Putin vai à caça do Irã de Obama

17 set
Quando Kathleen Troia McFarland, conhecida analista de segurança nacional da rede Fox News, que trabalhou na segurança nacional dos governos Nixon, Ford e Reagan e foi assessora de Henry Kissinger na Casa Branca, escreveu que “quem merece o Prêmio Nobel é Vladimir Putin”, sem dúvida tinha em mente a crise síria.
 
Kathleen T. McFarland
Na 3ª-feira (10/9/2013), McFarland escreveu que:
Numa das mais competentes manobras diplomáticas de todos os tempos, o presidente Putin, da Rússia, salvou o mundo de desastre já quase inevitável.  
Na sequência, narrou a via pela qual a famosa gafe do secretário de Estado John Kerry em Londres ganhou asas, e
(…) a frase leviana foi colhida em pleno voo por Putin, convertida em Proposta Kerry e, depois, em “plano de paz de Obama”.
Se se acompanha seu raciocínio, é fácil ver como, ao longo dessa tumultuada semana, o processo evoluiu de tal modo que, sim, Putin sem dúvida poderia reclamar um Nobel para si.
E interessa observar também um dos destaques da cúpula anual da Organização de Cooperação de Xangai, reunida em Bishkek, Quirguistão, evento que acontecerá à margem do grande encontro, na 6ª-feira: o encontro “bilateral” já agendado entre Putin e o presidente do Irã, o recém-eleito Hassan Rouhani. A reunião Putin-Rouhani em Bishkek é reunião agendada e longamente preparada. Os dois são homens de vasta experiência na diplomacia internacional.
Depois, quando voar de volta para sua estação de trabalho na propriedade de Novo-Ogaryovo, depois de ter sugado os miolos de Rouhani, Putin, na privacidade dos próprios pensamentos, começará a coreografar mais um plano de paz: o Irã.
 
Hassn Rouhani e Vladimir Putin em 13/9/2013
Será a primeira vez que Putin reúne-se com o recém-eleito novo presidente do Irã. A presidência de Rouhani atraiu o interesse mundial, por pressagiar um novo engajamento significativo entre o Irã e os EUA, o que Rouhani tem sinalizado de vários modos, com manifestações de um renovado interesse de Teerã por negociar com o Ocidente – mediante pronunciamentos, indicações para compor seu gabinete ou esperta “linguagem corporal” diplomática. Rouhani prometeu que sua prioridade seria fazer reviver a economia iraniana; para isso, precisa de ambiente internacional mais favorável.
A parte boa é que o governo de Barack Obama percebe as limitações do poderio militar dos EUA, que não intimida e só com grande dificuldade, talvez, conseguiria derrotar o Irã. Mesmo assim, como no caso da Síria, Obama ainda vacila e é incapaz de jogar-se num salto de fé. Aí está cópia perfeita do dilema que ele enfrentou no caso da Síria.
O povo dos EUA, que está fartíssimo de guerras; a pressão dos aliados regionais sempre beligerantes e de seus lobbies nos EUA; um ambiente regional perigoso; um adversário já comprovadamente capaz de retaliar contra alguma agressão; a opinião pública mundial empenhadamente favorável ao diálogo – aí estão todos os ingredientes, claramente postos.
Putin pode ter intuído que é mais que hora de alguém ajudar Obama a decidir-se – ou, mesmo, a seguir objetivamente as suas próprias inclinações naturais.
Como no caso do plano russo para as armas químicas da Síria, já há um projeto russo, que tem dois, quase três anos de existência, à espera, e que bem pode servir de ponto de partida – o Irã abordando de forma mais amigável as preocupações da “comunidade internacional”; e os EUA desmontando, passo a passo, o regime de sanções e permitindo a plena integração do Irã como potência regional.
Os EUA e o Irã estão cuidadosamente testando as intenções um do outro, e qualquer observador esperto dessas três décadas de impasse já percebe que o idioma diplomático está mudando. Os EUA já não se opuseram à inclusão do Irã nas conversações Genebra-2 sobre a Síria.
 
