). Ali se veem pulular as ideias dos colaboracionistas ucranianos. O jornal mantém escritórios em Kiev. Se se lê, veem-se muitas coisas interessantes sobre os “compromissos” passados dos que se “manifestam” nas ruas da Maidan Nezalezhnosti [Praça Independência] e na Rua Grushevsky.
 
Dmytro Yarosh
Desde que Victor Yanukovych foi eleito presidente da Ucrânia, o jornal Ukrainian Weekly só noticia e destaca as atividades do Pravy Sektor, histórias sobre tortura de prisioneiros na Ucrânia contemporânea; clama por apoio aos “patriotas ucranianos” que destroem monumentos da era soviética. Oferece também farta informação elogiosa sobre Dmytro Yarosh, líder militante da extrema direita, do Pravy Sektor, e sobre o coordenador do Pravy Sektor(apelido, Pilipas) Andrei Tarasenko, que anda contando histórias sobre treinamento de militantes (jovens que nunca prestaram serviço militar, agora ensinados a “virar homens”, aprendendo a usar punhais e armas de ar comprimido). O mesmo jornal oferece também informação sobre outros “bravos nacionalistas” e modos para conter “a intervenção russa”. E o jornal ainda traz recomendações de “revolucionários sérvios”, que contam como derrubaram “ditadores”.
 Um pouco antes, as edições de Ukrainian Weekly viviam cheias de histórias de fazer gelar o sangue, sobre intrigas entre comunistas e Moskali, termo ucraniano depreciativo para “russos”, e sobre o Golodomor – o genocídio organizado por russos, para exterminar a população ucraniana.
 É uma vergonha que, sem contar com informação de fonte independente, a diplomacia norte-americana sirva-se desse tipo de fonte para, a partir disso, construir políticas para a Ucrânia.
 
Zbigniew Brzezinski
A arrogância da maioria dos diplomatas e congressistas norte-americanos não surpreende mais ninguém. Em janeiro, durante audiência para discutir a Ucrânia, até alguém já tão entrado em anos como Zbigniew Brzezinski ainda lá estava a dar “aulas” aos senadores, “ensinando” que, antes de os russos aparecerem os ucranianos já acalentavam o sonho de unir-se à Europa; e por isso que o sonho dos ucranianos tem de ser apoiado. Depois de esse sonho realizado, lança-se uma “reação Dominó”, e a multinacional Rússia seguirá exatamente a mesma boa trilha que a levará a se tornar membro da OTAN!
 Os dois filhos de Zbigniew Brzezinski mantêm-se muito próximos da OTAN. Ian Brzezinski é membro Senior Fellow do International Security Program e faz parte do Grupo de Conselheiros Estratégicos do Conselho do Atlântico. E Mark Brzezinski, advogado, trabalhou para o Conselho de Segurança Nacional do presidente Clinton, como especialista em Rússia e Sudeste Europeu; foi sócio de McGuire Woods LLP; e é hoje embaixador dos EUA na Suécia. Muito ativo na venda de aviões militares.
Por que Victoria Nuland – que se tornou presença obrigatória em todas as páginas e blogs humorísticos na Ucrânia e na Rússia, por ter andado distribuindo coelhinhos e sanduíches na Praça Maidan – apareceu em Kiev outra vez, na véspera do início dos Jogos de Inverno de Sochi, e pôs-se a dizer que os que estivessem insatisfeitos com “o regime Yanukovych” ou voltassem à ideia da integração com a Europa ou tomassem “o caminho da guerra”?
 É onde a mentalidade de clã – velho carrasco da política externa dos EUA – entra em cena.
 O clã ao qual pertence Victoria Nuland não é menos influente que o de Brzezinski. O marido, Robert Kagan, é conhecido intelectual dedicado a temas de política externa, analista e colunista de grandes jornais. Sente-se muito a vontade entre os “especialistas” ativos nos mais importantes think-tanks norte-americanos e tem acesso aos mais influentes veículos da imprensa-empresa norte-americana. Kagan muito se empenhou na operação militar na Líbia. Trabalhou muito, também, na oposição a Obama-candidato, como assessor de Mitt Romney. Foi quem instruiu Romney a declarar que a Rússia seria o inimigo geopolítico número 1 dos EUA. Seu irmão, Fred Kagan, é autor de inúmeros livros e artigos publicados em todo o mundo.
 A carreira de Victoria Nuland sempre seguiu de perto o colapso da União Soviética: ela estava, então, em Moscou. E testemunhou as “mudanças tectônicas” da política externa dos EUA a partir daquele momento. Foi ela que mobilizou todas as suas habilidades para encontrar pretextos para a intervenção no Afeganistão, invocando o artigo 5º do Tratado de Washington, em 2001, quando os EUA invadiram o Afeganistão. Depois, foi representante dos EUA no Conselho do Atlântico Norte. A experiência dela na OTAN está sendo mobilizada novamente agora – o coração a está arrastando de volta para o Leste europeu…
POSTADO POR CASTOR FILHO_

WikiLeaks: Conheça o acordo (secreto) TPP(Trans-Pacific Partnership Agreement)

15 nov

Ontem, 13/11/2013, WikiLeaks distribuiu a versão já negociada, secreta, de todo o capítulo de Direitos de Propriedade Intelectual do Acordo “Parceria Trans-Pacífico”.

Esse acordo TPP é o mais amplo tratado econômico da história, envolvendo nações que representam mais de 40% do PIB mundial.
A façanha de WikiLeaks, que consegue divulgar o texto agora, acontece antes da reunião decisiva dos principais negociadores do tratado, marcada para Salt Lake City, Utah, nos dias 19-24/11/2013.
O capítulo que WikiLeaks distribui agora é talvez o mais controverso de todo o Acordo, dados seus efeitos de amplo alcance no campo dos medicamentos, publicações, serviços de internet, liberdades civis e patentes biológicas
 
Julian Assange
IMPORTANTE: O documento agora distribuído inclui as posições de negociação e desacordos entre os 12 estados membros potenciais signatários do acordo.
 O Acordo da Parceria Trans-Pacífico está sendo negociado antes de outro acordo igualmente secreto entre EUA e União Europeia, o “pacto TTIP” (Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership]), para o qual o presidente Obama iniciou contatos com a União Europeia em janeiro de 2013. Somados, esses dois pactos comerciais, TPP e TTIP cobrirão mais de 60% do PIB mundial.
 Nas palavras do editor-chefe de WikiLeaks, Julian Assange,
Se implantado, o regime de propriedade intelectual da “Parceria Trans-Pacífico” atropelará os direitos individuais e a livre expressão, além dos direitos intelectuais ecreative commons. Se você lê, escreve, publica, pensa, ouve, dança, canta ou inventa; se você produz ou consome comida; se você está doente ou pode algum dia adoecer, você já está na linha de fogo e sob a mira da Parceria Trans-Pacífico. Julian Assange
Os estados que estão negociando o “pacto” trans-pacífico são EUA, Japão, México, Canadá, Austrália, Malásia, Chile, Cingapura, Peru, Vietnã, Nova Zelândia e Brunei.
Leia a íntegra deste Press Release (em inglês)

Secret Trans-Pacific Partnership Agreement (TPP)

English | Spanish

Today, 13 November 2013, WikiLeaks released the secret negotiated draft text for the entire TPP (Trans-Pacific Partnership) Intellectual Property Rights Chapter. The TPP is the largest-ever economic treaty, encompassing nations representing more than 40 per cent of the world’s GDP. The WikiLeaks release of the text comes ahead of the decisive TPP Chief Negotiators summit in Salt Lake City, Utah, on 19-24 November 2013. The chapter published by WikiLeaks is perhaps the most controversial chapter of the TPP due to its wide-ranging effects on medicines, publishers, internet services, civil liberties and biological patents. Significantly, the released text includes the negotiation positions and disagreements between all 12 prospective member states.

The TPP is the forerunner to the equally secret US-EU pact TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), for which President Obama initiated US-EU negotiations in January 2013. Together, the TPP and TTIP will cover more than 60 per cent of global GDP. Both pacts exclude China.

Since the beginning of the TPP negotiations, the process of drafting and negotiating the treaty’s chapters has been shrouded in an unprecedented level of secrecy. Access to drafts of the TPP chapters is shielded from the general public. Members of the US Congress are only able to view selected portions of treaty-related documents in highly restrictive conditions and under strict supervision. It has been previously revealed that only three individuals in each TPP nation have access to the full text of the agreement, while 600 ’trade advisers’ – lobbyists guarding the interests of large US corporations such as Chevron, Halliburton, Monsanto and Walmart – are granted privileged access to crucial sections of the treaty text.

The TPP negotiations are currently at a critical stage. The Obama administration is preparing to fast-track the TPP treaty in a manner that will prevent the US Congress from discussing or amending any parts of the treaty. Numerous TPP heads of state and senior government figures, including President Obama, have declared their intention to sign and ratify the TPP before the end of 2013.