Mohammad Javad Zarif
Também Teerã já tem posição muito nuançada sobre a questão das armas químicas da Síria. Teerã mantém uma linha muito elaborada, segundo a qual, infelizmente, os astutos xeiques do Golfo apanharam Obama numa armadilha. Em extraordinária entrevista à Press TV de Teerã na 4ª-feira, o talentoso ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, disse:
Acho que alguns grupos e pessoas dentro dos EUA, e alguns interesses fora dos EUA, quiseram empurrar o presidente dos EUA – o qual, me parece, já relutava antes – para uma armadilha. E a armadilha, afinal, ele mesmo se criou, infelizmente. A armadilha seria envolvê-lo numa guerra. O pretexto foi o uso de armas químicas, uma questão hipotética, porque ainda não há provas de que o governo sírio tenha usado as tais armas.
O Irã não tardou a manifestar firme apoio ao plano russo sobre as armas químicas da Síria.
Tudo isso posto, o encontro de hoje em Bishkek entre os presidentes da Rússia e do Irã também tem um enquadramento regional. O governo Obama terá de engajar o regime sírio, porque o plano russo já está em andamento e avança para o estágio de plena implementação.
A execução do plano russo obrigará a uma longa e complexa carpintaria. E obriga, definitivamente, a fazer avançar o processo de Genebra-2.
Washington precisou de quatro anos para retirar de território alemão os arsenais de 100 mil armas químicas norte-americanas da guerra fria. Quando a operação começou, em 1986, previa-se um prazo de seis anos para o deslocamento daquele vastíssimo arsenal químico.
Implica dizer que será absoluta e criticamente necessário que as estruturas do estado sírio estejam operantes e disponíveis, para implementar o plano russo. Dito de outro modo, a agenda da “mudança de regime” está cancelada; e seja qual for a transição democrática possível nas atuais condições de guerra civil ela incluirá necessariamente o regime de Bashar al-Assad.
Teerã, é claro, assiste atentamente a tudo isso. A posição firme dos russos sobre a Síria ao longo de toda a crise, desde que os EUA começaram a reunir uma armada no Mediterrâneo leste, certamente impressionou o Irã, para quem qualquer projeto de “mudança de regime” em Damasco sempre teve ecos existenciais.
E é aí que o Irã verá como absolutamente imperativo o renascimento de sua parceria estratégica com a Rússia. Do ponto de vista do Irã, a conexão russa é que será fator “multiplicador de força” quando o país começa a negociar com o grupo “P5+1” (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China “mais” a Alemanha) e diretamente com os EUA.
Rouhani rapidamente levará em conta que, com sua credibilidade como negociador já crescendo aos olhos ocidentais, a sua capacidade para negociar também muito se beneficia com o fortalecimento das relações Irã-Rússia nesse momento.
Mas tango exige dois. Se se olha o passado, a visita de Putin ao Irã, em 2007, aprimeira de um governante do Kremlin desde a visita de Joseph Stalin em 1943, fez subir as esperanças de uma retomada histórica nas relações bilaterais e de um novo gabarito na geopolítica do vasto espaço em que os dois países se sobrepõem na e em torno da Heartland – Ásia Central e o Cáspio, o Cáucaso e o Oriente Médio.
Naquela ocasião, aquelas esperanças levaram a nada. Putin deixou o Kremlin em 2008. Durante o governo de Dmitry Medvedev, depois que apareceu o “reset” de Obama para Rússia e EUA e a questão iraniana passou a ser pauta diária entre as duas potências, o cálculo para as relações russo-iranianas mudou.
Foi quando os grupos pró-ocidente da elite russa ganharam ascendência no Kremlin. Em pouco tempo já havia a disputa sobre se a Rússia cumpriria ou não o contrato para fornecimento de mísseis S-300 ao Irã. A Rússia dizia que agiu conforme as sanções dos EUA a obrigavam a agir, mas Teerã viu ali a “mão oculta” dos EUA e de Israel. Enquanto isso, crescia a cada dia mais complexa “questão nuclear” iraniana, que impôs limites ao engajamento do Irã, dadas as ramificações internacionais.
É muito possível e razoável supor que, diferente de Medvedev, talvez Putin já esteja agudamente consciente de que o Irã é o que os geoestrategistas norte-americanos chamariam de “estado pivô” – com potencial para virar o jogo, de um lado do campo para outro.
 
Mahmud Ahmadinejad
É difícil supor que não tivesse passado pela cabeça de Putin que o ex-presidente Mahmud Ahmedinejad já era “pato manco” quando os dois se encontraram no Kremlin em julho, durante a reunião de cúpula do Cáspio. Putin mergulhou entusiasmado em discussões substantivas sobre modos de reviver e fortalecer a aliança russo-iraniana, incluindo a construção, pelos russos, de uma segunda usina nuclear no Irã.
Assim também Teerã, com certeza, anotou a imensa diferença entre os modos como os russos abordaram a agenda de mudança de regime na Líbia (março 2011) e na Síria hoje.
Paradoxalmente, a presidência de Rouhani traz o Irã para muito mais perto da Rússia, precisamente por causa da abordagem “desideologizada” dos dois lados. De fato, a Rússia não vê o mundo por algum prisma “Leste-Oeste”. Nem está seduzida pelas ideias da “resistência” e de “justiça” que inflamavam Ahmedinejad, e que Rouhani, gradualmente, vai afastando do discurso iraniano.
É inconcebível que, como a Rússia de Putin, que escrupulosamente evita os excessos soviéticos, o Irã de Rouhani venha algum dia a pôr de lado os interesses nacionais como consideração central de política externa, por mais que se envolvam em questões de segurança regional.
Mas Rouhani tende às políticas neoliberais e da globalização, tanto quanto a Rússia; e os dois lados veem a inovação da economia como objetivo central de suas políticas nacionais. A primeira prioridade de Putin sempre foi trabalhar na direção de parceria equilibrada com o Ocidente, e nunca se cansa de buscar janelas de oportunidade. A abordagem de Rouhani, que pisará em solo norte-americano em poucos dias para participar da Assembleia Geral da ONU em New York, é praticamente a mesma.
Em resumo, ambos, Irã e Rússia, estão pensando de modo tal que pode dar vida nova a essa parceria estratégica. A única saída que resta a Obama para evitar o Nobel de Putin é impedir preventivamente que o Kremlin lance um novo, inderrotável, plano de paz.

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.Em português seus artigos, traduzidos pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, podem ser encontrados no blog redecastorphoto.
POSTADO POR CASTOR FILHO ÀS 14:28:00
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