WikiLeaks’ Editor-in-Chief Julian Assange stated: “The US administration is aggressively pushing the TPP through the US legislative process on the sly.” The advanced draft of the Intellectual Property Rights Chapter, published by WikiLeaks on 13 November 2013, provides the public with the fullest opportunity so far to familiarise themselves with the details and implications of the TPP.

The 95-page, 30,000-word IP Chapter lays out provisions for instituting a far-reaching, transnational legal and enforcement regime, modifying or replacing existing laws in TPP member states. The Chapter’s subsections include agreements relating to patents (who may produce goods or drugs), copyright (who may transmit information), trademarks (who may describe information or goods as authentic) and industrial design.

The longest section of the Chapter – ’Enforcement’ – is devoted to detailing new policing measures, with far-reaching implications for individual rights, civil liberties, publishers, internet service providers and internet privacy, as well as for the creative, intellectual, biological and environmental commons. Particular measures proposed include supranational litigation tribunals to which sovereign national courts are expected to defer, but which have no human rights safeguards. The TPP IP Chapter states that these courts can conduct hearings with secret evidence. The IP Chapter also replicates many of the surveillance and enforcement provisions from the shelved SOPA and ACTA treaties.

The consolidated text obtained by WikiLeaks after the 26-30 August 2013 TPP meeting in Brunei – unlike any other TPP-related documents previously released to the public – contains annotations detailing each country’s positions on the issues under negotiation. Julian Assange emphasises that a “cringingly obsequious” Australia is the nation most likely to support the hardline position of US negotiators against other countries, while states including Vietnam, Chile and Malaysia are more likely to be in opposition. Numerous key Pacific Rim and nearby nations – including Argentina, Ecuador, Colombia, South Korea, Indonesia, the Philippines and, most significantly, Russia and China – have not been involved in the drafting of the treaty.

In the words of WikiLeaks’ Editor-in-Chief Julian Assange, “If instituted, the TPP’s IP regime would trample over individual rights and free expression, as well as ride roughshod over the intellectual and creative commons. If you read, write, publish, think, listen, dance, sing or invent; if you farm or consume food; if you’re ill now or might one day be ill, the TPP has you in its crosshairs.”

Current TPP negotiation member states are the United States, Japan, Mexico, Canada, Australia, Malaysia, Chile, Singapore, Peru, Vietnam, New Zealand and Brunei.

Leia a íntegra do capítulo do pacto TPP (em inglês) e/ou um resumo emespanhol)

Secret Trans-Pacific Partnership Agreement (TPP)

Today, 13 November 2013, WikiLeaks released the secret negotiated draft text for the entire TPP (Trans-Pacific Partnership) Intellectual Property Rights Chapter. The TPP is the largest-ever economic treaty, encompassing nations representing more than 40 per cent of the world’s GDP. The WikiLeaks release of the text comes ahead of the decisive TPP Chief Negotiators summit in Salt Lake City, Utah, on 19-24 November 2013. The chapter published by WikiLeaks is perhaps the most controversial chapter of the TPP due to its wide-ranging effects on medicines, publishers, internet services, civil liberties and biological patents. Significantly, the released text includes the negotiation positions and disagreements between all 12 prospective member states.

The TPP is the forerunner to the equally secret US-EU pact TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), for which President Obama initiated US-EU negotiations in January 2013. Together, the TPP and TTIP will cover more than 60 per cent of global GDP. Read full press release here

Faça aqui o download do TPP completo (em inglês)

POSTADO POR CASTOR FILHO

Pepe Escobar: “O nascimento do mundo des-Americanizado”

17 out

É isso. A China decidiu que “basta!” Tirou as luvas (diplomáticas). É hora de construir um mundo “des-Americanizado”. É hora de “uma nova moeda internacional de reserva” substituir o dólar norte-americano.

Está tudo lá, escrito, em editorial da rede Xinhua, saído diretamente da boca do dragão. E ainda estamos em 2013. Apertem os cintos – especialmente as elites em Washington. Haverá fortes turbulências.
Longe vão os dias de Deng Xiaoping de “manter-se discreto”. O editorial de Xinhua mostra, em formato sintético, a gota d’água que fez transbordar o copo do dragão: o atual “trancamento” (shutdown) nos EUA. Depois da crise financeira provocada por Wall Street, depois da guerra do Iraque, um mundo “desentendido”, não só a China, quer mudança.
Esse parágrafo não poderia ser mais explícito:
Sobretudo, em vez de honrar seus deveres como potência liderante responsável, uma Washington interessada só em si mesma abusa de seu status de superpotência e gera caos ainda mais profundo no planeta, disseminando riscos financeiros para todo o mundo, instigando tensões regionais e disputas territoriais, e guerreando guerras ilegítimas, sob o manto de deslavadas mentiras.
 
A solução, para Pequim, é “des-Americanizar” a atual equação geopolítica – a começar por dar voz mais ativa no FMI e no Banco Mundial a economias emergentes e ao mundo em desenvolvimento, o que deve levar à “criação de uma nova moeda internacional de reserva, a ser criada para substituir o dólar norte-americano hoje dominante”.
Observe-se que Pequim não advoga a sumária extinção do sistema de Bretton Woods – não, pelo menos, já; quer, isso sim, mais poder para decidir. Parece razoável, se se considera que a China tem peso apenas ligeiramente superior ao da Itália, no FMI. A “reforma” do FMI – ou coisa parecida – está em andamento desde 2010, mas Washington, como seria de esperar, vetou todas as alterações substanciais, até agora.

Quanto ao movimento para afastar-se do dólar norte-americano, também já está em andamento, com graus variados de velocidade, especialmente no que diga respeito ao comércio entre os países BRICS, as potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que já está sendo feito, hoje, predominantemente, nas respectivas moedas. O dólar norte-americano está lentamente, mas firmemente, sendo substituído por uma cesta de moedas.
A “des-Americanização” também já está em curso. Considere-se, por exemplo, a ofensiva de charme dos chineses pelo Sudeste Asiático, que está acentuadamente começando a inclinar-se na direção de mais ação com principal parceiro econômico daqueles países, a China. O presidente Xi Jinping da China, fechou vários negócios com a Indonésia, a Malásia e também com a Austrália, apenas umas poucas semanas depois de ter fechado outros vários negócios com os “-stões” da Ásia Central.
 
As novas Rotas da Seda (Marítima em azul e Terrestres – de ferro – em laranja)
A empolgação chinesa com promover a Rota da Seda de Ferro alcançou nível de febre, com as ações das empresas chinesas de estradas de ferro subindo à estratosfera, ante o projeto de uma ferrovia de trens de alta velocidade até e através da Tailândia já virando realidade. No Vietnã, o premiê chinês Li Keqiang selou um entendimento segundo o qual querelas territoriais entre dois países no Mar do Sul da China não interferirão com mais e novos negócios. Pode-se chamar de “pivotear-se” para a Ásia.
Todos a bordo do petroyuan
 
Todos sabem que Pequim possui himalaias de bônus do Tesouro dos EUA – cortesia daqueles massivos superávits acumulados ao longo dos últimos 30 anos, mais uma política oficial de manter lenta, mas segura, a apreciação do Yuan.
E Pequim, simultaneamente, age. O Yuan está também lentamente, mas seguramente, se tornando mais conversível nos mercados internacionais. (Semana passada, o Banco Central Europeu e o Banco do Povo da China firmaram acordo para uma troca de moeda (orig. swap) de US$45-$57 bilhões, que aumentará a força internacional do Yuan e melhorará seu acesso ao comércio financeiro na área do euro).
A data não oficial para a total conversibilidade do Yuan cairá em algum ponde entre 2017 e 2020. A meta é clara: afastar-se de qualquer respingo da dívida dos EUA, o que implica que, no longo prazo, Pequim está-se afastando desse mercado – e, assim – tornando muito mais caro, para os EUA, tomarem empréstimos. A liderança coletiva em Pequim já fechou posição sobre isso e está agindo nessa direção.
 
Cesta de moedas substituirá o US Dollar
O movimento na direção da plena conversibilidade do Yuan é tão inexorável quanto o movimento dos BRICS na direção de uma cesta de moedas que, progressivamente, substituirá o dólar norte-americano como moeda de reserva. Até lá, mais adiante nessa estrada, materializa-se o evento cataclísmico real: o advento do petroyuan – destinado a ultrapassar o petrodólar, tão logo as petromonarquias do Golfo vejam de que lado ventam os ventos históricos. Então, o bate-bola geopolítico será outro, completamente diferente.
Pode ser processo longo, mas é certo que o famoso conjunto de instruções de Deng Xiaoping está sendo progressivamente descartado:
Observe com calma; proteja sua posição; lide com calma, com as questões; esconda nossas capacidades e aposte no nosso tempo; seja discreto; e jamais reclame a liderança.
 
Uma mistura de cautela e escamoteamento, baseada na confiança que os chineses têm na história e, levando em consideração uma – grave ambição de longo prazo – era Sun Tzu clássica. Até aqui, Pequim andou devagar; deixando que o adversário cometa erros fatais (e que coleção de erros de multi-trilhões de dólares…); e acumulando “capital”.
Agora, chegou a hora de capitalizar. Em 2009, depois da crise financeira provocada por Wall Street, ainda havia chineses que resmungavam contra “o mau funcionamento do modelo ocidental” e, em suma, contra o “mau funcionamento da cultura ocidental”.
 
Beijing ouviu [Bob] Dylan (legendado em mandarim?) e concluiu que, sim, the times they-are-a-changing [os tempos estão mudando]. [2] Sem que se veja nem sinal de avanço social, econômico e político – o “trancamento” [shutdown] nos EUA seria outra perfeita ilustração, se se precisasse de ilustração – de que os EUA deslizam tão inexoravelmente quanto a China, pena a pena, vai abrindo as asas para comandar a pós-modernidade do século 21.
Que ninguém se engane: as elites de Washington lutarão contra, como se estivessem ante a pior das pragas. Mesmo assim, a intuição de Antonio Gramsci precisa ser atualizada: a velha ordem morreu, e a nova ordem está um passo mais perto de nascer.
15/10/2013, [*] Pepe EscobarAsia Times Online – The Roving Eye

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network Televison Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blogredecastorphoto.
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POSTADO POR CASTOR FILHO 

General Vo Nguyen Giap, 1911-2013 (in memoriam)

6 out

20/8/2003, [*] Pepe EscobarAsia Times Online – The Roving Eye

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Incluímos também este excelente vídeo-documentário, que se segue, realizado por Sílvio Tendler com o general Giap em 2011
De Hanói. Assim como em apenas poucos anos os norte-americanos perderam os corações e mentes dos sul-vietnamitas, eles perderam também, em apenas poucas semanas, os corações e mentes da maioria dos iraquianos – o que, em resumo, significa perder a guerra, seja qual for o resultado estratégico final. Negativas topográficas – aqui é o deserto da Mesopotâmia, não a selva da Indochina – não funcionam, nem funcionam as negativas que dizem que os iraquianos não são tão politizados quanto eram, pelo comunismo, os vietnamitas. Nada disso sequer se aproxima do que interessa: como aconteceu no Vietnã, o que acontece agora no Iraque tem tudo a ver com patriotismo e nacionalismo.
 
Tariq Aziz
Como dizia, antes da invasão norte-americana, o ex-vice-premiê do Iraque, Tariq Aziz, “que nossas cidades sejam nossos pântanos e nossos prédios, nossas selvas”. Mohammed Saeed al-Sahaf, codinome “Ali Cômico” [orig.Comical Ali], o inesquecível ex-ministro da Informação, costumava dizer que o Iraque seria “outra Indochina”.
A estratégia de guerra de guerrilhas contra o que se considerava uma inevitável invasão norte-americana foi aperfeiçoada no Iraque durante anos. E o estrategista-professor não era general, nem assírio, nem mesopotâmico, mas o legendário Vo Nguyen Giap, general vietnamita que coordenou as vitórias contra o colonialismo francês e a intromissão dos EUA.
 
“Ali Cômico”
Os estrategistas iraquianos – de oficiais do exército a membros do Partido Ba’ath – sempre foram aplicados estudiosos da Guerra do Vietnã, que no Vietnã é chamada “Guerra Americana”. Além disso, a população iraquiana urbana é muito bem educada e analisa os eventos com profundo senso histórico – tanto quanto os vietnamitas. Os iraquianos não são ingênuos ou enganáveis a ponto de acreditarem no que dizem as forças de ocupação, que se trataria de “construir uma nação” – e não veem nenhum resultado tangível desde a “queda” de Bagdá, dia 9/4 [de 2003]. Desde o início – a primeira gigantesca manifestação popular partiu da mesquita Abu Hanifa em Bagdá, dia 18/4 [de 2003] –, a “libertação” do povo iraquiano pelos EUA foi vista por muitos setores no Iraque como guerra de libertação nacional, uma “guerra popular” no sentido de Giap, contra um agressor imperialista.
 
Está tudo escrito em Vo Nguyen Giap – Selected Writings,[1] seleção de escritos dos anos 1969-91 publicada por Gioi Editions em Hanói: a estratégia e as táticas de uma guerra de libertação nacional e como foi organizada “a guerra popular contra a agressão norte-americana”. O Partido Ba’ath e os Guardas Republicanos não implementaram o que haviam aprendido – com os principais comandantes militares, depois de uma campanha de intimidação preventiva, afinal comprados com dinheiro do Pentágono e promessas de refúgio seguro (ver O negócio em Bagdá, 25/4[2003]). Mas basicamente, a mesma estratégia está sendo agora implementada pelos vários grupos que constituem hoje a resistência nacional iraquiana.
Em todos os casos, sempre se trata de confundir, atormentar e desmoralizar exército muitas vezes maior. Veteranos da Guerra Americana em Hanói – que se reúnem diariamente às margens do Lago Hoam Kien para conversar sobre o passado e o presente – dizem que sempre se tratou de consciência nacional, patriotismo e tradições locais: segundo Giap, “o amor à terra natal, associado ao espírito democrático e ao amor ao socialismo”. No Iraque o ímpeto é o mesmo – com “amor ao Islã” substituindo o “amor ao socialismo”. O nacionalismo iraquiano e o sentimento anti-imperialista é tão forte aqui quanto foi no Vietnã.
Giap escreveu que: “(…) devem-se criar as condições para atacar o inimigo por todos os meios adequados e as forças urbanas revolucionárias devem ser coordenadas com as áreas rurais”: hoje, significa atacar em Bagdá e no cinturão sunita (já avançando na direção do sul sunita). O passo seguinte da resistência iraquiana deve ser, aplicando-se Giap, “combinar forças armadas e forças políticas, insurreição armada e guerra revolucionária”. Implica uma estratégia concertada do cinturão sunita aliado a grupos xiitas, muitos dos quais já adotaram uma posição de “esperar para ver”, de mal disfarçada hostilidade contra o regime pró-consular norte-americano.
 
Giap é claro e direto: “A estratégia da guerra popular é estratégia de guerra prolongada”. A resistência iraquiana segue Giap, ao pé da letra. A ideia não é que não possa haver saddamistas fiéis, por trás dos ataques contra os norte-americanos: se houver, serão apenas um item a mais, na mesma equação. Giap escreveu que os norte-americanos e o governo fantoche do Vietnã do Sul são apoiados por “uma repressão brutal e uma máquina de coerção, e aplicam contra nossos compatriotas uma política de barbárie fascista”. É exatamente assim que a resistência – e cada dia mais o próprio povo do Iraque – veem os soldados norte-americanos, cada dia mais apavorados e desmoralizados, atirar contra mulheres e crianças inocentes e, até, contra jornalistas estrangeiros que não conheçam. Contra a “máquina de repressão”, Giap recomenda “guerrilha e milícias de autodefesa” em zonas estratégicas – exatamente o que a resistência iraquiana tem providenciado.
O Iraque hoje [2003] já é como o Vietnã depois da Ofensiva do Tet de 1968. Os norte-americanos poderiam ter deixado o Vietnã a qualquer momento – mas teria significado vexame, no sentido asiático, e admitir a derrota. Mas, sim, foi o que aconteceu quando aquele último helicóptero decolou da embaixada dos EUA em Saigon, em abril de 1975. Ainda que tivessem alguma intenção de fazê-lo, o que não têm, a Casa Branca e o Pentágono – apesar de já terem declarado vitória – simplesmente não podem sair do Iraque [é verdade ainda hoje, dez anos depois! (NTs)]. Eles sabem que, no instante em que os EUA saírem de lá, um governo democraticamente eleito, de maioria xiita e antiamericano assumirá o poder (já aconteceu [2])– assim como um governo comunista antiamericano assumiu o poder no Vietnã. Se os EUA permanecerem no Iraque “por anos” – como diz o Pentágono – a questão será sempre a mesma: quantos sacos de cadáveres serão necessários, antes de que a opinião pública norte-americana exija a retirada?
Os ataques da resistência iraquiana são executados por grupos pequenos, quase todos bem treinados, que em geral conseguem safar-se sem baixas. Seguem o ensinamento clássico de Giap: desmoralizar os soldados dos EUA e, ao mesmo tempo, aumentar o sofrimento já insuportável da população, para, assim, manter vivo o ressentimento contra as forças de ocupação. Asia Times Online tem ouvido vários ex-altos oficiais do exército de Saddam – agora desempregados – que têm sido convidados a unir-se à resistência; respondem, invariavelmente, que, sim, acabarão por se unir à resistência, “se os EUA continuarem a nos humilhar”. Outros estão financiando pequenos grupos de guerrilheiros, ao custo de milhares de dólares. A recompensa para qualquer um que lance um foguete contra veículo de combate norte-americano é de cerca de US$350 – o suficiente para comprar o que é hoje um sonho de consumo, encontrável no mercado parcialmente livre em Bagdá: um aparelho de televisão em cores conectado por satélite.
No Vietnã, a resistência foi organizada pelo Partido. No Iraque, é organizada pelas tribos. Chefes de tribos – praticamente todos eles defensores de Saddam – estão já próximos do fim do “período de graça” que concederam aos norte-americanos. A resistência conta tanto com ex-oficiais do exército e membros do ex-Partido Ba’ath, como com jovens desempregados que respondem ao apelo de clérigos sunitas, seus chefes tribais; e, em termos mais gerais, com o patriotismo árabe.
A resistência pode contar, em termos potenciais, com 600 mil indivíduos, que foram desmobilizados pelo regime pró-consular norte-americano. Com mais de 20 anos de guerra, praticamente toda a população masculina do Iraque já está militarizada. Mais de 7 milhões de armas foram distribuídas pelo regime de Saddam Hussein. Milhões de foguetes e morteiros foram abandonados, quando o regime entrou em colapso. A organização da luta armada no Iraque – no sentido de Giap – pode ainda engatinhar, mas os resultados são cada dia mais devastadores. A “guerra popular” se aprofunda: mísseis terra-ar lançados contra aviões de transporte; sabotagem no oleoduto Kirkuk-Ceyhan. O Comando Central dos EUA admite que o número de ataques já chega a 25 ataques por dia.
Esses mujahideen sunitas iraquianos – contraparte dos mujahideen sunitas afegãos que lutaram na jihad antiamericana no Afeganistão – contam com a ativa cumplicidade da população local, exatamente como no Vietnã. Tudo se encaminha para uma “guerra popular” no sentido de que todos, em cada bairro ou comunidade, sabe quem organizou cada ataque, mas nada informam aos invasores. Mas e quanto aos vídeos em que Saddam incita a uma jihad contra os norte-americanos? Saddam não é Ho Chi Minh – líder legítimo de uma luta de libertação nacional. Não há no Iraque muita nostalgia de Saddam. Nem os ex-oficiais do exército têm saudades – ou, vale registrar, mostram-se muito otimistas quanto ao sucesso dos guerrilheiros. Eles sabem que, mais uma vez, o povo iraquiano será a maior vítima – com os norte-americanos obcecados, sobretudo, com a própria segurança, não com a segurança do povo do Iraque. Mas, mesmo assim, muitos ex-oficiais mostram-se prontos a unir-se à resistência.
 
McNamara encontra  O General Giap em 1995
Em 1995, no 20º aniversário do fim da Guerra Americana (Vietnã), o ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara teve um encontro com o legendário Giap em Hanói. O velho guerreiro disse-lhe que os EUA entraram naquela guerra sem saber coisa alguma da longa e complexa história do Vietnã, de sua cultura e do espírito de luta contra ondas de invasores. McNamara teve de concordar. Os EUA saíram do Vietnã cobertos de vergonha e humilhados. No Iraque, os empresários bushistas esperam levar, pelo menos, o petróleo. E os jovens soldados norte-americanos estão morrendo exatamente por isso: a Ordem Executiva n. 13.303, assinada por George W Bush em maio passado [2003].
A Ordem Executiva n. 13.303 declara que, no que tenha a ver com “todo o petróleo e derivados no Iraque, e interesses associados a esses produtos”, “todos os contratos, sentenças, decretos, ordens executivas, guarda, produção e todos os processos judiciais ficam proibidos, e devem ser considerados nulos e cancelados”. Em outras palavras, segundo Jim Vallette, do Instituto de Estudos Políticos em Washington, “o decreto de Bush, na realidade, declarou que todo o petróleo do Iraque passava a ser propriedade definitiva das empresas de petróleo dos EUA”.
 
A resistência iraquiana conhece perfeitamente os termos da Ordem Executiva n. 13.303 – e por isso vive a sabotar e continuará sabotando o crucial oleoduto Kirkuk-Ceyhan. Quanto mais os iraquianos sejam obrigados a esperar que o dinheiro do petróleo volte a correr na direção do Iraque e ajude a reconstruir o país, mais o governo de transição imposto pelos EUA perdera sua já fraquejante credibilidade. De tudo isso, a população iraquiana só sabe, com certeza, que a gasolina é vendida a preços altíssimos sempre no mercado negro; e que, nas casas, só há eletricidade durante três horas por dia.
Giap também escreveu que a resistência no Vietnã tinha de “esmagar o projeto maquiavélico do imperialismo norte-americano, de fazer vietnamitas combaterem contra vietnamitas, de alimentarem guerra com guerra”. Os norte-americanos estão cometendo o mesmo erro no Iraque.
Os EUA foram ao Vietnã, dentre outros fatores, para reforçar a própria credibilidade simbólica e exibir novas tecnologias militares. No Iraque, a demonstração teatral foi, sem dúvida, poderosa, mas a credibilidade simbólica está sendo reduzida a cinzas. No Vietnã, os EUA quiseram fazer uma demonstração de como esmagar regimes revolucionários nacionais, no sempre depreciativamente ainda chamado Terceiro Mundo. Falharam miseravelmente. No Iraque, os EUA sonharam com mostrar como “corrigir” regimes ex-fregueses que se desencaminhem. Também estão falhando miseravelmente – com as condições ali cada dia mais maduras para uma guerra popular que leve ao surgimento de mais um regime nacional revolucionário.
A ideia do n. 2 do Pentágono, Paul Wolfowitz, para uma ordem política e econômica no Iraque é em tudo semelhante ao que os EUA queriam no Vietnã do Sul – e semelhante também ao que os EUA estavam forçando em todo o Terceiro Mundo nos anos 1950s e 1960s. No Vietnã, os EUA tinham o poder e o controle de um governo fantoche (do Vietnã do Sul). Mas falharam completamente e não conseguiram criar sistema político, econômico e ideológico viável, capaz de resistir à revolução dos vietnamitas. Implica que a derrota não militar dos EUA foi ainda mais crucial que o impasse militar em que se meteram.
O mesmo pode estar acontecendo no Iraque. Wolfowitz e companhia não estão, não, de modo algum, interessados em alguma democracia, porque sabem que em eleições livres, justas e democráticas, o Iraque se encaminhará para governo xiita, provavelmente regido pela lei da Xaria, e com absoluta certeza antiamericano [como hoje sabemos que aconteceu. NTs]. No Iraque, como no Vietnã, os EUA só implantaram um sistema militar de fato. Esse sistema deverá controlar – ou, eufemisticamente, “supervisionar” – a estrutura política e, mais importante, como Asia Times Online já demonstrou, a nova ordem econômica subsidiada pelos EUA. Em todos os sentidos, pelo projeto de Wolfowitz, o Iraque deve ser convertido em colônia dos EUA.
No Vietnã, os EUA não foram capazes de converter seu descomunal poder de fogo em algum tipo de sedução política. Dialéticos refinados, os veteranos da Guerra Americana, hoje, em Hanoi, dizem que, de tanto bombardear indiscriminadamente o Vietnã, os EUA provocaram trauma psicológico e econômico quase insuperável: desse modo, os EUA jamais conquistarão corações e mentes. Sobre o Iraque, hoje, do qual também falam, dizem que o Pentágono ainda não aprendeu uma lição de importância crucial: é absoluta e completamente impossível abordar com violência uma sociedade complexa, sem provocar corrosões sociais que, na continuidade, sempre levarão ao colapso de qualquer regime fantoche.
Se Washington subestimar a resistência iraquiana, o risco é seu. A resistência está aprendendo depressa, na luta, as lições do Vietnã – onde os comunistas, em guerra longa, derrotaram a maior máquina de guerra que o mundo jamais produzira, e por três razões, como diria Giap: a descentralização, a mobilização de massa e táticas militares de alta mobilidade. Giap articulou um conjunto de manobras políticas, organizacionais e técnicas, para contrabalançar a gigantesca máquina de guerra dos EUA, que pode ser aplicado pelas forças de resistência em qualquer ponto do mundo, especialmente no Iraque [em 2003, ou na Síria, em 2013, por que não? (NTs)].

 
Notas dos tradutores
 
[1] Vo Nguyen GIAP, Guerra do Povo, Exército do Povo, Editora Ulmeiro, s/d. Tradução Manuel Reis Ferreira, Edição e Coordenação José Fortunato, Lisboa. Em Textos Marxistas do sítio Primeira Linha lê-se o prólogo à edição cubana de 1962 escrito por Che Guevara (esp.).
[2] “O primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, foi eleito para um terceiro mandato como presidente do Partido Dawa Islâmico, em eleições das quais participaram inúmeros líderes políticos iranianos, mas que mídia ignorou completamente. Essa eleição é o primeiro passo no processo pelo qual Maliki deve renovar pela terceira vez seu mandato como primeiro-ministro. O Partido Dawa Islâmico é um dos mais antigos partidos religiosos do Iraque. Foi fundado em meados dos anos 1950s, inspirado pelas ideias do conhecido clérigo xiita Muhammad Baqir al-Sadr”. (18/3/2013, “Maliki Reelected as Dawa Head for Third Time”, Mushreq Abbas, Al-Monitor).
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[*] Pepe Escobar
 (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network Televison Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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